Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 06, 2005

O embaixador da corrupção

VEJA


O embaixador da corrupção

Não era só no Brasil que Marcos Valério
falava em nome do Planalto. Em Portugal,
governo e empresas abriram suas portas
para o "consultor" de Lula


Marcio Aith

 
Rafael Neddermeyer/AE e Ana Araujo
QUE CONFUSÃO, ORA POIS!
Conexão portuguesa: segundo o deputado Jefferson (à dir.), Marcos Valério viajou para Lisboa para obter da Portugal Telecom, a maior empresa privada daquele país, uma contribuição financeira capaz de "colocar em dia" as contas do PT e do PTB




O Brasil descobriu tarde os talentos de Marcos Valério, o publicitário-lobista responsável pelo esquema clandestino de arrecadar e repassar dinheiro ilícito a parlamentares aliados do governo petista. Na semana passada, veio à tona que, mesmo antes de ser revelado à opinião pública brasileira pela verve do deputado Roberto Jefferson, Valério já tinha construído uma reputação além-mar, em Portugal, onde era recebido como um emissário do governo Lula. Como vem se tornando hábito nessa crise política, que completa três meses, as operações portuguesas de Valério começaram a ser desvendadas pelo próprio Jefferson – na terça-feira, durante seu primeiro embate cara a cara com o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, e em seu depoimento à CPI do Mensalão, na quinta-feira. Jefferson acusou o ex-ministro de montar uma operação de caixa dois com a multinacional Portugal Telecom, dona da operadora de celulares Vivo e a maior empresa privada portuguesa. Por ordem de Dirceu, Valério e o ex-tesoureiro informal do PTB, Emerson Palmieri, teriam sido enviados a Portugal para recolher da companhia telefônica 12 milhões de reais ao PT e outros 12 milhões de reais ao PTB, a fim de "colocar em dia" as contas dos dois partidos.

Jefferson fez outra revelação sobre as incursões de Valério na terra de Camões. Segundo o deputado, o publicitário-lobista lhe propôs, em julho de 2004, uma curiosa "operação casada" para pagar as dívidas de campanha do PT e do PTB. O deputado deveria influenciar seu amigo Lídio Duarte, ex-presidente do Instituto de Resseguros do Brasil, a transferir em torno de 600 milhões de dólares das reservas internacionais do instituto para o Banco Espírito Santo, sediado em Portugal e controlador justamente da Portugal Telecom. Em troca, o banco português utilizaria esses recursos para financiar a Eletronorte na reestatização de algumas de suas linhas de transmissão. Os dois partidos endividados ficariam com uma comissão de 90 a 120 milhões de reais caso a negociação fosse concretizada. "Tratei de todos os assuntos com vossa excelência, deputado José Dirceu, os republicanos e os não republicanos. Vossa excelência nos deixava à vontade para qualquer conversa na ante-sala do presidente da República", concluiu Jefferson.

 

Roberto Setton
UM CICERONE DE LUXO
Presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa apresentou Valério à alta corte de Lisboa

Assessorado por uma comitiva de advogados, Dirceu negou tudo. "Quero repelir e negar de forma peremptória", disse o ex-ministro. Em vão. Em questão de horas, novos fatos deram força às acusações de Jefferson. O ex-ministro José Dirceu, que na terça-feira garantira não ter nenhum envolvimento com a operação, foi flagrado em contradição por sua própria agenda. Em documento enviado à CPI dos Correios, há o registro de um encontro de Dirceu com o representante do Banco Espírito Santo. O português Ricardo Espírito Santo foi acompanhado na audiência pelo publicitário Marcos Valério de Souza. Dirceu defendeu-se dizendo que quem marcou a reunião não foi Valério, mas o banco. Novamente Dirceu foi pego na mentira. O Banco Espírito Santo informou que tentara agendar por três vezes o encontro com Dirceu, mas só chegou ao ex-ministro quando Valério ofereceu uma aproximação. Para piorar a situação de Dirceu, confirmou-se que, treze dias depois desse encontro no gabinete do ex-ministro, os mensageiros do PTB e do PT viajaram para Portugal. Estiveram em Lisboa entre os dias 24 e 26 de janeiro deste ano, como indicara Jefferson. Marcos Valério garantiu que não viajou para buscar propina, e sim para tratar da venda da Telemig Celular, operadora de celular à qual presta serviços publicitários, para a Portugal Telecom. Disse ainda que o "amigo" Palmieri o acompanhou por estar "estressado". De acordo com Valério, ele queria garantir que a conta de publicidade da companhia de celular de Minas Gerais continuasse nas mãos de uma de suas agências, a DNA, caso a empresa fosse vendida aos portugueses.

