OESP
Por mais fingido que venha a ser o entusiasmo dos convencionais
tucanos que, amanhã, deverão escolher Alckmin candidato à Presidência
da República; por mais que o governador mineiro faça questão de
disfarçar só um pouco sua óbvia falta de interesse em relação à
candidatura presidencial do correligionário - que, se julgasse
viável, já teria tentado detoná-la de vez, visto não suportar nenhuma
concorrência ao trono maior a ele destinado, em 2010, por direito
atávico; por mais que FHC (como me disse na semana passada) esteja
bem desanimado com a falta de "gut" (entranha, força visceral) de seu
partido, que nem sequer tem sabido reagir, via Justiça Eleitoral, à
escandalosa utilização da máquina presidencial de Lula em favor de
sua reeleição; por mais que Serra tenha descoberto uma súbita
felicidade em usufruir as favas contadas, concorrendo numa campanha
fácil (como há muito não conhecia) ao comando da segunda
administração da República (atrás apenas da federal, e olhe lá), por
isso até receando levar respingos dos índices de rejeição alckimista,
daí preferindo, no íntimo, a sábia distância regulamentar; por mais
que os tucanos tenham a plena consciência de que escolheram o
candidato errado, que trocaram o mais competente pelo mais
insistente, o mais preparado pelo mais inebriado, o mais viável pelo
mais improvável; por mais que o experiente PFL encare sua coligação
com os tucanos como uma espécie de fatalidade crônica, não curável,
mas administrável, e, a partir desse conformismo, se dedique a
extrair o máximo resultado da meia-boca eleitoral que oferece aos
tucanos; por mais que o candidato Alckmin simbolize a figura do
substituto, algo comparável - neste clima futebolístico - ao jogador
Amarildo, que na Copa de 62 substituiu Pelé - e todos se torturavam
para absorver com otimismo a inexorável substituição; por mais que
seu concorrente, o presidente reeleitorável, esbanje carisma, ponha
toda a sua estrutura de poder a serviço eleitoral, sem o mais remoto
escrúpulo; por mais que se mostre baixíssimo (em torno de apenas 7%)
a porcentagem da população que se preocupa, realmente, com questões
relacionadas à ética na política, visto que ela não está nem aí com
mensalão, caixa 2, valerioduto, Waldomiro Diniz, Delúbio Soares,
Silvio Pereira, Duda Mendonça, José Genoino, Luiz Gushiken, Paulo
Okamotto, Bruno Maranhão, contas fantasmas, dólares na cueca,
prefeitos assassinados, partidos comprados, mensaleiros poupados,
fundos de pensão afanados, bens públicos roubados, recursos dos
contribuintes desperdiçados e tudo mais - ainda dá para virar.
Dá para virar porque a população brasileira pode sentir-se enganada e
com um acúmulo de decepções que a levem a preferir a mediocridade à
mentira, a falta de imaginação ao excesso de cobiça, a rotina pouco
criativa ao frenesi da locupletação. De alguma forma o eleitorado
poderá acabar percebendo - e não lhe faltarão lembranças históricas
para o demonstrar - que os carismáticos não são, necessariamente,
melhores governantes do que os de baixo perfil. Às vezes, muito pelo
contrário. Assim como as personalidades ofuscantes podem conduzir a
um imenso engodo coletivo, a uma ilusão de progresso e melhoria que
resulta em verdadeiro desastre, as personalidades ofuscadas podem-se
revelar corretas na condução da administração pública, fazendo
compensar o brilho faltante pelo esforço do acerto, persistentemente
buscado. Dá para virar porque a sociedade brasileira talvez já tenha
desenvolvido, até em nível inconsciente - mas que pode aflorar na
hora decisiva das urnas -, uma saturação, uma ojeriza visceral em
relação à falta de valores morais, à enganação sistemática, ao
disfarce público, ao fingimento geral. É claro que numa situação
dessas não dá para ter a pretensão de escolher o inexistente ótimo -
pois apenas cabe a intenção de optar pelo menos ruim.
Dá para virar porque anteontem o presidente-candidato propiciou uma
das cenas mais constrangedoras a que já foi submetida a melhor
seleção do mundo. Numa videoconferência, "entrevistou", fez
sugestões, pedidos e deu "conselhos" aos jogadores e ao treinador
Parreira, que revelaram uma faceta ainda desconhecida de Luiz Inácio
Lula da Silva: apesar de se confessar "fanático" por futebol
(tentando aí um faturamento político, à imitação do general Médici),
ele demonstrou que não entende absolutamente nada de futebol. Sugeriu
a Parreira, por exemplo, que convencesse Ronaldinho Gaúcho a não
ficar sério no momento de cobrar uma falta ("parecendo que quer matar
o outro"), mas sim soltar seu alegre e descontraído sorriso, que
todos adoram. Ao que Parreira teve de lhe dar a resposta - e lição -
adequada: "Isso, não, presidente. Se o Ronaldinho fica sério durante
a cobrança da falta, é porque aí ele tem que ficar focado,
concentrado. Sorrisos e brincadeiras ele pode fazer nos treinos e em
outras ocasiões." Em outro momento, Lula insistiu em perguntar a
Parreira com qual seleção ele preferia jogar na final - fazendo,
inclusive, uma tola menção à possibilidade de vir a enfrentar
seleções dirigidas por brasileiros, a japonesa de Zico e a portuguesa
de Felipão. É claro que a Parreira só cabia dar ao presidente mais
uma lição, até para preservar um mínimo de diplomacia e ética
esportiva: "Não podemos escolher nossos adversários, presidente." Ao
final, Lula disse (e repetiu) que pretendia assistir ao primeiro jogo
da Copa com os "campeões de 58 que estão vivos". Seria o caso de lhe
indagar: só com os vivos, presidente? Por que a discriminação?
Será, mesmo, que não dá para virar?