O GLOBO
Ajulgar pela maioria das análises acadêmicas e artigos publicados sobre as últimas eleições a esquerda teria feito um retorno à cena em grande estilo na América Latina. Essa versão esquemática dos fatos vinha sendo amplamente aceita. Agora surgem interpretações mais sofisticadas da paisagem política.
Jorge Castañeda, que foi chanceler do México, discerne matizes. Em artigo publicado na revista "Foreign Affairs", distingue duas esquerdas: uma "tem raízes radicais, mas hoje está moderna e aberta, ao passo que a outra é fechada e fortemente populista". Para Castañeda, a primeira esquerda, representada por líderes tais como a chilena Michelle Bachelet e o presidente Lula, seria "boa" e deveria por isto ser fortalecida pela comunidade internacional; já a segunda vertente pouco ou nada teria do ideário de esquerda. Significaria a volta do velho populismo autoritário, representado por figuras como Hugo Chávez, Evo Morales e Néstor Kirchner. Embora veja méritos na análise de Castañeda, acho que o panorama da região é mais nuançado e complexo.
Numa recente entrevista, Kenneth Maxwell, brasilianista britânico, oferece uma perspectiva mais abrangente e menos alentadora. Para ele, "a esquerda não é uma categoria que possa ser muito útil ou adequada" para interpretar a realidade atual. Muito menos se poderia falar com propriedade de uma esquerda "errada" e de outra "certa": o presidente Lula, por exemplo, teria passado da categoria de esquerda "errada", ainda em 2002, para converter-se à esquerda "certa" nos últimos anos (para muitos, digo eu, perdendo mesmo qualquer referencial de esquerda). O que estaria ocorrendo na América Latina seria uma crise de governabilidade, sem produzir um movimento uniforme na direção da esquerda. Na região há, em cada país, um "mosaico de respostas específicas a estruturas políticas decadentes e aos cada vez mais altos níveis de desigualdade social e exclusão social".
Concordo com a visão de Maxwell. É na história das transformações sociais, políticas e econômicas de cada país, bem como nas opções ideológicas escolhidas por seus líderes, que devemos buscar a explicação do que está ocorrendo. Mas, penso eu, a distinção entre esquerda e direita continua útil para a análise. Embora a esquerda atual não insista no controle coletivo dos meios de produção e reconheça o dinamismo das forças de mercado, o ideal de uma sociedade mais igualitária e de ampliação dos canais de participação da sociedade civil permanece como um critério para o alinhamento político. Assim como me parece certo que a esquerda atual rejeita a idéia do partido-dínamo, força quase exclusiva da mudança social, e afasta as tentações de diminuir a importância do estado de direito e das instituições representativas em benefício da mobilização das massas.
Para mim, o governo de Michelle Bachelet representa o que hoje se deve chamar de esquerda. Quarta presidente eleita no Chile pela "Concertación Democrática" — aliança essencialmente de dois partidos tradicionais, o Socialista e o Democrata-Cristão, que foram rivais no passado, mas têm sido capazes de se renovar para dar continuidade e rumo ao Chile — dirige um país que exibe boas taxas de crescimento econômico, respeito absoluto ao estado de direito, aumento da participação popular e implementação de políticas de redução da pobreza.
Em contraste, os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Tabaré Vázquez, do Uruguai, representam, conquanto de forma bem distinta, fenômeno justamente oposto ao do Chile: a falência do sistema político tradicional, num caso e, noutro, o cansaço do eleitorado com os partidos tradicionais, embora sem ruptura do sistema político. Tabaré Vázquez é o primeiro presidente eleito em muitas décadas que não pertence aos partidos Blanco ou Colorado, que governavam há mais de cem anos. Seu governo tem oferecido políticas públicas prudentes e sensatas, bem como anunciado sua intenção, surpreendente, de aproximar-se economicamente dos EUA. Chávez, ao contrário, faz da retórica antiamericanista sua principal bandeira aglutinadora das massas. Declara-se um outsider da política tradicional, sem filiação partidária, um militar cujo poder aumenta com referendos e plebiscitos convocados ao sabor dos acontecimentos e da conveniência política. O que há de esquerda em Chávez, com seu discurso antiamericano que contrasta, na prática, com a postura realista de vender o petróleo venezuelano ao país do Norte?
O presidente Evo Morales, da Bolívia, é um caso distinto. A crise de governabilidade é crônica na Bolívia. O ineditismo da situação é que Morales pode reivindicar autênticas ligações com os movimentos étnicos. Pela primeira vez o eleitorado escolheu um presidente indígena, este é o verdadeiro significado de sua eleição. Importa secundariamente se ele é de esquerda, de qual esquerda, eventualmente de direita, ou se é populista em seus métodos e em sua retórica. É inegável que a forma que escolheu para nacionalizar os ativos das empresas estrangeiras que exploram gás e petróleo na Bolívia, com fanfarra e ocupação militar, dão sinais de um populismo ultrapassado. Se ficar nisso, não fará o que a História espera dele: que negocie com energia mas sem insensatez, os recursos naturais da Bolívia para melhorar a vida do povo. Se, com uma atitude objetiva levar mais investimentos e reduzir a pobreza, o povo o reconhecerá como um dirigente à altura dos desafios simbólicos e práticos de seu país.
O presidente Kirchner é peronista, como o "neoliberal" Carlos Menem dos anos 90 e o presidente Eduardo Duhalde, mais recentemente. De novo cabe a pergunta: o que há de esquerda no peronismo que sobrevive à morte, há mais de 30 anos, de seu fundador, Juan Perón, que encarnou como ninguém o populismo latino-americano?
Não consigo enxergar, nesses casos, uma reviravolta à esquerda na América Latina. Fosse o Chile o exemplo, ou mesmo o Uruguai de Tabaré Vázquez, caberia o qualificativo. O que vejo hoje em alguns países é um antiamericanismo com um retorno gradual ao populismo, e noutros muita hesitação quanto aos caminhos a serem seguidos. O populismo é uma forma insidiosa de exercício de poder que se define essencialmente por prescindir da mediação das instituições, do Congresso, dos partidos e por basear-se na ligação direta do governante com as massas, cimentada na troca de benesses.
A ameaça do retorno do populismo à América Latina e, mais especificamente à América do Sul, não trará escolhas fáceis ao Brasil e ao governo atual. Havíamos concebido a integração econômica e política da América do Sul, nos anos 90, com base nos princípios da democracia política e da economia de mercado. O exercício da integração econômica facilitaria nossas respostas ao desafio da globalização. Todo este edifício pode ter suas bases solapadas se o populismo voltar à região, travestido de esquerdismo, trazendo consigo o jogo de rivalidades antigas e muitas vezes pessoais em lugar da cooperação institucional entre nações.
Entrevista:O Estado inteligente
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