Folha de S. Paulo
6/6/2006
Quando saí de férias, Lula estava capitalizando ao máximo a ida de um
brasileiro à lua e a auto-suficiência do petróleo, como se fossem
feitos dele. Volto de férias e encontro o mesmo Lula metido na camisa
verde e amarela, articulando um papo virtual com os craques
brasileiros e capitalizando ao máximo as boas perspectivas da seleção
na Copa, como se fossem mérito dele. Entre a ida e a volta, mal
acompanhei as "novidades" brasileiras: sanguessuga, a guerra em São
Paulo, alianças estaduais. Mas, a cada vez que dava uma olhada na
internet, tinha a mesma sensação: Alckmin empacado, Lula avançando. E
ainda sem se dizer candidato. Se o Brasil ganhar a Copa, ninguém
segura Lula. E se o Brasil perder? Bem, aí não é com ele. Talvez por
sorte da vida, talvez pela biografia, talvez por uma enorme
esperteza, o fato é que o que é bom cola em Lula, o que é mau não
cola. A vitória dos 50 anos da Petrobras reverte para Lula. As
denúncias das CPIs e da Procuradoria Geral da República, os erros do
governo, a queda dos seus principais ministros, os desvios do PT e de
sua base aliada não revertem contra. Em 2002, o exército petista teve
um reforço fundamental do eleitor que, cansado dos oito anos de FHC e
dos tucanos, votou no novo, na esperança, no mito. Em 2006, houve
pesadas baixas, mas Alckmin e os tucanos não se renovaram, não
apresentaram um discurso consistente para o país, e Lula deixou de
ser o mito para se transformar numa opção pragmática. A intenção de
voto nele não mais traduz novidade, encanto, esperança. É gerada pelo
Bolsa Família e movida por toda a máquina inerente à reeleição e que
foi uma mão-na-roda para FHC em 1998. Tudo junto, Lula é um candidato
poderoso. Apesar de perder a aura de mito para virar o "mal menor".