Dirceu, o ex-mestre
dos disfarces
Ex-ministro depõe, tenta enrolar os
deputados, mas vê suas mentiras
cair por terra em tempo recorde
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Juliana Linhares e Julia Duailibi
O aguardado duelo travado na terça-feira passada entre o ex-ministro José Dirceu e o deputado Roberto Jefferson no Conselho de Ética da Câmara teve tudo o que se esperava dele: fartas doses de mordacidade e frieza (das duas partes), exibições de virtuosismo retórico (da parte de Jefferson, claro) e mais uma nova pista da corrupção oficial dada por um de seus participantes mais íntimos. O estoque de denúncias feitas por Jefferson surpreende não apenas por parecer infinito, mas pelo fato de seu dono não errar nunca. Dessa vez, Jefferson apontou a existência de uma conexão portuguesa do PT (LER O embaixador da corrupção). Como atração extra, revelou acalentados "sentimentos primitivos" em relação ao seu adversário – a quem, sarcasticamente, só se referiu como "humilde deputado" (Dirceu vingou-se do tratamento, ao que tudo indica de maneira involuntária, ao chamar o petebista o tempo todo de "Jérfisson", com o postiço sotaque caipira cheio de "erres" que cultiva). Jefferson, enfim, mostrou que continua disposto a ser o homem-bomba da verdade. Já Dirceu demonstrou ser o homem-estalinho da mentira – ou seria "stalinzinho"? Ao optar por não deixar perguntas sem resposta, o ex-chefe da Casa Civil atropelou a verdade diversas vezes. Deu-se mal. Suas lorotas caíram por terra em tempo recorde (veja quadro).
Dirceu mentiu quando: disse que desconhecia os empréstimos contraídos pelo PT via Marcos Valério, negou ter relação com a Portugal Telecom, declarou jamais ter proposto qualquer coisa ilícita a deputados ou partidos e afirmou estar distante do PT desde 2002. Mentiu também quando disse que "não é fato" que seu assessor informal e fiel escudeiro Roberto Marques, o "Bob", tenha sido autorizado a sacar 50.000 reais de uma conta do empresário Marcos Valério. A informação, revelada por VEJA na semana passada, foi confirmada posteriormente por dois outros veículos: os jornais Folha de S.Paulo e Correio Braziliense – que publicaram a mesma notícia com base em fontes diferentes das ouvidas por VEJA. Uma das fontes da revista, no entanto, resolveu desmentir a si própria no sábado em que VEJA chegou às bancas. O deputado Carlos Abicalil (PT-MT), sub-relator da CPI dos Correios, tinha declarado que o assessor de Dirceu o havia procurado para informar-se sobre o aparecimento de seu nome na lista de sacadores de Valério. Em entrevista gravada, Abicalil confirmou que os Robertos eram a mesma pessoa. Mais tarde, divulgou nota negando o que dissera. E sumiu sem deixar rastros. "Desconfio que ele tenha recebido uma ordem do PT para se desmentir", afirma o senador Alvaro Dias (PSDB-PR).
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Estranhamente, atitude semelhante à de Abicalil foi adotada pela diretora financeira da SMPB, Simone Vasconcelos. A reportagem em que VEJA revelou a autorização de saque para o assessor de Dirceu reproduzia um fax emitido pelo Banco Rural em nome de Roberto Marques. Com base no documento, a Folha de S.Paulo procurou Simone a fim de checar a informação de que se tratava do Bob de Dirceu. Por intermédio da assessora de imprensa da SMPB, Claudia Leal, Simone respondeu positivamente. A assessora da SMPB chegou a ensaiar uma descrição física de Bob e comentar que "o assessor do Dirceu é pau para toda a obra". Na terça-feira, em depoimento à Procuradoria da República, Simone, como o deputado Abicalil, voltou atrás na confirmação da informação. Curiosa sintonia. Curioso também que, na mesma terça-feira em que Simone depôs na Procuradoria, José Dirceu tenha usado seu depoimento ao Conselho de Ética para sugerir que o documento autorizando o saque de Bob havia sido "plantado". Não foi, como confirmam a Polícia Federal e membros da CPI. "O documento veio de duas fontes distintas: da PF e do Banco Rural", diz o senador Alvaro Dias. "Além disso, ele segue o mesmo padrão das demais autorizações de saque que recebemos." O senador se refere ao fato, constatado pela PF, de que centenas de autorizações para saques, à semelhança daquela que diz respeito a Bob, não trazem o RG do sacador autorizado. Em nota divulgada na sexta-feira, Bob não desmente que seja o Roberto Marques do documento. Espertamente, diz apenas que não sacou dinheiro do Banco Rural. Ninguém afirmou isso. Documentos publicados por VEJA mostram que ele foi "autorizado" a fazer a retirada – que acabou sendo efetivada por um certo Luiz Mazano, da corretora Bonus-Banval. Investigada por suspeita de envolvimento em lavagem de dinheiro, a corretora, que inicialmente havia informado que o tal Mazano seria um homônimo de um funcionário seu, agora admite que o Mazano é um só. Seu cargo na Bonus-Banval: motorista, e não contador, como havia sido divulgado. Pois é, um motorista foi autorizado a sacar 50.000 reais, no lugar de Bob. Será que ele entregou o dinheiro a Bob ou ao chefe deste?
