| Artigo - Daniel Bloom |
| Gazeta Mercantil |
| 5/6/2006 |
Um deles: dar à China status de economia de mercado. A origem prática dos múltiplos erros da política externa do atual governo brasileiro nada mais é que a filosofia da práxis, que deve representar um humanismo absoluto da história, reduzida à doutrina particular do PT, enfaticamente defendida por seu ex-presidente, José Dirceu, às vésperas das eleições de 2002, quando declarou, sem o maior constrangimento, que "a filosofia de poder do PT não iria coincidir com nenhum sistema do passado; não importa qual seja seu nome". Erros de uma política externa inorgânica porque voltada para a conciliação de interesses opostos e cuja historicidade será evidentemente breve, já que a contradição aflora a cada evento do qual foi instrumento. Engenharia do espírito obtuso de um ministro das Relações Exteriores que se quer oráculo, essa política externa revelou-se desastrosa. O maior erro dela foi ter oferecido à China o status de economia de mercado, numa deplorável manipulação em troca de um hipotético voto para um assento do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, ao que se oponha os Estados Unidos, hoje o maior parceiro comercial da China. O oráculo não entendeu, e muito menos Lula (que tem uma nítida insuficiência no que diz respeito aos assuntos da República), que a China não teria nenhum interesse político ou comercial em se defrontar com os Estados Unidos nessa questão. Em recente visita oficial a Washington, o presidente da China, Hu Jintao, comprou 80 aviões Boeing por US$ 4,6 bilhões. Jantou com Bill Gates, da Microsoft, hoje a maior empresa estrangeira na China. Isso sem contar os US$ 202 bilhões que Pequim recebe dos Estados Unidos em superávit comercial. Incompreensível erro político também a atual insistência do governo no diálogo Sul-Sul. Dar as costas aos Estados Unidos, à Alca e ao Hemisfério Norte para agradar aos "companheiros" Hugo Chávez, Fidel Castro e – novo membro do clube – Ivo Morales, nas suas elucubrações de hegemonia nacionalistas (não acabou de nacionalizar as plantas industriais da Petrobras, entre outras? – bom companheiro, pero no mucho!), é literalmente ignorar outras oportunidades concretas de desenvolvimento sério e duradouro do Brasil. Na realidade, os exemplos acima são tão-somente um dos muitos elementos das erráticas estratégias políticas e de relações exteriores do Palácio do Planalto. Demonstram a superficial colocação que se faz das maiores aspirações do País. O eufórico anúncio da construção de um gasoduto da Venezuela até a Argentina, passando pelo Brasil, ao custo de US$ 36 bilhões (lembra o projeto da transposição das águas do Rio São Francisco), a milionária campanha de R$ 35 milhões da Petrobras para dizer aos brasileiros que "O petróleo é nosso" e as inconsistências dos programas Fome Zero e Primeiro Emprego são típicos exemplos dessas políticas sem espessuras que, por se quererem exemplares, caem em uma forma barroca de idealismo abstrato. Fatos deploráveis como os que foram revelados através de CPIs e da atuação correta da Polícia Federal e do Ministério Público desde meados do ano passado, os quais em nada enaltecem a moral cívica do Brasil, estão intrinsecamente ligados a uma falta de conceito ético-moral e cultural bastante perturbadora na condução política do Planalto. Na verdade, parece que os instrumentos de direção política do governo Lula são meras ilusões para os governados, um engano sofrido, um mal necessário, enquanto para os governantes um engano desejado e consciente. Em toda essa confusão de valores, onde se coloca o futuro da Nação? |
Entrevista:O Estado inteligente
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