Não prometem bom tempo as relações entre a Polícia Militar e os moradores da Rocinha, a favela encarapitada nas encostas que separam os ricos bairros da Gávea e de São Conrado no Rio de Janeiro. Desde a tarde desta quarta-feira, 3, ganha corpo no morro um movimento que pretende levar para o asfalto uma ampla exibição do que tem sido o rosário de maus-tratos servido aos moradores pelo Batalhão de Operações Especiais da PM, o Bope. "Levar" significa ocupar as pistas da auto-estrada Lagoa-Barra, fechar o túnel Zuzu Angel, protestar e dividir mais uma vez a cidade. Por pacífica que venha a ser, esse tipo de manifestação é atalho para o desastre.
A queixa permanente dos moradores retrata o Bope como uma tropa de confronto, que não ocupa a favela para caçar traficantes, o que seria sua obrigação, mas para maltratar mulheres e adolescentes, e jogar bombas de efeito moral nas portas do comércio. Como na quarta-feira, eles dizem. Enquanto traficantes cuidavam do movimento de suas bocas na localidade conhecida como Valão, na parte baixa da favela, soldados do Bope espalhavam humilhação no Laboriaux, como é designada uma das áreas do alto do morro. Bem longe, portanto, do perigo. Da indignação que transbordou nesse dia deriva o projeto de descer a favela.
Tem dedo de traficante nessa história? Por enquanto, aparentemente não. Nasceu entre os moradores e ganhou força nas três associações que reúnem aquele povo. Mas se vier a ocorrer certamente terá. O marketing benfeitor do tráfico não perderia a oportunidade para ampliar a simpatia interna, turbinar a comoção e, de quebra, jogar a conta para a classe média cobrar não de um batalhão, mas da polícia inteira. Aí é que mora o perigo. A terceira divisão da cidade este ano, com as conseqüências conhecidas, tem a dimensão e o gesto de abrir a porta à barbárie. Mesmo uma polícia muito educada considera tênue a fronteira que aparta o gesto da provocação. E disso as lambanças da Scotland Yard são exemplo claro e recente.
Também não se pode esperar da classe média as habituais indignação e cobrança por respeito aos direitos humanos. Por obra da polícia ou não, nos tempos recentes grandes fatias da classe média nas grandes cidades associa cada vez mais a violência às favelas. Some-se a isso a postura dos políticos que agem como reles traficantes. Ou alguém acha que têm outra utilidade para vereadores e deputados os conhecidos centros sociais, senão suprir nas favelas a ausência do poder público, azeitando a troca de favores por votos? Pouco diferem dos traficantes, que trocam a mesma mercadoria por proteção. Da mesma forma, a favelização desenfreada e a inépcia dos governos na ordem urbana não recomendam buscar na classe média o apoio contra a repressão policial. Essa platéia já não aguenta ficar sempre com a conta. Duvida? Então experimente ler as manifestações de leitores de jornais e sites, principalmente depois dos últimos discursos do presidente da República a segmentos menos abonados da população.
Com relação à Rocinha, não fosse o diligente trabalho de Garotinho para banir até os escassos acertos do governo Benedita, as guerras de quadrilhas, protestos e maus-tratos do Bope poderiam não ter existido. O dirigível que vigiava as favelas de longe foi abatido por discursos mal alinhavados e justificativas esfarrapadas. Mas suas câmeras de precisão podiam acompanhar as incursões da PM em tempo real, identificar traficantes e localizar bocas de fumo e cocaína. Com o dirigível no ar dificilmente existiria hoje o feirão diário do pó a partir das seis da tarde na via Ápia, na parte baixa da favela.
É nesse feirão que se abastecem algumas centenas de consumidores locais e gatos-pingados das redondezas. Quem vende cocaína nas esquinas de Copacabana ou nos apartamentos de Ipanema e Leblon trata com o atacadista dono da boca. A exceção fica por conta de alguns (poucos, é verdade) usuários de cacife mais alto. Geralmente artistas de média expressão da TV, que valorizam exibir alguma intimidade com o manda-chuva do morro.
É por conta do feirão e de seus freqüentadores que a polícia acusa a Rocinha de proteger o tráfico. Não é bem assim: o Disque-denúncia, principal fonte de informação sobre a localização de criminosos no Rio de Janeiro, recebe semanalmente a média de 15 telefonemas com pistas sobre os bandidos da favela. Os informantes chegam a descrever a roupa que o bandido está usando no dia. O que incomoda é que o baratilho da droga mostrou a dimensão real do consumo de cocaína e maconha no morro. Nunca se cheirou ou fumou tanto. Nada, porém, que a polícia não possa conter com inteligência e equipamentos.
Andares acima do gabinete do secretário de Segurança, Marcelo Itagiba, no Centro da cidade, fileiras de monitores mostram imagens colhidas por câmeras instaladas da Zona Sul à região Metropolitana do Rio. Dali, com alta definição, a polícia faz vigilância em tempo real. Por quê não faz o mesmo com a Rocinha? Poderia identificar os bandidos e dar fim a esse conflito que atormenta a cidade, submete uma população e ofende a polícia. Os traficantes destruiriam as câmeras? Se não quiser blindá-las, o governo do estado pode contratar um serviço da Nasa de fornecimento de imagens por satélite. É tão bom e preciso que lê até placas de automóveis. É caro? Certamente é mais barato do que a sucessiva mobilização de quase mil homens e veículos para ocupar a favela. Muito mais barato do que as sete mortes ocorridas na favela nos últimos dias. E certamente mais barato ainda do que levar uma favela de quase 70 mil moradores a cutucar o inferno com o dedo.
Entrevista:O Estado inteligente
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