Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, junho 07, 2006

Ensaio geral do segundo mandato Por Reinaldo Azevedo

Primeira Leitura

Um governo determina a qualidade dos seus radicais ao escolher os
seus moderados. Explico-me: os moderados, do ponto de vista lulo-
petista, são as madres Teresas do MST, o movimento liderado pelo sr.
João Pedro Stedile, que nem existência legal tem. Os radicais passam
a ser, então, os democratas do MLST, chefiados, não por acaso, por um
sujeito que pertence à direção nacional do PT: Bruno Maranhão, um
jovem radical de 66 anos...

Maranhão, sozinho, mereceria um tratado psicanalítico. Falo dele mais
adiante. O relevante nessa história toda é que este senhor é o
símbolo do compromisso de seu partido com a democracia representativa
e com as instituições. Não é de hoje que promove arruaças e ações
violentas. Ele comandou, por exemplo, a ocupação do Ministério da
Fazenda ainda sob a gestão Palocci. Reitera-se: Maranhão não é um
livre-atirador petista. Compõe a direção da legenda. É um velho
conhecido de Lula. A sua pantomima de agora é um ensaio geral da
revolução lulista que vem por aí. O Apedeuta só precisa de um segundo
mandato.

Existem os culpados pela ação desta terça e existem os responsáveis.
Os culpados, claro, são os atores que comandaram o assalto a um dos
Poderes constituídos da República. Os responsáveis são os senhores
Luiz Inácio Lula da Silva, no papel de presidente da República — o
Dom Giovanni da “elite branca” (by Cláudio Lembo)... — e seu
Leporello com feições de Cyrano de Bergerac, Márcio Thomaz Bastos,
que o coadjuva no Ministério da Justiça: o serviçal de luxo endossa
todas as malas-artes, recheadas de imposturas constitucionais, de seu
chefe encantador de madames e senhores politicamente corretos.

Bastos é mesmo um poeta do direito. É o Ferrabrás das donas de
butique, mas acaricia os cachos de Roxane do primeiro baderneiro que
vê pela frente. É de sua lavra uma consideração escandalosa sobre a
freqüência com que o MST esbulha a Constituição impunemente: segundo
ele, é preciso uma “acomodação tática” da Carta. Ou seja: a lei não
vale.

Ora, por que o MLST não iria radicalizar se vê o tratamento que é
dispensado a seu companheiro “moderado”, o MST? Trata-se do movimento
que destruiu o laboratório da Aracruz, que não esconde o seu intuito
de ocupar terras produtivas, que pratica assalto organizado a
caminhões que transportam alimentos, que invade pastos e mata
animais, que destrói plantações que não considera adequadas à sua
metafísica e que explicita seu caráter subversivo.

O ministro Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, prestigiou a
inauguração de uma tal Escola Florestan Fernandes, onde se ensinam as
altas virtudes políticas e morais de humanistas como Mao Tsé-tung,
Lênin e Che Guevara. Em Pernambuco, o movimento já chegou a jogar
cocô na caixa d’água do Incra. Mais: em um acampamento de sem-terra,
no Estado, um policial foi morto depois de barbaramente torturado. A
imprensa dispensou uma floresta de celulose à morte da freira Dorothy
Stang. Muito justo. A do policial não mereceu um eucalipto seco.
Jaime Amorim, um dos lugares-tenentes de Stedile, já atacou até um
navio de bandeira liberiana que transportava milho transgênico. É um
ato terrorista.

E o que aconteceu, até hoje, com essa turma que desrespeita, de forma
organizada e sistemática, as leis? Nada! A “acomodação tática” de
Cyrano faz com que não se aplique, por exemplo, a medida provisória
antiinvasão de terra, que torna indisponíveis para a reforma agrária
áreas invadidas e cria um cadastro de invasores contumazes. Está na
lei votada pelo Congresso e referendada pelo Supremo Tribunal Federal
— já que o próprio PT argüiu a sua inconstitucionalidade no Supremo,
onde foi derrotado. Ou seja: Lula, Rossetto e Bastos são obrigados a
cumprir a Constituição que lhes garante as prerrogativas de que
gozam. Mas eles não a aplicam.

Ao contrário: dão-lhe uma vistosa banana. Por que o MLST não pode,
seguindo a lógica revolucionária, ainda que patética, avançar um
pouco além do limite a que chegam seus colegas do MST? Se Cyrano e o
Apedeuta podem conviver bem com um esbulho legal, por que não podem
suportar o outro?

