Folha de S. Paulo
6/6/2006
O principal título da capa de ontem do jornal britânico "Financial
Times", a bíblia dos homens de negócio europeus, não é câmbio, juros,
PIB, os fabulosos lucros das corporações norte-americanas (jogados
para a página 4), mas futebol. É o plano, "radical" segundo o jornal,
para alterar todo o calendário mundial, tendo como cereja do bolo uma
Copa do Mundo a cada dois anos, em vez dos quatro atuais. É a prova
definitiva, se ainda houvesse necessidade, de que o futebol, mais que
um esporte, virou um grande negócio. Basta saber que o "Guia da
Mídia", distribuído pelos organizadores do Mundial da Alemanha aos
jornalistas credenciados (15 mil, um espanto), dedica 22 de suas 160
páginas aos "parceiros" e/ ou fornecedores oficiais do torneio. Mais
linhas para a Continental Airlines, por exemplo, do que para toda a
seleção brasileira. A iniciativa de revolucionar o calendário global
é do G14, o clubão das agremiações mais ricas do planeta, e está
perfeitamente inserida na tal de globalização. O plano dá clara
ênfase aos torneios regionais ou mundiais, em óbvio detrimento dos
campeonatos locais. Exemplo: a Liga dos Campeões Europeus, que já é o
torneio de clubes mais badalado do mundo, teria 48 participantes, em
vez dos atuais 32, elevando o número de partidas de 125 para 269.
Melhora o índice técnico? Discutível. Mas o rendimento crescerá 600
milhões (o que dá perto de R$ 1,8 bilhão). Aí é que entram os clubes
brasileiros. Se já estão falindo ou tecnicamente depauperados,
ficarão à mingua. É um retrato da economia brasileira: exporta
matéria-prima (no caso, jogadores) porque não consegue criar
instituições fortes e competitivas globalmente, exceto a legião
estrangeira apelidada de seleção brasileira.