Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, agosto 05, 2005

Villas-Bôas Corrêa Lula no reino do faz-de-conta

JB


No giro nordestino, com parada em Garanhuns para a visita à parentela que continua resistindo à seca e à miséria na terra onde enterrou o umbigo, o presidente Lula confirmou que é candidato à reeleição - o que não chega a ser novidade - e deu um passo adiante ao antecipar, no comício inicial, o estilo da campanha.

O drible na cautela clássica e óbvia de não precipitar as coisas nas tramas políticas justifica-se pela urgência de fugir da dura evidência do cotidiano que o atormenta com o esguicho dos escândalos conjugados do caixa dois e do mensalão e refugiar-se no reino da fantasia, em que vale tudo.

Dispensando a cerimônia, Lula rompeu com realidade e alçou vôo no azul do faz-de-conta. Antes, com um fundo suspiro de alívio, passou a enfadonha rotina administrativa, que nunca chegou a entender e detesta, para a virtual presidenta em exercício, ministra Dilma Rousseff, que assumiu o cargo abandonado e está atuando com louvável desembaraço.

No gozo de férias virtuais, emenda viagens e cuida da sua agenda pessoal. Na caça às obras por inaugurar no governo que pouco fez em 31 meses de mais da metade do mandato, lançou, em Garanhuns, o Plano Safra da Agricultura Familiar, no palanque armado em praça pública, em meio ao foguetório de festa no interior, para a assistência de duas centenas de pessoas, sendo 30 parentes. E, com cócegas na língua, desabafou a angústia da ambição e dos receios com a degringolada do PT, o desmanche da sua base de apoio parlamentar e o lamaçal que chega à porta do Palácio do Planalto: ''Eu nunca disse se serei candidato ou não''. Depois da pirueta no arame da ambigüidade, o salto no picadeiro e a bravata do exibicionismo: ''Se for, com ódio ou sem ódio, eles vão ter que me engolir outra vez, porque o povo vai querer''.

Certamente não é o melhor momento para contar vantagem e muito menos de antecipar a campanha com o governo à beira do barranco, agarrado ao galho para não despencar no atoleiro.

Acontece que o candidato não pode esperar. Dispara para fugir do desabamento. Esconde-se, fica o mais tempo que pode longe de Brasília e esforça-se para vender o peixe na barraca da feira que inaugura, nas festividades a que comparece, pedindo para ser convidado.

E até quando será possível prolongar a comédia? Se parece conformado com o inevitável do descalabro do governo, com a liquidação do Partido dos Trabalhadores (que está sendo remontado, colando os destroços), o desmantelo das alianças, com a fuga do voto da classe média, joga todo o cacife no povão, fiado nos índices das pesquisas e desatento aos sinais de advertência com a perda de pontos percentuais nos índices de popularidade.

Francamente, com a maior isenção, a mágica está além das notórias habilidades do prestidigitador. Não cabe na cartola o maior escândalo de corrupção da crônica republicana. Bateu o que provocou a renúncia do presidente Fernando Collor de Mello, o dos anões do Orçamento, os das soterradas suspeitas de negociatas na privatização das estatais ou da compra de votos amazônicos para aprovar a emenda da reeleição no primeiro mandato de FHC.

O balcão para a compra do passe de senadores e deputados e o pagamento de mensalão para garantir os votos dos tangidos para o curral governista foi montado pela quadrilha que juntou petistas e gente da turma palaciana. E a dinheirama humilha, onde quer que esteja, o falecido PC Farias da caixinha collorida.

O cobertor das desculpas não cobre o corpanzil do obeso. As revelações de novas roubalheiras pipocam de todos os cantos: as estacas apodreceram, a casa ameaça desabar. Por mais atento e interessado, o eleitor que curte a decepção do voto enganado e o desengano da esperança não consegue acompanhar os intermináveis depoimentos na CPI dos Correios, enquanto a do Mensalão não engrena ou memorizar o volume de informações que enche páginas dos jornais, de revistas ou ocupa metade dos noticiários de rádio e TV.

É crescente a sensação de que a tática de poupar o Presidente e barrar a rapinagem ao limite do Marco Valério e do Delúbio, além de entregar a carcaça do PT às feras, não pegou.

Conceda-se o benefício da dúvida aos salvados do incêndio, aos que invocam, cruzando os dedos, a ignorância do que passou diante dos seus olhos. È impossível acreditar que o esquema de assalto ao dinheiro público, que envolve oito estados, com as listas de centenas de nomes de gratificados com o dinheiro sujo do caixa dois e com os saques regulares do mensalão tenha passado ao largo da imensa máquina oficial.

Não adianta teimar na mentira. O tufão derruba os mais intocáveis tabus, arruína reputações consolidadas em anos de mistificação, destelha ministérios, autarquias, institutos. Varre a Praça dos Três Poderes e zune à porta do Palácio do Planalto. Não tarda a arrombá-la.

O reino da fantasia e do faz-de-conta está em ruína.

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