O GLOBO
A China comanda a economia do mundo, diz a revista "The Economist". É fato. Nós aqui no Brasil sentimos fortemente os efeitos dessa mudança de ordem mundial. Sentimos na taxa de câmbio, nas exportações, no ritmo da economia. Direta e indiretamente, todos os países sentem o efeito do crescimento chinês, dos seus baixos salários, e do dinamismo que o país espalhou ao redor do planeta. Para o bem ou para o mal, a China está em todas.
O supercrescimento sustentado da economia chinesa elevou os preços de todas as commodities. O Brasil, como grande exportador de commodities, ganha através da elevação do valor das suas vendas externas. Isso poderia produzir um impacto inflacionário aqui — e até já causou tempos atrás — mas, como o dólar caiu muito, em parte também pelo efeito da China na economia americana, a desvalorização compensa a pressão dos preços das commodities. O petróleo atinge níveis jamais vistos, também por pressão da demanda chinesa, mas o efeito disso é fortemente atenuado pela desvalorização da moeda americana.
A queda do dólar tem uma conseqüência direta na economia brasileira. Esta semana, a FGV divulgou a terceira deflação consecutiva do IGP-DI. O acumulado no ano caiu para 1,1%. Isso afetará positivamente as tarifas corrigidas pelo malfalado índice. Já foi tão detestado quando subiu demais por causa do câmbio, que houve luta judicial contra ele. Há três meses, porém, desaba e o efeito será sentido até no ano que vem, na correção das tarifas.
A "The Economist" sustenta que o gigantesco déficit americano, que chegará este ano ao espantoso número de US$ 800 bilhões, não é culpa da China, apesar de os americanos gostarem de pôr no déficit o selo made in China . Os números dizem tudo. O déficit americano com a China é de US$ 100 bilhões, uma parte apenas, ainda que gorda, do desequilíbrio total. Os Estados Unidos têm esse déficit porque consomem muito e poupam pouco. Isso até o secretário do Tesouro americano, John Snow, admite, como fez na entrevista que me concedeu, dizendo que um dos movimentos que levará ao reequilíbrio mundial é a elevação da taxa de poupança americana.
Para financiar seu consumo, os americanos emitem dívida que é comprada pelos outros países do mundo; este ano, a China é o maior comprador. É por isso que a "The Economist" fez um interessante jogo de palavras em mais um dos seus títulos geniais: "From T-shirts to T-bonds." É isto: começaram vendendo camisetas e hoje compram os títulos do Tesouro americano, os treasury bonds.
Apesar da declaração de Snow no Brasil de que a mudança cambial chinesa é importante, ela foi pequena demais para produzir algum efeito. Depois de 11 anos congelado, o yuan teve uma valorização de apenas 2,1%, apesar do extraordinário aumento da força da economia chinesa no mundo. Uma modificação brusca, no entanto, produziria um tremor na economia mundial, portanto a torcida era para que eles fizessem uma mudança cautelosa. Só que foi cautelosa demais.
A revista inglesa acha que a força da economia chinesa não está sendo compreendida corretamente e está sendo subestimada. "Todo mundo sabe que a maioria das TVs e camisetas é feita na China. Mas são também influenciados pelo que acontece na China: taxas de inflação, juros, salários, lucros, preços de petróleo e até dos imóveis", diz o texto da reportagem da capa.
A contribuição da China para o crescimento mundial é o dobro da contribuição somada dos outros três países na lista das potências emergentes no mundo: Índia, Rússia e Brasil. Por outro lado, o país, ao entrar no mundo com seu exército de trabalhadores baratos, está empurrando para baixo os salários ao longo do mundo industrializado. A China, segundo a revista inglesa, tornou o trabalho abundante no planeta e o capital relativamente escasso. Isso aumenta os ganhos de capital e reduz os custos do trabalho. "É irônico que o capitalismo ocidental possa agradecer ao maior país comunista do mundo", diz o texto.
No Brasil, os efeitos da força da China são também subestimados e normalmente os fenômenos bons aqui são inteiramente creditados a razões domésticas. Há importantes mudanças internas que tornam o país mais capaz de aproveitar o bom momento da economia no mundo. Mas o fato é que, este ano, o Brasil cresce menos do que a economia mundial. Parte do crescimento interno é determinada pelo crescimento da China, que encomenda produtos e matérias-primas em abundância. As exportações em maior volume e mais valorizadas estão trazendo dólares também em abundância, os quais, em parte, são responsáveis pela queda da inflação nos últimos meses.
A boa situação das contas externas é a parte mais robusta da melhora dos fundamentos brasileiros, o que nos ajuda a atravessar a forte turbulência política. Mas, sem a crise, o Brasil poderia aproveitar melhor. Estamos desperdiçando, por causa da pior crise política que vimos desde a redemocratização, várias chances econômicas. O risco-Brasil ainda está acima da média dos países emergentes e a classificação das agências não vai mudar.
Perdemos também parte do impulso que vem de fora por sermos um país ainda fechado. Mesmo depois do grande salto do comércio exterior brasileiro, o grau de abertura, medido pela soma das exportações e importações sobre o PIB, é de 25% no Brasil. Era de 14% na metade da década passada. No México, é de 59%; na Turquia, 51%; na Coréia, 71%; e, na China, este ano, deve ser 75%. O Brasil já mudou muito, mas tem muito a mudar se quiser surfar as boas ondas internacionais.
Entrevista:O Estado inteligente
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