O ESTADO DE S PAULO
O encontro do presidente Luiz Inácio da Silva com empresários, na sexta-feira no Palácio do Planalto, marca o início de uma nova fase de diálogos por intermédio dos quais Lula pretende construir sua rede de sustentação política para conseguir governar até 2006.
A partir de agora, as 'elites' não serão mais atacadas nem responsabilizadas pela crise. Ao contrário, serão procuradas, aduladas e cultivadas. Por 'elites' entenda-se, até porque no governo não se usa o termo, desde o alto empresariado até a intelectualidade, passando pelos políticos - mesmo de oposição - e, ideal dos ideais, a classe média.
Lula teria, portanto, dada por encerrada a etapa de exclusiva atenção às platéias populares com a qual buscou marcar posição como líder de forte inserção social. 'Ele quis mostrar que não é Collor', resume um ministro, repetindo frase lançada lá atrás, no início da crise, pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves.
Pelo visto, ou o governo incorporou o lema do tucano ou foi o oposto: Aécio fez papel de porta-voz de um discurso elaborado ao molde do interesse do Palácio do Planalto.
A idéia do 'Lula não é Collor' busca exatamente distanciar do presidente o conceito de semelhança entre o atual e aquele escândalo que levou ao impeachment de Fernando Collor.
Nas avaliações do que sobrou de núcleo político no governo, nessa nova fase o presidente deve ficar atento para não repetir 'exageros' cometidos na etapa popular.
O principal deles, carregar consigo a crise e, com suas extravagâncias verbais, transformar os eventos preparados para fortalecer a figura do presidente em acontecimentos politicamente negativos.
Resultado: no dia seguinte, o destaque do Plano Safra propriamente dito era zero. O noticiário registrava apenas uma bravata política acompanhada de uma enxurrada de críticas ao destempero presidencial.
Na noite de sexta-feira, depois do encontro com os empresários, Lula teria conversas a respeito das adaptações de comportamento a serem feitas a fim de tornar as conversas de recomposição política produtivas e eficazes.
Senão, o plano de sustentação não resistirá às investidas de temperamento do presidente. A paciência e a reverência das pessoas hoje já não é a mesma de tempos atrás.
Prova foi a declaração do presidente da CNI, deputado Armando Monteiro, um aliado, logo após o encontro de Lula com os empresários: 'Economia não se blinda com medidas artificiais, com discurso nem com atos de vontade.' Para a ocasião em que foi dita, a frase soou até impertinente. Mas reflete o ânimo das 'elites' e, se bem compreendida, pode servir de baliza aos movimentos do presidente na corrida em busca da recuperação do prejuízo.
Rede
Em movimentos simultâneos, o presidente Lula jantou quintafeira com o ministro Ciro Gomes e o ministro da Justiça teve longa conversa com o senador Antonio Carlos Magalhães.
Além de amigo, ACM esteve com Márcio Thomaz Bastos na condição de presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, por onde passam projetos capazes de montar a agenda 'ativa e positiva' que tanto interessa ao governo.
Ciro Gomes é visto dentro do governo como uma potencial ameaça eleitoral ao PT, caso venha a romper com Lula e resolver se candidatar à Presidência da República.
Cordão
A leniência do PT, do PSDB e do PFL no tratamento reservado aos fundos de pensão na CPI dos Correios é inversamente proporcional à veemência com que o deputado Roberto Jefferson afirmou, na quinta-feira, que eles são uma fonte de abastecimento do 'mensalão'. É esquisito, mas de repente é perfeitamente explicável, como os três partidos - sob o beneplácito do presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral - concordaram em deixar para lá a proposta de quebrar os sigilos bancário e fiscal dos fundos, contentando-se com um pedido de informações à Comissão de Valores Mobiliários e à Secretaria de Previdência Complementar sobre seus investimentos e operações com títulos públicos.
O argumento de que a quebra de sigilo poderia causar turbulências no mercado financeiro é tão verossímil quanto a versão de que tucanos, petistas e pefelistas nada têm a temer com a abertura daquelas caixas-pretas.
Tão briguentos no dia-a-dia da crise, PT, PFL e PSDB mostram-se mutuamente serenos e solidários quando o assunto são os fundos de pensão.
'Wally'
Um exemplo clássico: na quarta-feira ele deveria simplesmente lançar o Plano Safra 2005/2006 em Pernambuco, dando ênfase à questão da agricultura, já que falava para platéia de trabalhadores rurais.
Pois fez talvez o discurso mais enfático dos últimos tempos, dizendo a imprudentíssima frase do 'vão ter de me engolir', referindo-se aos adversários num cenário eleitoral de candidatura à reeleição.
Entrevista:O Estado inteligente
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