O GLOBO
Um dos fatos mais surpreendentes da economia tem sido o comportamento da balança comercial e, dentro da surpresa, o mês de julho foi o mais inesperado. A moeda já se valorizou 20% nos últimos 12 meses e, quando o normal seria que o superávit caísse, ele atingiu o inédito número de US$ 5 bilhões. A economia brasileira mudou nos últimos anos mais do que os analistas previram ou até entenderam.
Para o resultado, a quinta semana de julho foi a mais decisiva. Na quarta semana, a balança tinha sido de apenas US$ 343 milhões e, na quinta, foi de quase US$ 2 bilhões. A diferença foi que, em uma, a Petrobras exportou pouco e importou muito e, na última, fez o contrário.
— Normalmente, são exportados US$ 700 milhões em petróleo e derivados, mas em julho foram US$ 1,4 bilhão; US$ 700 milhões a mais no saldo. Quase um quinto do total é petróleo e derivados. O Brasil está exportando muito petróleo pesado, que não se refina no país. Há também um aumento enorme nos derivados. Gasolina, por exemplo, aumentou três vezes na comparação julho 05/julho 04. Óleo combustível aumentou uma vez e meia — avalia Joseph Tutundjian, especialista em comércio exterior.
De qualquer maneira, os números do comércio internacional em 2005 desafiam tudo o que foi previsto. Há várias explicações para os fatos, todas descobertas depois que eles aconteceram. No começo do ano, o mercado previa US$ 26 bilhões de saldo; agora, com sete meses, o país está com quase US$ 25 bilhões. O Bradesco faz uma sondagem com os grandes exportadores para construir suas análises. Há muito tempo, ela apontava para saldo de mais de US$ 40 bilhões, para espanto dos próprios economistas que demoraram bastante a incorporar a sondagem em suas previsões.
Nathan Blanche, da Tendências, acha que ninguém acertou o superávit deste ano. Os que previram queda não entenderam, na opinião dele, as grandes mudanças que ocorreram no comércio externo. Ele acha que a taxa de expansão das exportações brasileiras mudou de patamar a partir do segundo semestre de 2002. Elas foram empurradas pela desvalorização da moeda naquele ano, pelo aumento da liquidez internacional, aumento da demanda internacional e mudança do comportamento das empresas exportadoras.
— Mudou o paradigma do câmbio. O dólar pode chegar a R$ 2 e o Brasil vai continuar exportando porque as exportações estão crescendo pelo aumento da competitividade — diz.
Nathan Blanche argumenta também que o exportador tem um ganho não visível para todo mundo:
— Por causa da arbitragem financeira, o valor da taxa de câmbio efetivamente recebida pelos exportadores e o ganho financeiro compensam parte das perdas com a queda do dólar. O exportador vende dólar no mercado futuro a 15% ao ano. A queda do dólar, por outro lado, permitiu uma melhoria importante na solvência das empresas. De 99 para cá, a dívida externa privada caiu de US$ 110 bilhões para US$ 60 bilhões.
Há outro detalhe, segundo Nathan: entre os 10 maiores exportadores, estão os cinco maiores importadores. Isso significa que eles se beneficiam com a queda do dólar em uma ponta compensando possíveis perdas na outra.
Tutundjian admite que a queda do dólar tem comido margem dos exportadores, mas também ressalta que, em parte, isso é neutralizado na queda do custo das importações. Ele aposta que não cairá tão cedo o saldo em 12 meses:
— Estamos em plena safra! Vai ficar neste patamar mesmo. Desde o início do ano, eu falava que o saldo iria fechar entre US$ 30 bilhões e US$ 40 bilhões e ninguém acreditava. O bom é que estão crescendo as exportações e as importações. Em julho, comparado a julho de 2004, as importações cresceram 29% e as importações, 15%. Na média diária, que eu gosto muito de olhar, cresceram 14% e importações, 5%. O que mais cresce são os manufaturados: no acumulado de 12 meses, estão crescendo 63%, os básicos 15% e os semimanufaturados 15,5%. E a importação de bens de capital cresceu 27% no acumulado deste ano. Acho que chegaremos a US$ 130 bilhões em exportações, com US$ 40 bi, US$ 42 bilhões de saldo. Isso com o crescimento das exportações sendo o dobro do das importações — diz.
Um país muda aos poucos e não em obediência a um calendário político. Portanto essa mudança não é obra de uma ou de outra administração. Como José Márcio Camargo lembrou esta semana aqui nesta coluna, a privatização e a abertura mudaram profundamente a economia brasileira. Acrescentaria também a estabilização, sem a qual nenhum avanço teria sido consolidado. A Vale, que gosta de se definir como a maior exportadora líquida do país, apesar de já ser eficiente quando era estatal, ganhou escala sem as amarras do Estado e este ano está exportando US$ 8 bilhões.
O Brasil muda, muda e continua o mesmo. É por isso que surgiram as propostas de que o governo enfrente a queda do dólar à velha moda: com controle de capitais. A idéia de que o Banco Central continue comprando dólar parece boa, mas tem uma contrapartida pesada: o aumento da dívida.
— De dezembro para cá, o governo aumentou sua dívida em R$ 50 bilhões para comprar dólar e, mesmo assim, o câmbio se apreciou em 12%. O tiro sai pela culatra — diz Nathan Blanche.
A solução, na opinião dele, é abrir mais a economia. Com tudo o que abriu, o Brasil ainda é um país bastante fechado.
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