O GLOBO
Ponto para o presidente da República: durante boa parte do depoimento de José Dirceu, terça-feira, Lula deu duro no Palácio do Planalto. A intervalos, um assessor o informava sobre o placar, mas o chefe do governo não largou o timão.
Teve até tempo para presidir a instalação do Conselho Nacional da Juventude — e ânimo para profetizar que a imprensa, preocupada com assuntos escandalosos, não daria importância no dia seguinte ao histórico momento da criação do novo órgão:
— Como minha mãe dizia, coisa ruim sempre tem mais privilégio do que coisa boa no noticiário — vaticinou o presidente.
Na verdade, a instalação do conselho foi registrada. Mas faltou tempo, espaço ou ânimo nesta nossa mídia, incompetente e hipnotizada por questiúnculas de somenos, para ir mais longe. Até mesmo porque a iniciativa é boa. Junta governo e entidades privadas para articularem políticas públicas que façam bem aos jovens. Já ao ser instalado, por exemplo, o órgão começou a discutir o engajamento da rapaziada na campanha do desarmamento.
Por outro lado, também foi bom para o presidente que o parto tenha merecido escassa atenção. Se não dormisse no ponto, a mídia teria o dever de pedir uma explicação ao Planalto: se o conselho é mesmo "coisa boa", como o Executivo explica que o tenha anunciado no fim do ano passado, prometendo sua instalação em janeiro, com verba garantida e tudo mais — e só agora, oito meses depois, tenha voltado a cuidar dele?
Tinha outras prioridades — como se tem visto, dirão os maldosos. Mas podia pelo menos pedir desculpas pelo atraso.
Jornais e programas de rádio e TV de quarta-feira deveriam mesmo registrar a instalação do Conselho da Juventude (o que, por exemplo, O GLOBO fez) — mas com o acompanhamento de criteriosa investigação sobre por que iniciativa tão importante teve tão longa gestação (o que O GLOBO não fez).
Em geral, e isso é universal — dos grandes jornais às conversas de comadres — a novidade ruim tende mesmo a atrair mais atenção do que a notícia boa. É da natureza humana. Mas nem todo fato positivo é notícia. Um homem público cumprir suas obrigações, por exemplo, é bom — mas só será notícia se o fizer em circunstâncias excepcionais, ou com resultados muito acima do esperado.
Qual a graça de saber que alguém fez o que é pago para fazer — a não ser, claro, que isso aconteça em condições particularmente adversas ou originais? E o único dado original na instalação do Conselho Nacional da Juventude foi a extraordinária demora — sem qualquer explicação fornecida — entre o anúncio do ano passado e o fato de agora.
Lula pode contar as favas: a mídia inteira tocará bumbo assim que se consumar a novidade de que o escândalo político do momento terminou com um buquê de boas notícias: um mundão de gente na cadeia e a entrada em vigor de leis eficazes regulamentando a atividade política no país, principalmente no que se refere ao financiamento de campanhas eleitorais.
É ver para crer. Ou, no caso de quem manda no país, será fazer para ver e crer.
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