As propostas populistas não são novidade entre nós: controles de preços, política industrial protecionista e - diante das mazelas causadas pela explosão dos alquimistas que tentavam transformar os 20% do apoio popular em maioria operacional necessária para governar - ressuscitadas propostas de defesa do governo com controles de capitais, queda rápida de juros e ampliação dos gastos públicos para anestesiar o eleitorado e conquistar votos.
Há um risco de que Lula apele para os ganhos de curto prazo, que o populismo econômico lhe dará, ao tentar reafirmar suas chances de um segundo mandato. Mas os mercados não acreditam nisso. Kirchner começou sem apoio político, era apontado, até há pouco tempo, como um exemplo a seguir e seu populismo trouxe de volta a ameaça inflacionária. Poderão a ousadia monetária e o discurso dos controles apagar os rastros da incompetência de gestão, como fator eleitoral? Depende da tolerância do eleitorado-alvo à inflação e dos investidores à incerteza. O presidente argentino apelou para todos os erros da agenda sensata de um país endividado e com tradição inflacionária e populista. Tentará, agora, alcançar a linha de chegada das urnas e colher os frutos de seu populismo antes que a inflação se traduza em desconforto dos eleitores. Lula deve pensar nisso antes de desprezar os ganhos que a convergência da inflação para a meta trará ao seu último ano de mandato.
A queda da inflação esperada aumentará as pressões por quedas mais rápidas dos juros nominais, podendo permitir que isso realmente ocorra. Mas não há saída fácil, especialmente se o governo fizer, ao mesmo tempo, uma queda rápida dos juros e uma limitação à entrada de capitais, como tem proposto. A macroeconomia impõe duas tarefas não triviais para julgar essas propostas: saber se os juros estão acima do que seria necessário para trazer a inflação de volta à meta e se os capitais de risco substituem ou seguem os capitais de arbitragem. No primeiro caso é a idéia de uma taxa natural de juros que, para políticos, empresários e até mesmo para muitos economistas, soa como mero preciosismo técnico. A taxa de juros real observada está alta, mas o aumento da incerteza aumenta também a taxa natural e torna mais problemática a velocidade da queda da taxa nominal. É verdade que os modelos quantitativos que orientam as discussões profissionais de política econômica no mundo de hoje não produzem projeções precisas, o que dificulta esse julgamento sobre a taxa natural. Mas há vantagens para todos quando um banco central, que tem de conquistar credibilidade diariamente, em ambiente onde não faltam alternativas estapafúrdias de política econômica, tem liberdade para seguir suas próprias projeções. E aí os ágeis fluxos de arbitragem permitem uma observação útil no dia-a-dia.
No caso brasileiro, o Banco Central do Brasil tem acertado, mais do que os analistas, as projeções de nível de atividade usadas para medir os custos de ser conservador. Não escrever aquela cartinha em que explica ao ministro da Fazenda por que a meta foi ultrapassada ajuda a melhorar a avaliação do risco País, e este é um prêmio valioso para a racionalidade da política econômica: a queda do custo de capital dará substância às promessas de maior crescimento.
Em meio à tanta incompetência que aflora na condução dos negócios políticos, os custos de um crescimento, neste ano, abaixo do que seria possível, talvez não sejam tão graves, mesmo para Lula. Este poderá enfrentar o ano eleitoral em ambiente melhor do que o PT merece: juros em baixa; câmbio flexível, que poderá depreciar-se naturalmente em caso de ventos externos desfavoráveis; e finanças públicas em processo de superação das anomalias econômicas por trás dos juros reais anômalos. O populismo terá pouco a oferecer, além da retórica de palanque, para compensar a incompetência política.
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