Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, junho 08, 2006

Movimento social? Onde? Por Liliana Pinheiro

Primeira Leitura

Se o Brasil reconhecesse a figura do lobby e a do lobista, como fazem
alguns países desenvolvidos justamente para manter grupos de
interesse dentro dos limites da institucionalidade, certamente teria
menos armadilhas no seu caminho. Boa parte do movimento social seria
classificada nessa categoria de pressão porque disso não passa: é
composta de organizações criadas para defender interesses de setores
específicos da sociedade, não contemplados na orquestração geral de
normas.

Reconhecidos lobbies e lobistas, acabaria esse debate chumbrega sobre
a suposta “criminalização” do ativismo organizado e sobre a natureza
intrinsecamente boa da “causa”, qualquer que seja ela, mesmo as mais
estapafúrdias. Sobreviveriam como movimentos sociais aqueles que
realmente são isso e que hoje se contam nos dedos. A maioria não é.
Tem sede, logística sofisticada, contabilidade própria, goza de
robustos convênios com o poder público e redes de ONGs, advogados
próprios, contadores, além de alimentar uma casta de dirigentes com
direito a status de diretoria.

São empresas organizadas em um setor. Grosseiramente, já pertencem ao
tal terceiro setor. Que sejam consideradas sem fins lucrativos — o
que é discutível, mas vá lá —, mas não menos empresas, já que são
capazes até de eleger e financiar bancadas no Congresso Nacional para
ter contemplados interesses no mais das vezes corporativos.

A quem interessa essa barafunda jurídico-política que hoje se chama
equivocadamente no Brasil de “movimento social”? Sem a tal barafunda,
sobraria o corporativismo, contra o qual nada tenho. Corporações,
seja de negócios ou de cidadãos, podem e devem defender seus
interesses específicos numa democracia, desde que reconhecidas como
tais. A orquestração geral de leis e regras nem sempre dá conta de
especificidades, daí a natureza legítima de reivindicações da
minoria. Por que não, além de legítimas, legais?

Tomemos a turma da agricultura familiar, que se mistura aos sem-terra
conforme a conveniência de momento. Só no Brasil um assentado
continua a ser considerado sem-terra. Essa gente, que pode ser
produtiva, tem ou precisa ter meios de fazer seus lobbies no
Congresso sem a farsa montada que lhe dá caráter de movimento social.
Os novos agricultores, com o tempo, agradeceriam o fim do controle
compulsório que os MSTs da vida lhes impõem. Do jeito que estão hoje,
dominados pelos movimentos, inscrevem-se melhor na categoria de neo-
escravos.

Se lobby e lobista soam como palavrões na nossa cultura, que se
inventem outros nomes. No Brasil, aliás, corporativismo também é
palavrão. Vejam só com quantos equívocos e cartilhas politicamente
corretas se faz um país em que um grupo invade e depreda o Parlamento
e espanca pessoas...

Não nego a existência de movimentos sociais. Alguns com esse perfil
certamente devem existir, apesar do rolo compressor da esquerda que
vive de instrumentalizá-los. Mas o número vai rareando conforme as
entidades vão tendo suas ações negociadas na bolsa eleitoral. O
mercado é paralelo, mas não menos mercado e não menos rentável.

Certamente, essa idéia de dar identidade jurídica e impor regras
transparentes a certas organizações arrepia muita gente poderosa.
Essa turma sabe que, com essas entidades sem existência legal, é mais
fácil usá-las para movimentar dinheiro, talvez lavá-lo. Ou para
pendurar amigos e parentes na estruturas, que são grandes
demandadoras de serviços remunerados. Para atazanar, ainda, inimigos
políticos, dada sua capacidade de colocar um tal “povo” na rua que
também é quase sempre remunerado, de forma direta ou indireta. Esse
exército funciona igualmente como reserva de poder para ser acionada
em caso de necessidade futura — tal como o movimento sindical, é
capaz de ser posta a dormir, por meses ou anos, e chamada ao combate
quando determinados partidos, usuários habituais, se deparam com uma
fase de descenso.

Uma historinha
Por tabela, ao escrever este texto, atendi a pedidos de amigos, que
me desafiaram, num misto de indignação e afetuosidade, a “assumir”
num artigo que eu seria de “direita”. Há uns que acreditam que tenho
um pé na esquerda — tenho, sim, ainda que rejeite a canga dos
partidos canhotos. Mas não nego que alguma forma importante de
racionalidade vem do lado de lá, o destro, onde boto meu pezinho com
gosto quando julgo necessário, ainda que rejeite igualmente a canga
dos partidos do ramo.

Nas minhas incursões ideológicas, só não suporto a burrice. E, no
caso do debate sobre movimentos sociais que se seguiu à invasão da
Câmara, a grande asneira, que vem sendo conscientemente formulada há
muito tempo, está na esquerda, que nos últimos anos está matando o
movimento social verdadeiro.

Vou contar apenas uma historinha para ilustrar. Recebi em casa uma
publicação de um candidato (ainda não declarado) a se reeleger como
deputado federal pelo PT. Não declinarei o nome da criatura — na
verdade, nem me lembro, e o folheto já foi para o lixo —, já que
muito agradeço a pequena, mas preciosa, contribuição à formação do
meu pensamento. Ele deve ter usado o meu dinheiro, popularmente
chamado de verba pública, para se promover, mas assino embaixo da
iniciativa, que considerei serviço público da mais alta utilidade.

Havia no tal jornal-panfleto um auto-elogio a seu último mandato por
conta da proximidade incondicional que manteve com os movimentos
sociais. Com que então — aprendi lendo o texto —, se um grupo de
mulheres se une, elas estarão sempre certas por definição, ainda que
só digam ou reivindiquem barbaridades. Junte-se uma legião de
representantes da raça negra, e o bem estará daquele lado, preguem
eles o que quiserem. Deficientes físicos unidos, nesse contexto,
poderiam perpetrar bobagens homéricas que estariam com a razão maior,
a da organização. A única exigência é que lhe dê apoio, o que é
habilmente transformado no contrário — estaria ele, o parlamentar,
apoiando a suposta causa. Isso é o movimento social dele. E assim vêm
sendo construídas entidades e mais entidades, na base da inversão de
valores.

Num espaço editorial tão pequeno, o tal deputado-candidato conseguiu
reunir e propagar boa parte da burrice militante que serviu de base
para a ação daquela gangue assassina no Congresso Nacional na terça-
feira.

Direita nele! Se desequilibrar: esquerda, volver! E assim, brincando
com a paciência dos generosos amigos que nos querem resolvidos, mesmo
vivendo num país em que ideologia se tornou um grande escudo para o
oportunismo, a gente vai levando.

[liliana@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 7 de junho de 2007.

http://www.primeiraleitura.com.br/auto/entenda.php?id=7649

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