Bob Marques começou a trabalhar com Dirceu quando o ex-ministro ainda era deputado estadual em São Paulo. Pelo menos quinze dos 40 anos de vida que completará nesta quarta-feira, ele passou ao lado do chefe, a quem dedica canina devoção. Na última terça-feira, podia ser visto no cafezinho da Assembléia Legislativa de São Paulo, onde oficialmente está lotado há vinte anos, conversando com um grupo de deputados e assessores. O assunto: o "Zé". Dizia Bob: "O Zé não sabia de nada. O Genoíno é que foi um idiota. Deixou as coisas correrem soltas no partido e aí o Silvinho e o Delúbio fizeram o que quiseram". E repetia: "O Zé está limpo nessa". Defender os interesses do "Zé" sempre foi a missão de Bob, ainda que seu salário (8.000 reais) provenha da Assembléia, onde, desde 2003, ocupa o cargo de assessor especial parlamentar da Primeira Secretaria da Mesa Diretora.
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Em março deste ano, por exemplo, Bob trabalhou duro para o chefe. Na ocasião, estava em curso a eleição para a presidência da Assembléia Legislativa paulista. Interessava ao PT, e particularmente a Dirceu, derrotar os tucanos na disputa. Os petistas haviam acabado de sofrer uma fragorosa derrota na Câmara dos Deputados com a eleição de Severino Cavalcanti, do PP, para a presidência da Casa. O apoio do PSDB a Severino foi decisivo no processo. Dirceu não engoliu o episódio e queria dar o troco aos tucanos. Ordenou que o PT paulista providenciasse a candidatura do deputado Rodrigo Garcia (PFL) para concorrer com Edson Aparecido, que disputava o cargo pelo PSDB. A Bob coube, a mando do chefe, percorrer os gabinetes da Assembléia à cata de votos para Garcia e organizar uma bizarra excursão parlamentar a um hotel em Atibaia (a 60 quilômetros de São Paulo), visando a garantir a vitória petista. O grupo de excursionistas, formado por cerca de trinta deputados, incluía parlamentares já devidamente convencidos a dar seu voto para Garcia e outros inclinados a fazê-lo. Confinar a turma por três dias em um hotel e só liberá-la às vésperas da eleição foi a forma encontrada por Dirceu para reduzir o risco de os deputados mudarem de idéia na votação. Dias depois da eleição, que deu a vitória a Garcia, parlamentares reunidos no plenário da Assembléia testemunharam o orgulho de Bob pelo sucesso da missão. Ao vê-lo entrar no salão, o deputado Roque Barbiere (PTB) gritou: "Olha o filho do Zé Dirceu!". Ao que Bob respondeu: "E com muita honra". Na Assembléia, Bob atrai simpatias mais pelo jeito bonachão do que pela capacidade de fazer análises políticas encorpadas – o que, afirmam deputados, não é o seu forte. Sua devoção a Dirceu faz com que ele suporte calado as sucessivas humilhações a que o chefe o submete. O ex-ministro é conhecido pelo hábito de falar com seus subordinados aos berros – mesmo em público. Bob é seu alvo predileto.
O assessor informal de Dirceu passa boa parte de seu tempo em Brasília. Viaja para lá pelo menos duas vezes por semana, sempre para tratar com o chefe, e tem livre trânsito nos principais andares do Palácio do Planalto. O relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio, quer convocar Bob para depor. Será uma oportunidade para que ele fale à vontade sobre seu assunto favorito (o "Zé") e, quem sabe, responda a algumas perguntas que não querem calar. Por exemplo: quem paga suas viagens a Brasília? (A Assembléia Legislativa não é, conforme informou a liderança do PT na Casa.) Por que razão o assessor informal do ex-ministro da Casa Civil estaria autorizado a sacar dinheiro da conta de um empresário acusado de ser o principal operador do mensalão? Por que a autorização dada a ele foi transferida no dia seguinte para uma corretora acusada por Simone Vasconcelos de repassar dinheiro de Valério a deputados petistas? Espera-se que, ao responder a essas e outras questões, Bob não siga o exemplo do chefe – que, se já provou ter talento de sobra para encarnar um personagem fictício no período da ditadura, não vem sendo bem-sucedido na tentativa de ocultar verdades que dizem respeito a roubo de dinheiro público.
Com reportagem de Camila Pereira e Chrystiane Silva
Onde está Bob?...
...Sempre atrás, é claro
Claudio Rossi![]() | |
Jonne Roriz/AE![]() | |
| Marques, que foi autorizado a sacar dinheiro da SMPB, é de uma fidelidade canina a Dirceu, que o humilha sempre que pode: no alto, chefe e secretário durante comício da campanha presidencial de 1994; acima, em caminhada na Avenida Paulista, em São Paulo, pela candidatura de Marta Suplicy; ao lado, num calçadão do Recife, em março deste ano; e, abaixo, no encontro nacional de vereadores e deputados do partido, em São Paulo, em 2003 | Dida Sampaio/AE![]() |
Ed Ferreira/AE![]() | |






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