Jornal O Globo
Se os outros seis jogos do Brasil forem assim, não sei se quero
assistir não. Foi sofrimento demais. Sabia que estréia é assim mesmo,
não tem nada a ver com o resto. Já ganhamos a Copa do Mundo
empatando, perdendo ou vencendo o primeiro jogo. Em 50, demos um
banho de 4 x 0 no México, e no final foi aquele desastre. Já em 2002,
ganhamos da Turquia sabe Deus como e voltamos com a Taça. Mas é que
foi tal a expectativa que se criou para a partida de ontem que eu
pelo menos vivi ansiedade de decisão.
No meio do sufoco do segundo tempo, com aqueles lances de perigo, com
Dida fazendo defesas incríveis e diante daquele mar vermelho de gente
cantando e vibrando na arquibancada, eu sonhava em ser croata por um
dia. Ou esse povo não liga para futebol como a gente ou é feliz até
na derrota. Vai ser alegre assim na... Croácia.
Resta a esperança de que, se mesmo jogando mal ou aquém do que sabe o
Brasil venceu, imagina quando der tudo o que sabe e pode. Acredito
que ele continua favorito e não deve temer o favoritismo, que acaba
por não ser um fator determinante a favor ou contra. A seleção não
perdeu em 50, em 82 ou em 98 por excesso de confiança, mas por falta;
não porque fez pouco do adversário, mas porque fez pouco de si mesmo,
porque os jogadores amarelaram.
Isso de achar que é prejudicial assumir o favoritismo tem a ver com a
superstição de que seríamos especialistas em contrariar a lei de
Murphy. A crença é de que quando tudo parece dar errado é que vai dar
certo. A exemplo do país, a sina da seleção seria enfrentar
dificuldades e superar a adversidade. Como bons brasileiros, os
jogadores só saberiam vencer tropeçando nas peripécias. Assim, não
saberíamos conviver com a expectativa favorável. Segundo essa
discutível teoria, quando confiam em nós, aí é que amarelamos; quando
desconfiam, queremos provar o contrário.
O jogo de ontem, com todas as lições que deixou, desfez esse mito,
assim como o de que o nervosismo iria ser o principal adversário do
Brasil. O Brasil não obteve uma vitória expressiva e convincente
devido a motivos “psicológicos”, mas por causas meramente
futebolísticas, entre as quais se destaca o desempenho patético de
Ronaldo Fenômeno. Não se entende por que Parreira só decidiu colocar
Robinho aos 24 minutos do segundo tempo. Se tivesse entrado antes, é
possível que nosso sofrimento fosse bem menor.