Panorama Econômico
O Globo
13/6/2006
Temo as vitórias antecipadas. Prefiro a constatação final de que todo
o favoritismo foi confirmado. Quem viu as outras Copas sabe que não
existe vitória prévia nem fácil; não existem predestinados. Claro
que, quando se aliam opiniões de todos de que seu time é o melhor e,
em campo, os adversários se mostram fracos, é mais difícil conter o
perigoso sentimento da vitória de véspera.
O mestre Nelson Rodrigues avisava que, por mania nacional, a seleção
sempre embarcava meio desmoralizada. No gramado, virava o jogo e
voltava coroada. Desta vez, foi diferente: a seleção já embarcou
canonizada pelos comentaristas esportivos. O Brasil mudou muito desde
aquela época em que o esporte nacional era falar mal do time até que
ele voltasse com um título. Desde então, acumulou muitas glórias.
Aprendeu mais técnica e não perdeu a velha ginga. Talento e esforço
são duas armas que, somadas, são mesmo poderosas. O Brasil 2006 tem
uma soma invejável de ativos: vocação, seleção de craques, maior soma
mundial de vitórias, maturidade, técnica. Mas continuarei temendo o
sentimento da felicidade antecipada. Prefiro o comedimento que guarde
a explosão para aquele momento mágico em que Cafu levanta a taça e
liberte o grito: Hexacampeão! Definitivo e irrevogável.
Até lá, ficarei aqui apenas comemorando a vitória de cada dia e o
avanço das mulheres também neste campo. É visível. Elas estão
entrando em mais um território inexpugnável. Comentam, apresentam,
surpreendem e mostram conhecimento e capacidade de análise em um tema
que até hoje certos homens, mais atrasados, consideram ser
exclusividade masculina. Piadinhas sobre o fato de que futebol é
assunto apenas dos homens eram de se esperar. Triste é ler no Renato
Maurício Prado que esse assunto pertence aos homens. O título da
coluna era “Atenção, mulheres!”. Saiu no mês passado, mas da minha
garganta ainda não saiu. Atravessou. Entalou. Ele acolheu e
republicou uma lista apócrifa, que considerou “divertida”, que
continha os 12 mandamentos dos homens nesta Copa. Lá estão escritas
coisas assim: “Durante a Copa, a TV é MINHA, o tempo todo, sem
exceções. Se você der uma olhadela que for para o controle remoto,
correrá o risco de perdê-lo (o olho!).” Calma, meninas, não percam o
controle com homens assim!
Tem mais grosserias a lista que devemos jogar para escanteio: diz que
é nossa obrigação servir a cerveja e os salgadinhos e tratar bem os
amigos. Coisas bem... bem... como dizer e manter a elegância? Homens
assim devem ficar no banco de reserva; se forem necessários, serão
convocados, mas apenas se tiverem fôlego para o tempo regulamentar.
Apenas aviso aos desavisados que as mulheres simplesmente não
aceitaram, nem aceitarão, expulsão de campo. De nenhum campo. Aliás,
elas têm predileção por campos minados e os considerados
exclusivamente masculinos. A minha geração de jornalistas invadiu a
economia; a nova está entrando em outros campos pelas bordas. O
jornal “Valor” publicou que somos 41% da audiência na Copa de 2006.
Na Europa, em alguns países, chegamos até a 46%. Mas mesmo a
reportagem do “Valor” se desvaloriza, pois começa com um comentário
inacreditável, principalmente porque escrita por duas repórteres. Gol
contra, meninas! Diz que os homens trocam de tudo: de carro, de
mulher, de emprego. Só não trocam de time e, por isso, as mulheres
decidiram entender o assunto. Para não serem trocadas. Torna a mulher
tão objeto quanto o carro, induz à conclusão que o direito de trocar
de parceiro é exclusividade deles e, além disso, avisa que o
interesse dela por futebol é interesseiro. Não fosse isso bastante
ofensa, ainda tem a legenda da foto, dizendo que mulher vê futebol
porque tem jogador bonito e que virou celebridade. Ora, se ele jogar
bem e ainda for bonito, que mal tem em ficar admirando?
Lava a alma das torcedoras mais animadas aquela propaganda em que
quatro moças estão com os olhos grudados no jogo. Bussunda chega e
pergunta se querem um palpite e elas, juntas, dizem: “NÃO.” A
propaganda é de cerveja: um pequeno desagravo depois de anos de
propaganda preconceituosa, inclusive das cervejarias.
O mundo mudou bastante e muita gente não viu. Verão. O que nunca muda
é nossa torcida, de qualquer gênero, de qualquer idade, de todas as
cores, principalmente verde e amarelo, para que o escrete faça bonito
em campo. Que nada nos atrapalhe nas próximas semanas. Nem as
velharias indelicadas, nem este clima de jogo jogado que os
comentaristas esportivos espalharam por todos os gramados.
Assunto de economia? Tem sim, leitoras e leitores, mas, nesta terça-
feira de estréia, de emoções abertas e respiração acelerada, nossos
corações não são nada econômicos.
Coração verde-e-amarelo
O economista John Welch, do Lehman Brothers, sempre se apresentou
como meio brasileiro, meio americano, mas não convencia. Filho de um
casamento binacional, tem nome, cor, cara, jeito e sotaque de gringo.
Mas nada como uma Copa para revelar nacionalidades: ele mandou um e-
mail para os amigos com o assunto: “um apelo”. Disse “precisar” de
duas entradas para o Brasil x Croácia. Avisa que paga o que for
necessário. Isso é um desespero brasileiríssimo; não tem nada de gringo.