 

Fernando VIvas
CHANTAGEM
Convencer o banco português a salvar o Econômico, de Calmon de Sá (à esq.), garantiria a Valério um silêncio de 200 milhões de reais. VEJA antecipou a chantagem

As acusações de Jefferson ganharam ainda mais força quando se descobriu que Valério também esteve em Portugal em outubro de 2004, ocasião em que se encontrou com o presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa. Logo depois, Valério e Costa foram recebidos em audiência pelo então ministro de Obras Públicas, Transportes e Comunicações de Portugal, António Mexia. Coincidência ou não, Mexia foi durante oito anos um alto executivo do Banco Espírito Santo. Para piorar, em uma reportagem publicada no mês passado pelo semanário português Expresso, o ex-ministro Mexia disse ter recebido Valério na qualidade de "consultor do presidente do Brasil, a pedido de Miguel Horta e Costa". Ou seja, enquanto vivia de forma obscura no submundo da corrupção no Brasil, Valério era tratado como o homem de Lula em Portugal, um embaixador (como diria Jefferson) para negócios "não-republicanos". O ex-ministro português procurou logo contornar a crise com um curioso jogo de lógica. Disse não se recordar das palavras exatas de Miguel Horta e Costa quando este lhe apresentou Marcos Valério. Apenas ficou com a idéia de que ele era "uma pessoa importante no Brasil, com influência e cuja opinião importa". Informalmente, o antigo ministro admite que teve a impressão de tratar-se de um consultor ou representante do governo brasileiro ou do presidente Lula da Silva. Ou seja, Valério foi recebido como consultor de Lula. Só não se apresentou como tal. Sobre o que conversaram? "A conversa foi de circunstância, não houve nenhum tópico específico, muito menos algo que não tinha nada a ver com a minha função de ministro. Nunca o tinha visto, nem o voltei a ver", diz Mexia. O embaixador do Brasil em Portugal, Paes de Andrade, negou ter oferecido qualquer tipo de assistência a Valério durante sua viagem a Lisboa. Pois é, ministro em Portugal recebe qualquer um para tratar de qualquer coisa – "Você acredita nisso?", perguntaria Jefferson. Ainda em outubro de 2004, Marcos Valério também se encontrou em Lisboa com o vice-presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado. Segundo o banco, Valério foi recebido para oferecer em Portugal os serviços de sua agência de publicidade. Salgado teria respondido a Valério que ele deveria se dirigir à filial do Banco Espírito Santo no Brasil. Mas nada se compara ao grande projeto de Marcos Valério.

 

Renata Jubran/divulgação
A AGENDA PRECIOSA DE DIRCEU
Treze dias antes de uma de suas viagens a Portugal, Valério e Ricardo Espírito Santo, representante do Banco Espírito Santo, trataram de negócios com o ex-ministro José Dirceu. O "pinóquio" disse não se lembrar