Virtudes do banditismo
Uma parcela dos políticos brasileiros está descobrindo as virtudes do
banditismo. Há dias, Lula, que diz preferir escolas a presídios, como
se houvesse aí uma antinomia, passou a mão na cabeça dos facínoras do
PCC e, na prática, nos pediu a todos que compreendêssemos os motivos
daquela brava gente. Segundo o presidente, quando esses agora
bandidos tinham quatro ou cinco anos, faltou-lhes assistência.
Entenderam? A culpa é da sociedade; é nossa. Os marginais estão
apenas numa ação de reparação social. Alguns saem matando a esmo;
outros queimam campos e derrubam cercas; outros ainda afundam crânios
e matam policiais. E há, finalmente, quem decida fazer tudo isso ao
mesmo tempo.

Estamos assistindo ao ensaio geral da revolução lulista. Reitero:
este tal Maranhão vive abrigado no regaço do PT. Ainda que, agora,
seja entregue à lei, outros o substituirão na “nobre” tarefa
partidária de emparedar as instituições. É a isso que se dedica a tal
Secretaria Nacional de Movimentos Populares do partido. Estranho
seria se a legenda tivesse uma Secretaria Nacional de Defesa do
Estado de Direito.

Hipocrisia
O show de hipocrisia não tem limites. Foi divertido ver um comunista
do Brasil, como Aldo Rebelo (PC do B-SP), dando voz de prisão à
extrema esquerda que assaltava o Palácio de Inverno burguês. Entrem
no site do PC do B, e vocês verão que Bruno Maranhão nada mais faz do
que submeter a utopia do partido de Aldo a uma discreta aceleração. O
site é bacana. Na última vez que vi, cantavam-se ainda as glórias da
guerrilha do Araguaia, e havia documentos tratando Kruchev (sim, o
próprio...) como traidor. Afinal, o PC do B continua fiel ao
stalinismo...

Os “movimentos sociais” que o PT coordena estão neste ponto da
batalha com o Apedeuta disputando a reeleição e precisando, vejam
só!, se esforçar para se mostrar um homem de confiança. É de supor
como será depois se for reeleito, com um Congresso mais fragmentado
do que é hoje — ainda que com menos partidos — e tendo, à matroca, de
fazer ainda mais concessões do que faz hoje a tudo quanto é lobby,
seja da direita cartorial, seja da esquerda doidivanas, eventualmente
homicida.

Este é o grande sinal emitido pelo governo Lula e que será a palavra
de ordem de um eventual segundo mandato: tome, na porrada, o que o
faz feliz. Vejam só. No sábado passado, escrevi em O Globo: “Negros,
feministas, homossexuais, índios, sem-terra, sem-teto, sem eira nem
beira... Todos anseiam que a história seja vivida como culpa, e a
desculpa se traduz na concessão de algum privilégio. Isso que já é
uma ética coletiva supõe que todos são vítimas de alguém ou de alguma
coisa. De quem ou do quê? Ninguém sabe. “Da sociedade” talvez. A
hipótese é interessante. Poderíamos zerar a história, dissolver os
contratos e voltar ao estado da natureza.”

E, se me permitem, vou abusar do expediente de me citar: “Igualdade?
Justiça? Reparação? Nada disso. Consolida-se é o divórcio entre os
partidários desse igualitarismo – que, de fato, é um particularismo
que corrói as bases do Estado de Direito – e os da universalidade. O
“novo homem” do antigo marxismo – que era, sim, uma utopia
liberticida e homicida – foi substituído pelos bárbaros, cujo mundo
ideal é aquele disputado por hordas, tribos, bandos, de que entidades
do “terceiro setor” são proxenetas bem remuneradas.”

E quem se importa com a democracia, o Estado de Direito? Também
respondi a essa pergunta: “Os tais mercados não dão a menor bola para
isso. A platéia que vi mais incomodada e, até certo ponto, indignada
com a crítica severa que faço ao PT e a seu viés totalitário era
composta de pessoas ligadas ao mercado financeiro. A democracia, como
a defendiam os antigos liberais, lhes é irrelevante. Trata-se de
dinheiro novo. Assistimos ao casamento entre os hunos e essa gente
muito prática. As bodas bárbaras.”

