Em tempos de inferno astral político, mal-estar ético e prenúncio de eventuais turbulências econômicas, eis um monumental desafio para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: frear o inesgotável apetite pelos palanques e dedicar-se mais à tarefa de reorganizar seu governo e menos aos arroubos retóricos de uma campanha eleitoral antecipada. Emparedado pelas escabrosas denúncias que esfacelam o patrimônio ético do PT, tisnado pela paralisia administrativa que esmaece a cada dia as feições do governo, sufocado pelo desejo de escapar da redoma das CPIs em curso, o presidente Lula se tem dedicado, com vigor, ao exercício retórico de campanha. Os passos erráticos se repetiram especialmente nos últimos dias.
Enquanto as lacunas abertas de resultados de gestão se escancaram, o presidente segue uma exaustiva agenda de discursos desconcertantes, sempre balizados pelas cócegas na língua que lhes são habituais. Primeiro Lula situou-se acima do bem e do mal, refutando a possibilidade de algum mortal poder lhe dar lição de moral. Depois acusou a imprensa de destacar as ''coisas ruins'' do governo em detrimento das boas, como se inventasse as primeiras e ignorasse as outras. Nos últimos dias, passeou pelo Nordeste com discurso e jeito de candidato. Anunciou obras, bradou contra adversários, falou em reeleição, chorou ao lembrar o passado. Como aqui afirmado ontem, o presidente talvez busque, com isso, ganhar tempo para perceber se conseguirá, enfim, distanciar-se dos dilemas éticos e institucionais que afligem o governo e o PT. Trata-se, portanto, de uma falsa reação. Lula, no fundo, encontra-se bloqueado pela crise. Na retranca.
Ao presidente, convém repensar essa estratégia. O tempo dos candidatos providenciais, afinal, parece esgotado. É verdade que boa parte da aprovação popular mantida pessoalmente por Lula - com seu simbolismo popular difuso - ainda refaça o tipo tradicional de apoio a lideranças ''populistas''. Tal gênero se sucede na preferência do eleitorado brasileiro: do PTB de Getúlio Vargas, ''pai dos pobres'', a Collor de Mello, o ''caçador de marajás'', passando pelo MDB de 1974, identificado como o ''partido dos pobres''. Superada, contudo, a fase abjeta das ruidosas denúncias de corrupção envolvendo mensalões, malas repletas de dinheiro vivo, tráfico de influência e fisiologismo, dois quesitos serão essenciais para a definição do voto: a honestidade do candidato e os resultados sociais e econômicos a apresentar.
O presidente Lula tem chances reais de ser reeleito somente se puder dedicar-se com mais empenho a uma das fragilidades de seu governo - os parcos números de postos de trabalho gerados até aqui. Também renovará suas esperanças de continuar no Planalto se conseguir sair eticamente incólume dessa fase. Cansados de decepções e incomodados com o jogo obscuro dos bastidores do poder, os eleitores desejam muito mais do que o carisma típico dos líderes que se sustentam no mito do homem providencial. O currículo do candidato é tão relevante hoje quanto a limpidez de sua folha corrida. Sem se preocupar com tais critérios, os eleitores também serão chamados à responsabilidade por reconduzir aos corredores do Congresso aventureiros e irresponsáveis como Valdemar Costa Neto, deputado do PL que renunciou esta semana para escapar da cassação. Em 2006, terão a oportunidade de mostrar a inutilidade da esperteza.
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