| O Globo |
| 7/6/2006 |
Acima de qualquer ilação política, os atos de vandalismo que vitimaram a democracia brasileira ontem precisam ser punidos com rigor absoluto. Quando invadiram o Congresso Nacional, os integrantes do Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) estavam mais uma vez demonstrando o desapreço que têm pela representação política e optando pela violência para atingir seus objetivos. Em abril do ano passado haviam invadido o Ministério da Fazenda em Brasília, chegando à ante-sala do então ministro Antonio Palocci. Protestavam contra a política econômica do governo, mas declaravam seu apoio ao governo Lula, numa esquizofrenia típica de certas alas petistas. Só saíram do prédio depois de negociarem uma audiência com o presidente Lula. Bruno Maranhão, chefe do movimento, é oriundo do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário — PCBR — e seu radicalismo nunca o impediu de ganhar espaços dentro do PT: é da executiva nacional, secretário nacional dos movimentos sociais. Apresentou no recente encontro nacional do PT uma emenda sobre reforma agrária juntamente com o ex-ministro da Reforma Agrária, Miguel Rossetto. A politização do conflito surgiu pelo próprio MLST, que trazia faixas de ataque a PSDB e PFL, ressaltando as ligações de Bruno Maranhão com o PT. A posição, correta em tese, de que os movimentos sociais não devem ser criminalizados, defendida por diversos oradores petistas, cai por terra quando o membro do partido que o representa junto a esses movimentos é o mesmo que comanda um dos maiores atentados contra a democracia brasileira fora dos tempos ditatoriais. Para o deputado Raul Jungmann, do PPS, que teve que enfrentar seu radicalismo várias vezes quando era ministro da Reforma Agrária no governo Fernando Henrique, ele representa “a fragilidade do compromisso democrático do PT, uma expressão viva de tudo o que vai dar no mensalão, no assalto ao patrimônio público feito pela ‘quadrilha’ identificada pelo procurador-geral da República. Ele é um subproduto dessa visão dúplice do PT, do camaleão.” Com relação ao simbolismo político da invasão do Congresso, Jungmann tem a mesma visão da deputada do PSOL Luciana Genro, embora divirjam sobre como tratar a questão. Ambos acreditam que a ousadia dos invasores tem por base “a fragilidade moral e ética do Congresso Nacional”. A não instalação da CPI dos Sanguessugas, o acordão que gera a pizza para absolver a maioria dos mensaleiros, tudo conspiraria para a desmoralização dos políticos, facilitando ações como as do sem-terra. Jungmann adverte que a autoridade moral de Lula “está no chão, embora ele surfe nas pesquisas. Isso gera uma situação de anomia, de despolitização, de que tudo é possível”. Citando a filósofa Hanna Arendt, ele diz que o que mais o impressionou no caso do funcionário que vendeu a gravação da sessão secreta da CPI do Tráfico de Armas para os advogados de uma facção criminosa foi “a banalização do mal”. Já Luciana Genro diz que, a exemplo de vários países da América Latina que viveram a violência gerada pelos protestos dos movimentos sociais, hoje no Brasil já não existiria, por parte deles, a crença nos partidos como representantes de suas reivindicações, o que os levaria a atitudes radicalizadas como as de ontem. Na minha opinião, vários equívocos sobre o exercício da democracia foram cometidos ontem enquanto os deputados, literalmente sitiados pelos baderneiros, discutiam como sair daquela situação sem produzir um cadáver ou um dano ainda maior à democracia. O presidente da Câmara, Aldo Rebelo, enfrentou a situação com equilíbrio, mas equivocou-se ao considerar que a entrada no Congresso da Polícia Militar poderia ferir sua autonomia. Essa aversão ao uso da força é que faz com que esses chamados “movimentos sociais” tenham cada vez mais desenvoltura ao invadir fazendas e prédios administrativos. A democracia legitima o uso da força, e não se confunde com a violência. Nenhum democrata tem que ter medo de usar a força, que só é legítima na democracia, e aqueles que não obedecem à ordem democrática têm que ser punidos pela força legítima. O deputado Raul Jungmann teme que essa seja “a síndrome que vai se instalar no país se não resolvermos esse impasse democrático que estamos vivendo, da desmoralização da política”. Ele vê manifestações crescentes dessa crise de valores, “que provoca a falta de parâmetros, de referências”. Assim como os dias seguidos de barbárie que São Paulo viveu recentemente derrubaram por terra uma das principais armas do candidato do PSDB à Presidência, a excelência de sua gestão pública e o controle da criminalidade no Estado, também é inescapável que o presidente Lula sofra um desgaste em sua imagem pública com os episódios de ontem no Congresso. As intenções de voto em Geraldo Alckmin continuam decaindo no estado que governou durante tantos anos, e parecia o bastião de sua candidatura. As ligações dos movimentos sociais radicais com o PT, e a leniência com que o governo federal os enfrenta, informam à opinião pública uma cumplicidade que coloca em xeque o governo de Lula como representante da maioria da sociedade. Não é razoável que se peça tolerância com esse tipo de vandalismo em nome de um suposto levante social que poderia eclodir se Lula não fosse o intermediário entre os movimentos sociais e a sociedade. É a mesma ameaça implícita no seu comentário de que a oposição só não pediu seu impeachment porque temia a reação dos movimentos sociais. A aceitar esse raciocínio, estaríamos reféns desse radicalismo, como os deputados estiveram ontem. |
Entrevista:O Estado inteligente
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