Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 06, 2005

2006: Ciro Gomes, o de sempre, vem aí Por Rui Nogueira

PRIMEIRA LEITURA


Intitulada "Ciro quase fora", a coluna do jornalista Merval Pereira, n'O Globo desta sexta-feira, merece ser lida e relida. É uma conversa do jornalista com o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, um desabafo saído das entranhas da conturbada e conspurcada República de Lula.

Eu, porém, fiquei menos impressionado com a ira do ministro querendo saber quem foi o  "filho da p..." que montou o valérioduto, e mais atento à avaliação que Ciro Gomes faz hoje da sua candidatura em 2002, aquela Frente Trabalhista que juntou PPS, PTB e PDT. O ministro chama aquela campanha de "desastrada" e diz a Merval por que assim foi: "A partir de mim mesmo, que disse muita besteira, a partir da aliança política imbecil que eu montei, a partir das loucuras que aconteceram". Os grifos são meus.

Essa autocrítica vem na seqüência de uma verborragia que destila indignação com o momento atual, um vendaval de corrupção que varre o Legislativo e o Executivo e faz de Ciro Gomes um homem enojado. Pensa até em deixar o governo, o que pode acontecer em meio a uma "calmaria", um momento mais apropriado. O ministro fala de um Lula  atraiçoado por todos em quem confiou e da "estupidez" embutida no esquema Valério-Delúbio. Chama Valério de "bandido". Diz que Lula é inocente, não sabe de nada, porque o presidente tem "uma inapetência completa" para tudo ou quase tudo.

Isso tudo é Ciro 2006 a oferecer uma saída a Luiz Inácio Lula da Silva. Ciro tem um grande amigo, o sociólogo e cientista político Marcos Coimbra, proprietário do Vox Populi, a fazer-lhe a leitura das pesquisas qualitativas e quantitativas. Lula corre, sim, o risco de ter de desistir da reeleição. E a saída, que teria de ser sacada de fora do PT, seria oferecer Ciro Gomes como candidato do Planalto – vestiria um modelito que misturaria certas soluções fáceis do manual econômico do petismo com um linguajar social que ficaria a meio cainho entre o populismo escrachado de um Anthony Garotinho (PMDB-RJ) e aquelas idéias pirotécnicas que só ele sabe expor sobre dívida interna, juros, câmbio e outras coisas fáceis de resolver na vida difícil deste país.

Um candidato que diz, agora, não pactuar com as "besteiras" que espargiu em 2002, disposto a uma aliança política que não seja "imbecil" e a não perpetrar as "loucuras" que perpetrou. Quem dá mais?!!

A autocrítica de Ciro Gomes é uma apresentação de candidatura a 2006 diante da desgraça que se abate sobre Lula, capaz de sentenciar a todo um país que terá de "engoli-lo" por mais quatro anos. Se faltava alguma frase desastrada para aprofundar a má-vontade do eleitor urbano para com o PT e Lula, essa apropriação do bordão de Jorge Lobo Zagalo pode ser considerada uma amostra grátis do que um Luiz Inácio Lula da Silva pode fazer em 2006, uma vez desprovido das muletas do marketing  dudamendonciano e da maré política naturalmente favorável em que navegou naquela campanha de 2002.

Como bem lembra um leitor deste site, talvez Lula devesse prestar atenção ao detalhe que Zagalo tantas vezes evoca como sorte, e que, pelo visto, para Lula só deu azar. A trinca Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcos Valério, coincidência das coincidências, tem 13 letras nos nomes. O 13 da sorte de Zagalo só funciona no futebol. Parece, portanto, que não vamos ter de engolir ninguém depois do que o país engoliu nestes dois anos e sete meses.

Mas Ciro está aí, disposto a não ser mais um Ciro desastrado, abestado e louco. Mas nunca deixará de ser o Ciro Gomes que virou um fiel escudeiro de Lula depois de ter as dívidas de campanhas quitadas com os saques de R$ 1 milhão nas contas das empresas do "bandido" Marcos Valério. Dois anos atrás, Valério não era nada disso e, Ciro, bem como todos os petistas que dirigem os diretórios regionais do partido, empanturrados pela mesma  inapetência de Lula, não estava nem aí para a fonte de onde saía o dinheiro. Se Delúbio tivesse mandado sacar na conta do Al Capone, eles teriam sacado.

O problema é que Ciro Gomes tropeça na primeira casca de banana e se revela imediatamente o mesmo de sempre. Acha que a foto dele vai para os jornais, por causa dos saques nas contas de Valério, por pura perseguição da mídia. Então tá!

Trata-se do Ciro de sempre.

Publicado em 5 de agosto de 2005.


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