Enquanto procura apresentar-se diante de audiências populares como vítima das elites e da imprensa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai contando com a imensa boa vontade de setores do establishment e da oposição no que tange às suas relações com os fatos que vieram a público, envolvendo seu partido e membros do governo.
É verdade que nada de contundente surgiu contra Lula e não há razão para duvidar de seu desconhecimento dos detalhes do esquema montado pela cúpula do PT em associação com o operador Marcos Valério.
Isso, porém, não significa que o presidente deva ser considerado como alguém inteiramente alheio às situações que estão sendo reveladas à nação. Afinal, trata-se de algo patrocinado por seu próprio partido e colaboradores próximos, pessoas com as quais Lula conviveu intimamente ao longo de sua trajetória política.
Não se deve esquecer que sua primeira reação às denúncias foi a de tentar impedir a instalação de uma CPI. Uma grande operação "abafa" foi mobilizada para deter o inquérito parlamentar. O governo queria que as investigações ficassem a cargo da Polícia Federal e circunscritas aos Correios e ao Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).
Vendo seus esforços ruírem diante da mobilização oposicionista e do surgimento de denúncias ainda mais graves, o presidente percebeu que só lhe restava "apoiar" a comissão -e o faz como se pouco antes não tivesse tentado barrá-la a todo custo.
Às evidências de que o então ministro da Casa Civil José Dirceu teria muitos esclarecimentos a prestar, Lula reagiu com intrigante morosidade, ele que já o havia poupado no escândalo envolvendo o assessor parlamentar Waldomiro Diniz. Foi só quando o deputado Roberto Jefferson alertou para a perspectiva de a manutenção de Dirceu "fazer réu um homem inocente" que veio a decisão de o enviar de volta à "planície". Sintomaticamente, apenas três dias antes de deixar a Casa Civil, o ex-ministro afirmou que nada fazia que não fosse "de comum acordo e determinado pelo presidente" -frase interpretada por muitos como uma espécie de "recado" do ex-ministro.
Desde então, duas revelações deixaram Lula em situação desconfortável. A primeira delas foi a compra pela Telemar de uma empresa recém-criada por um de seus filhos. Embora trate-se de uma companhia privada, a Telemar é uma concessionária de serviços públicos cuja dependência de decisões do Estado é evidente. Além disso, as características da aquisição causaram estranheza entre especialistas, configurando uma situação no mínimo constrangedora.
A segunda revelação foi o empréstimo de R$ 29.436,26 concedido ao presidente pelo PT -quitado em quatro parcelas mensais, pagas entre dezembro de 2003 e março de 2004.
Questionada a respeito, a Presidência limitou-se a uma nota na qual afiançava não ter conhecimento "dessas informações", que deveriam ser "buscadas junto ao PT". A falta de esclarecimentos deixou no ar a dúvida lançada por um parlamentar: teria a dívida sido liquidada com recursos de caixa dois operados por Valério?
Parece haver um entendimento tácito de que é mais conveniente deixar o presidente "blindado", à margem dos inquéritos. Mas não se justifica o abandono de investigações em razão dos embaraços que possam criar para o primeiro mandatário. Como observou nesta Folha o colunista Clóvis Rossi, Lula parece querer ser tratado como se fosse inimputável -uma condição que a Constituição brasileira não lhe confere.
Entrevista:O Estado inteligente
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