Para Lula não deixa de ser conveniente a imagem de um ser vivente no mundo da lua O presidente Luiz Inácio da Silva deve saber o que faz, embora dê a impressão de que não sabe o que diz, quando se comporta como um lutador de vale-tudo num cenário mais adequado a um jogador de xadrez.
Lula pode ser tudo, mas lunático não é, embora possa lhe ser, neste momento, extremamente conveniente a imagem de um governante alheio, ausente, enganado pelos subordinados, traído pelos companheiros, uma rainha da Inglaterra no mau sentido.
Enquanto estiver sendo visto assim, o presidente da República tem, por acordo tácito geral, a prerrogativa de escudar-se na condição de inimputável. Se é néscio, não é política, moral ou administrativamente degenerado.
Portanto, que não se tire por menos a capacidade e o entendimento do presidente da República a respeito do que se passa à sua volta.
Se agride e sobe o tom, se fala em reeleição no momento aparentemente menos apropriado para tal, se repete raciocínios comprovadamente ineficazes do ponto de vista do convencimento dos razoavelmente informados, se insiste num caminho amplamente condenado à luz da lógica, Luiz Inácio da Silva deve ter suas razões e nenhuma delas guarda relação com a perda de juízo.
O presidente pode estar equivocado - e tudo indica que esteja - em suas escolhas, mas elas seguem critérios, não obedecem a derivações psicológicas decorrentes do mitológico isolamento do poder, como se fosse crível um distanciamento da dimensão que os pronunciamentos de sua excelência levam as leituras apressadas a crer.
Repare bem o leitor como o presidente se refere sempre, em meio aos supostos delírios, à conclusão das investigações, à posição do Ministério Público que, ao fim e ao cabo, terá de dizer o nome disso tudo que estamos vendo ser investigado.
Pelo jeito que a coisa vai caminhando, o presidente confia na chance de tudo ficar circunscrito, na Justiça, a crimes de natureza eleitoral, cuja prescrição favorece em muito seus autores.
Da brandura das penas em relação a transgressões outras - corrupção, por exemplo -, nem se fala.
Não por coincidência a orientação jurídica - cuja inspiração é obviamente do doutor Thomaz Bastos, cada vez menos ministro e mais advogado de defesa - de todos os envolvidos é a mesma. Nem os políticos com satisfações públicas a dar se preocupam mais em ser apontados como mentirosos.
O foco é produzir declarações e comportamentos que sustentem na Justiça a tese do crime eleitoral. Não há sinais de resguardo político para preservar a credibilidade de quem amanhã poderá disputar votos.
Na realidade, nenhum dos personagens em cartaz leva a sério a hipótese de um sucesso eleitoral em prazo curto ou médio; dedicam-se com afinco e exclusividade - em todos os níveis - a buscar uma vitória parcial do tapetão.
À vigilância sobre a possibilidade de acordos no Legislativo, conviria acrescentar certa atenção aos movimentos no Judiciário.
Troca de cheques
Gasto, com José Dirceu, o último cartucho que estava disposto a gastar, o deputado Roberto Jefferson vai sendo substituído no ranking das novidades da crise por outros protagonistas como, por exemplo, as provas que se cobravam dele no início.
O petebista continua disposto a não ser o algoz público do presidente Lula e, no depoimento de ontem na CPI do Mensalão (nome vulgaríssimo, aliás), deixou claro que o faz por reconhecimento à lealdade demonstrada pelo presidente naquela história do cheque em branco, primeiro, e depois - já com as primeiras denúncias divulgadas - na qualificação do então presidente do PTB como um "parceiro".
Retribuindo a fidalguia, Jefferson afirmou que também assinaria um cheque em branco em favor do presidente da República. Até recuou do que havia dito dois dias antes no Conselho de Ética sobre a participação, como orientador, do presidente Lula no episódio Portugal Telecom.
Isso é o que se passa na cena principal. Num plano menos visível, mas mais realista, Roberto Jefferson sabe perfeitamente bem que as urdiduras contra o PTB que atribui a José Dirceu - e daí a origem da briga dos dois - não ocorreram à revelia do presidente.
Tanto que o deputado cita um pronunciamento em rede nacional marcado - e depois cancelado - para o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, prestar contas a respeito das ações da Polícia Federal, como a ocasião em que o governo federal buscaria desmoralizar publicamente o PTB.
Thomaz Bastos não é ministro de Dirceu. Ainda que vigore a tese de que o ex-ministro da Casa Civil era um primeiro-ministro de fato, o regime é presidencialista. A Roberto Jefferson não escapa esse "pormaior".
Letra da lei
A Lei 1.079, que define os crimes de responsabilidade do presidente da República e dos ministros de Estado, lista em seu artigo 6 as agressões aos Poderes Legislativo e Judiciário.Uma delas é influir no modo de os parlamentares exercerem seus mandatos "mediante suborno ou outras formas de corrupção".
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