Entrevista:O Estado inteligente

sábado, maio 12, 2007

Câmera roqueira


Os trabalhos do americano Bob Gruen mostram
a importância da fotografia para o rock – um gênero
em que a imagem é quase tudo


Sérgio Martins

Fotos Bob Gruen
Led Zeppelin (no alto, à esq.), Sex Pistols (à esq.) e John Lennon: "Os roqueiros sabem que são personagens"

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Tanto quanto a música, e às vezes mais do que ela, a "atitude" define um roqueiro. Roupas, gestos e caretas são fundamentais para que ele encontre o seu público e demarque o seu espaço no showbiz. Não é surpresa, portanto, que o rock tenha estabelecido desde cedo uma aliança estreita com a fotografia. Ao misturar o espontâneo e o calculado, ou, nas palavras da crítica cultural Susan Sontag, "nuvens de fantasia e nódulos de informação", a câmera sabe criar ícones – e ajudou a fazer isso, ao longo de cinqüenta anos. A fotografia de rock é um gênero à parte, com existência própria. Ela conta com seus grandes nomes, como Jim Marshall, Anton Corbijn e Bob Gruen – esse último um americano de 61 anos cujo trabalho pode ser visto a partir desta semana no Museu de Arte Brasileira da Faap, em São Paulo. A maior parte das fotos da exposição, batizada de Rockers, se encontra num livro homônimo lançado pela editora Cosac & Naify.

Gruen começou a fotografar roqueiros porque amava os shows e a música. Era, em resumo, um fã. Ele considera que seu primeiro trabalho profissional aconteceu em 1965, num show famoso em que Bob Dylan trocou o violão pela guitarra elétrica e assim comprou uma enorme briga com a platéia. Gruen havia usado a câmera para conseguir um espaço entre os jornalistas, na fila do gargarejo, mas depois de registrar esse espetáculo antológico começou a levar suas fotos a sério. Ele clicou artistas do primeiro escalão do rock, como John Lennon, Rolling Stones e Led Zeppelin, registrou os primeiros passos do movimento punk nas apresentações de Sex Pistols e The Clash e até hoje mostra disposição para conhecer novidades. Seus trabalhos mais recentes incluem um show dos badalados White Stripes e outro da banda finlandesa de heavy metal Lordi, na Times Square, em Nova York.

O espírito de fã é evidente nas fotos de Gruen. Ele ajuda cada músico que fotografa a construir ou depurar um personagem. "Roqueiros são, na essência, personagens. É por isso que eu gosto de trabalhar com eles. O cantor Mick Jagger, por exemplo, é bem mais interessante que o Jagger do cotidiano", diz Gruen. Suas fotos são tanto melhores quanto mais ele tenha a oportunidade de conviver com os modelos em situações informais. Um exemplo disso é a foto clássica de Sid Vicious, dos Sex Pistols, lambuzado de mostarda. "Cliquei a imagem quando ele estava comendo um hot dog e resolveu assumir sua persona punk", conta o fotógrafo.

Bob Gruen fotografou lendas do rock e ainda vai atrás de novidades. No alto, Mick Jagger no palco com o parceiro Keith Richards. À esquerda, o cantor Iggy Pop se diverte com Debbie Harry, "moça de voz forte, beleza extraordinária e atitude punk". À direita, o duo White Stripes numa apresentação recente

Gruen não está interessado em embelezar os seus modelos – mas tampouco está ali para capturá-los em ângulos desfavoráveis. São raras as imagens como a que ele fez de Iggy Pop, sem camisa no palco, em 1996: nela, a pele do cantor é uma espécie de couro sem brilho, curtido por décadas de abuso de drogas. Se existe alguma crueldade nessa foto, no entanto, é apenas aquela inerente à fotografia. Para citar mais uma vez Susan Sontag, "tirar a foto de alguém é dar testemunho de sua mortalidade e vulnerabilidade". Isso é mais verdade ainda quando se trata de registrar a história do rock, um gênero que se dedica a celebrar a juventude – mas que não poupa os seus artistas da passagem do tempo.

O pecadilho de Gruen é a indiscrição. Ele adora flagrar os roqueiros à vontade, nos bastidores. Muitos acabaram por tornar-se seus amigos – entre os quais, John Lennon, que deixou que ele registrasse sua vida em família. Gruen foi o primeiro a tirar um retrato de Sean Lennon, filho de John e Yoko: "Ele tinha 1 mês de idade. John e Yoko vestiram quimono porque queriam enviar as fotos para parentes dela no Japão". Certa ocasião, em 1975, Gruen estava na casa de Lennon quando este recebeu uma visita de Paul McCartney. Os ex-beatles não se falavam havia cinco anos. "Fiquei ali, assistindo ao reencontro e torcendo para que pedissem uma foto. Mas o pedido não veio, e eu não podia trair a confiança deles." Como todo fotógrafo, Bob Gruen tem sua lista de "imagens perdidas". Mas não importa. As que ele fez são um show.

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