VEJA descobriu qual era seu maior interesse no mundo empresarial português. Há três semanas, a revista revelara que o publicitário-lobista ameaçava o governo de contar tudo o que sabe sobre o esquema de corrupção. Exigiu, para silenciar-se, 200 milhões de reais, que, segundo ele, viriam da intermediação do fim da liquidação do Banco Econômico. Esse valor equivale a 20% do que o ex-controlador da instituição, Ângelo Calmon de Sá, pretende levar se o Banco Central autorizar o fim do processo nos moldes propostos pelo ex-banqueiro. O que não se sabia naquela ocasião é que Calmon de Sá não era o único interessado no fim da liquidação do Econômico. Cerca de 30% do controle do banco está hoje nas mãos do Millennium Banco Comercial Português, uma das maiores instituições financeiras de Portugal – curiosamente, a maior concorrente do Banco Espírito Santo, com o qual Valério também andou namorando, numa espécie de adultério. Desde 1995, o banco português tem 36 milhões de dólares enterrados no Econômico. Quase desistiu desse crédito até conhecer um plano arquitetado por Valério e Calmon de Sá para tirar o Econômico do buraco. Segundo a proposta, o Millennium injetaria 5 bilhões de reais no Econômico, levantando a liquidação e assumindo o patrimônio do banco, estimado em 10 bilhões de reais. Nessa eventualidade, Calmon de Sá e Valério sairiam com comissões que lhes proporcionariam malas e malas de dinheiro. Animado, o banco português pediu à embaixada de seu país em Brasília que conferisse a viabilidade do negócio no Banco Central brasileiro. Os portugueses concluíram que uma injeção de 5 bilhões de reais realmente encerraria a liquidação do Econômico. Mas que, pelos cálculos do BC, o Millennium não sairia desse negócio com os 10 bilhões de reais mencionados por Valério. Ao contrário, jogaria 5 bilhões de reais no lixo. Por um motivo simples: como o Econômico foi liquidado pelo Proer, o que envolveu injeção de recursos públicos, o BC proíbe que os liquidados saiam com dinheiro no bolso. Valério tentou pressionar o BC a mudar de posição. Para isso, fez visitas a diretores da instituição e mandou ameaças veladas a vários deles. Considerava o assunto "em andamento" até estourar o escândalo do mensalão. A VEJA, o Millennium confirmou o interesse no desfecho da liquidação do Econômico, mas negou qualquer negociação com Valério. "Temos como exclusivo interesse a recuperação do crédito junto ao Econômico", diz Paulo Fidalgo, diretor de comunicação do banco. "Mas desconhecemos qualquer história em que o senhor Marcos Valério seja parte ou protagonista."

Dida Sampaio/AE

INSTINTOS PRIMITIVOS
Dirceu (ao fundo), observa seu algoz: "Tratamos de assuntos republicanos e não-republicanos", afirmou Jefferson


O interesse de Valério pelas empresas portuguesas explica-se nem tanto pelo montante que elas já têm investido no país, mas pela perspectiva de novas frentes. No ano passado, Portugal injetou 570 milhões de dólares no Brasil, o que representa a oitava posição no ranking de investidores estrangeiros. O valor é nada menos do que 200% acima dos investimentos feitos em 2003. As principais empresas portuguesas no Brasil são Portugal Telecom, Energias do Brasil e Sonae Supermercados. O Grupo Espírito Santo, o terceiro maior conglomerado empresarial português, já teve presença mais forte no Brasil. Segundo maior acionista da Portugal Telecom, protagonizou uma grande negociação em 1997, quando comprou o Banco Boa Vista, do Rio de Janeiro. Seus sócios na empreitada foram o Grupo Monteiro Aranha e os franceses do Crédit Agricole. Dois anos mais tarde, o negócio naufragou, causando prejuízo de 270 milhões de dólares para cada um dos sócios. A solução foi revender o Boa Vista ao Bradesco. Mas isso não desanimou os banqueiros portugueses, dispostos a fincar bandeira no Brasil. O segundo movimento foi procurar um parceiro mais forte: estreitaram laços com o próprio Bradesco. Hoje, o banco brasileiro possui 6,5% do Espírito Santo em Portugal e aproximadamente 20% da subsidiária brasileira. Os portugueses, por sua vez, detêm em torno de 3,5% do capital total do Bradesco e 16% da Bradespar, o braço de participações do banco. Desde 2001, o braço brasileiro do Espírito Santo não parou de crescer e hoje é o sexto maior banco de investimentos do país. Especializou-se no rentável mercado de fusões e aquisições. Em apenas dois negócios, mostrou sua força: foi quem intermediou a compra da operação brasileira do Banco Bilbao Vizcaya pelo Bradesco (800 milhões de dólares) e a aquisição da Tele Centro-Oeste Celular pela joint venture Telefónica-Portugal Telecom (1 bilhão de dólares). Outro ramo em que o grupo operou fortemente foi na colocação de papéis da dívida privada brasileira no mercado internacional, principalmente na Europa. Hoje, além das atividades bancárias, o Grupo Espírito Santo tem participação acionária no grupo Accor de hotéis e no Shopping Villa-Lobos, em São Paulo, entre outros investimentos.

