É indispensável, finalmente, que o Brasil empregue decisivos
elementos pragmáticos de persuasão na sua política sul-americana
A CRISE de nosso relacionamento com o presidente Evo Morales veio
evidenciar graves insuficiências de nossa política com relação à
América do Sul.
Dando ativa continuidade a tendências que há muito se achavam
presentes na política externa brasileira, o presidente Lula
acertadamente fez da integração sul-americana o objetivo principal de
sua política externa. Procede essa política da correta constatação de
que, nas presentes condições do mundo, poucos países dispõem,
isoladamente, de possibilidades para preservar sua identidade
nacional e manter um destino histórico próprio.
Os países europeus, a despeito de seu alto nível de desenvolvimento,
se agruparam na União Européia como meio de preservar, nestas novas
condições do mundo, seus grandes interesses nacionais.
É certo que China e Índia, países continentais, estão logrando,
isoladamente, manter elevadas taxas de crescimento econômico e de
modernização, tendo se tornado relevantes protagonistas no cenário
internacional.
Também é verdade que, na América do Sul, o Brasil é o país que dispõe
de melhores condições para manter um destino histórico próprio,
graças à conjugação de grande massa crítica, em termos populacionais,
de recursos naturais e de amplitude territorial, com um bastante
elevado nível de desenvolvimento econômico e científico-tecnológico,
e uma extremamente alta taxa de integração nacional.
Nossa alta taxa de integração nacional, entretanto, superior à de
muitos países europeus e de quase todos os sul-americanos, contrasta,
dramaticamente, com uma extremamente baixa taxa de integração social,
decorrente das abissais distâncias que separam os setores educados e
prósperos do país das grandes massas.
Daí a necessidade, por parte do Brasil, de contribuir para a
integração do continente, visando a converter a Comunidade Sul-
Americana de Nações, de sua condição apenas declaratória, em um
sistema efetivamente operacional de livre comércio e ativa cooperação
econômica e política. É correto esse objetivo brasileiro, e nele
importa sempre insistir. Para tanto, porém, é indispensável ao Brasil
corrigir as graves deficiências que se fazem sentir em sua política
sul-americana.
Em última análise, três são as suas principais deficiências: 1)
tentativa de exercício de liderança regional sem apropriada delegação
e necessário consenso; 2) insuficiente atendimento, no âmbito do
Mercosul, dos interesses dos demais parceiros; e 3) exclusivo emprego
de argumentação racional, não acompanhado de elementos pragmáticos de
persuasão.
Seria ocioso desenvolver a tese de que a liderança de um país
depende, além de outras condições, da medida em que ela conta, no
respectivo grupo, com o consenso dos demais, por constatarem que o
que está em jogo é do interesse de cada um deles. Lideranças de
caráter não coercitivo não se presumem nem podem ser auto-assumidas,
mas têm de decorrer de modalidades explícitas ou implícitas de
delegação.
O Brasil, de forma não desastrosa, mas contraproducente, ao assumir,
sem consultas, diversas iniciativas internacionais, as priva de
possibilidades de êxito. Mencione-se, ilustrativamente, nossa
aspiração a uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, para a qual,
entre outros requisitos, a concordância da Argentina é fundamental.
Como explicar que Lula não tenha publicamente convidado a Argentina a
também se candidatar, declarando que aquele dos dois países que venha
a ser eleito se consideraria representado pelo outro?
No que tange ao Mercosul, é patente a necessidade de se dar efetivo
atendimento a justificadas demandas do Uruguai e do Paraguai. É
igualmente patente a necessidade de se corrigir o desequilíbrio
industrial que se formou entre o Brasil e a Argentina, país que já
teve a melhor indústria leve da região e que poderá voltar a tê-la,
mediante um projeto conjunto de industrialização com o Brasil.
É indispensável, finalmente, que o Brasil empregue, adicionalmente a
uma argumentação racional, decisivos elementos pragmáticos de
persuasão na sua política sul-americana.
Essa necessidade é tanto maior quanto menos racionais e mais emotivos
sejam certos dirigentes da região, como, notadamente, o presidente
Evo Morales e, mais moderadamente, o presidente Kirchner.
Em última análise, trata-se do fato de que a integração sul-
americana, considerada com competente objetividade, é algo de que
depende totalmente a preservação da identidade nacional e do destino
histórico dos países da região, sendo o Brasil uma exceção. A
integração nos é altamente conveniente, mas não indispensável.
Assim é que nossa política sul-americana deve conter, com toda a
objetividade e com inequívocos elementos comprobatórios, um "plano
B", pelo qual se evidencie que, com ou sem integração e com ou sem a
cooperação da Argentina, o Brasil dispõe de uma estratégia exeqüível
e eficaz para se desenvolver e, isoladamente, assegurar a preservação
de sua identidade nacional e de seu destino histórico.http://
www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0406200609.htm