Entrevista:O Estado inteligente

sábado, junho 03, 2006

Um país e muitos debates- Miriam Leitão.com

3.6.2006 | 12h29m

Houve tanta discussão interessante neste site que nem sei por onde começar.
O debate sobre salário do funcionalismo tem controvérsias, mas com vários pontos importantes mesmo entre os que discordavam.

O que o ministro Paulo Bernardo estava falando é que o Poder Judiciário tem autonomia para aumentar os salários, e que tudo o que o Executivo pode fazer é negociar formas parceladas. Não dar autonomia é tirar um pouco a independência do poder. Dar essa autonomia é um perigo fiscal porque como perguntou Cleudo como é que o presidente não pode vetar se uma proposta for imoral. Não estou chamando de imoral a proposta, mas essa fórmula abre essa possibilidade e os outros poderes aumentarem os gastos irresponsavelmente. O Executivo depois que se vire para pagar os salários. E ele vai se virar do jeito de sempre: atacando o nosso bolso.

O problema é que não existe almoço grátis. O contribuinte sempre paga a conta e por isso temos todos o direito de discutir o tema que às vezes ofende os servidores.

Mas veja o que ponderou o André, engenheiro concursado com 12 anos de trabalho e um salário de R$ 1.800,00. Ele mostra duas coisas importantes: desequilíbrios dentro do próprio setor público: alguns ganhando muitos, outros ganhando muito pouco. Outra coisa: ele disse que muito dinheiro passa pela mão dele, porque ele tem o poder de liberar vários gastos, mas o argumento não foi usado para justificar a tese de que deve-se pagar bem para evitar a corrupção. Concordo com ele, é a barreira moral que impede a corrupção. Além disso, a transparência e a capacidade de fiscalizar os atos do Setor Público darão à sociedade mais chance de evitar os desvios.

Há muita injustiça salarial para ser corrigida no Setor Público, mas há gente com vantagens demais também e que não podem ser reduzidas por causa do direito adquirido que o ministro Tarso Genro criticou. Outro assunto para debates apaixonados. O Brasil é um país assim, com tudo para discutir.

Guilherme lembra que a trajetória de despesas crescentes pode não causar problemas orçamentários se o país crescer. Depende Guilherme, o país crescendo tudo fica mais fácil, de fato. Mas as despesas têm que crescer nas áreas certas e de maneira sustentável para caber dentro de qualquer orçamento, com qualquer conjuntura. Um país que tem uma dívida de 50% do PIB, precisa ter despesas equilibradas, para dar confiança aos credores. E os credores são todos os que têm dinheiro aplicado no banco.

O Brasil gasta muito e gasta mal. É isso que está na raiz de qualquer discussão. Ele gasta mais como proporção do PIB do que a Coréia na área da educação superior. E lá eles tem 82% de jovens na universidade e nós, 18%. Gasta três vezes mais per capita com saúde do que a China e os dois países têm a mesma mortalidade infantil e a mesma expectativa de vida. O gasto com auxilio doença triplicou em três anos. Era R$ 3 bilhões em 2002 e foi para R$ 12 bilhões em 2005, sem que não houvesse qualquer epidemia entre os trabalhadores. Alguma coisa está errada. Para discutir os gastos direito, temos que ir aos itens de maior peso: previdência e salários. Reduzir o peso dos juros é fundamental também.

Os juros são uma das razões do crescimento baixo, sem dúvida. Essa semana recebi farpas e ironias dizendo que o bom crescimento do PIB foi uma má notícia para mim. Vocês estão errados e me conhecem mal. Gosto mesmo é de notícia boa. Aliás, essa especificamente tinha até adiantado aqui no site.

Essa semana, como disse a Fátima fui a Santa Bárbara do Oeste fazer um trabalho voluntário. Lá encontrei um rapaz muito inteligente, aluno da Apae e ele me fez uma pergunta que deixa embatucado muito economista: “Por que o Copom aqui mantém os juros tão altos e lá nos Estados Unidos é 4,5%?”. Disse para ele que já é 5% lá, mas ele tinha razão, a diferença é grande demais e é uma das razões das nossas dificuldades.

Acho que contas públicas equilibradas ajudarão a reduzir os juros para níveis aceitáveis.

Elizabeth me escreveu dizendo que ler a coluna sobre Grande Sertão foi um presente. Para mim também, Elizabeth, ir ao parque Grande Sertão, reler meu livro favorito, sentar na porta de uma casa de adobe e conversar com um velho brasileiro cheio de sabedoria foi uma vereda neste tanto sertão. 

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