 

AE
O TURISMO DO STRESS
Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB: diz ter ido a Portugal com Valério somente para "aliviar o stress"

Mas está certamente na telefonia o maior interesse empresarial português no país. O setor deverá entrar em breve numa nova fase. Barreiras legais que impedem a atuação nacional de empresas de telefonia fixa deverão cair em breve, o que aumentará a disputa pelo controle do setor. Além disso, várias companhias de telefonia celular deverão ser vendidas em breve. A Telemig, uma delas, é estratégica para a Vivo – e, portanto, também para a Portugal Telecom, que divide com a espanhola Telefónica o controle da empresa no Brasil. Forneceria à companhia a última peça que falta no Sudeste para lhe dar cobertura nacional. A Vivo tentou obter licença junto à Anatel para operar uma nova empresa de telefonia móvel em Minas Gerais, mas o pedido foi negado. A única saída foi partir para a aquisição. Os dois caminhos para comprar a Telemig são a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, e o Opportunity de Daniel Dantas. A Portugal Telecom optou por negociar com Dantas, e as conversas se estenderam de setembro de 2004 até o fim do ano. Chegou-se a fechar um acordo, mas na última hora ocorreu um problema decorrente da longa queda-de-braço de Dantas com seus sócios. O Citibank, já convencido pelos fundos de pensão a destituir o Opportunity da gestão de seus recursos, freou a operação. Dantas ainda tentou leiloar sua participação na Telemig no fim de março, mas acabou impedido pela Justiça de Nova York, cidade que sedia o Citibank. A Portugal Telecom admite ter fracassado em todas as frentes. E diz que seu interesse pela Telemig está reduzido devido à opção tecnológica da empresa (que escolheu a tecnologia GSM, que Daniel Dantas queria, em vez da CAMA, adotada pela Vivo). Em meio a essas dificuldades, as empresas decidiram abrir as portas ao embaixador Marcos Valério.

 

Roberto Stuckert Filho
REPRESENTANTE OFICIAL
Segundo o embaixador Paes de Andrade, Valério não recebeu nem pediu apoio dos diplomatas em Lisboa

 

Tem dinheiro voando por aí

Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem
DE MALUF A LULA
Zilmar, responsável por "repaginar" o presidente e a primeira-dama: 15 milhões no ar

O publicitário Duda Mendonça, em nota divulgada na sexta-feira, negou que tivesse recebido 15 milhões de reais das contas de Marcos Valério por intermédio de sua sócia, Zilmar Fernandes, como havia afirmado a diretora financeira da SMPB, Simone Vasconcelos, à Polícia Federal. Em seu depoimento, Simone disse que o dinheiro era entregue a Zilmar pelo policial civil David Alves. Ouvido na quinta-feira pela CPI dos Correios, Alves desmentiu Simone. Disse que o dinheiro que sacava era entregue à própria diretora financeira da SMPB e a Cristiano Paz, sócio de Valério na empresa. Zilmar Fernandes, que trabalhou com Duda na campanha de Paulo Maluf em 1992, atuou também na que elegeu Lula. Era responsável, entre outras coisas, pela "repaginação visual" do casal Lula e Marisa Letícia. Assim como Zilmar e Duda, diversos deputados que confirmaram ter sacado dinheiro das contas de Valério vêm reclamando que o empresário e sua diretora financeira têm atribuído a eles valores superiores aos que efetivamente receberam. Se for verdade, alguém está tentando empurrar dinheiro a mais no colo de alguns. Seria para poupar outros? Deputados como Sandro Mabel (líder do PL) e Pedro Henry (PP), por exemplo, acusados nominalmente por Roberto Jefferson de ser recebedores do mensalão, até agora não apareceram em lista nenhuma.

Com reportagem de Lucila Soares e
Antonio Ribeiro, de Pari

Nenhum comentário:

Arquivo do blog