E se eu disser aqui...
Se eu disser aqui que nada disso surpreende o PT e os petistas, logo
aparecerão algumas vozes do próprio partido e — pasmem! — do tucanato
para afirmar que isso é teoria conspiratória, uma variante do meu
pensamento anticomunista, conservador, reacionário mesmo.

Aos petistas não interessa que tal leitura seja feita. Os tucanos,
nesse particular, se dividem em dois grupos: os que comungam de certa
metafísica utópico-esquerdista do adversário eleitoral (consideram o
partido um tanto desastrado, inábil, mas não essencialmente errado) e
os arrogantes: para estes, Lula e seus companheiros não são assim tão
capazes. E há os que, a exemplo de FHC, se dão ou se deram conta dos
riscos. Infelizmente, é a minoria.

Há muitas formas de exercer a ditadura. No momento, a mais influente
delas, em curso em vários países da América Latina, consiste em fazê-
lo respeitando certas formalidades das instituições, mas buscando
desvirtuá-las por dentro, alterando a sua natureza. O exemplo mais
retumbante é Chávez, o coronel golpista, seguido de perto por Evo
Morales, o índio de araque. Lula, falso operáro, é um pouco mais sutil.

Seus homens, como a gente vê, são capazes de operar de forma eficaz
em três frentes: nos mercados, adoçando a boca dos novos-ricos que
estão dando uma banana para a democracia; nos ditos movimentos
populares, que formam tropas de assalto e estão dando uma banana para
a democracia, e no Estado paralelo, aquele dos 40 quadrilheiros
citados pelo procurador-geral da República, que estão dando uma
banana para a democracia.

A questão sempre será saber até onde as oposições é que concentram o
maior cacho de bananas da República. Vejam lá o que escrevi no
domingo sobre as maiorias silenciosas. Indagava se à população
brasileira agrada a leniência petista com a baderna. É claro que não.
Mas também é claro que o tema não será explorado na campanha
eleitoral. As oposições, no Brasil, são hoje reféns morais de
arruaceiros e quadrilheiros. Elas têm medo desses vários banditismos.
Nada a estranhar: alguns de seus próceres se confundem com eles: são
seus parceiros de ideologia ou de negócios.

Antes que me dedique um pouco a Bruno Maranhão, uma observação Alguns
parlamentares da Casa, Luciana Genro (PSOL-RS) entre eles, diziam aos
quatro ventos que isso só acontece na Câmara porque a Casa não se
respeita. É uma forma de ser leniente com um crime sob o pretexto de
ser intolerante com a imoralidade. Fosse assim, seria de indagar o
que os movimentos sociais deveriam fazer nos palácios do Planalto ou
no da Alvorada: dariam a seus ocupantes o fim que as massas
destinaram a, sei lá, Mussolini ou Ceaucescu?

Maranhão
Há uma frase de Antero de Quental, que já citei aqui, que acho boa: a
tolice num velho é tão aborrecida quanto a gravidade numa criança.
Não vai entre aspas porque não é literal. Ele, poeta realista,
respondia ao romântico Castilho nas querelas conhecidas como “Questão
Coimbrã”. Foi até injusto com o outro, mas a sacada é boa. É o que me
vem à mente quando vejo este tal Bruno Maranhão. Disse que ele merece
uma abordagem psicanalítica. Explico-me.

Em 1963 — ele tinha, então, 23 anos —, camponeses foram à usina
Estreliana, em Pernambuco, reivindicar 13º salário. O dono da
propriedade recebeu os manifestantes a bala. Cinco morreram e três
ficaram gravemente feridos. Quem era ele? Pai de Maranhão. Sei lá se
o jovem ficou traumatizado. Com um pouco de leninismo na cabeça, o
depois militante do PCBR e hoje dirigente do PT parece não ver mal
nenhum em sair por aí afundando o crânio de seus inimigos. Seu
movimento, imaginem vocês, é uma dissidência à esquerda do MST. Dá
para imaginar as suas utopias. Um homem para quem Stedile padece dos
males da moderação não veio a este mundo a passeio.

Maranhão agora está preso. Eu o condeno a receber o senador Eduardo
Suplicy (PT-SP), que deve cantar Blowing in the Wind em sua
homenagem. Sou contra qualquer forma de tortura, mas até eu fraquejo
às vezes...

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 6 de junho de 2006.

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