FOLHA DE S PAULO
No dia 28 de fevereiro de 1997, o banqueiro Fábio Nahoum, do Banco Vetor -integrante do esquema dos precatórios, que resultou em uma CPI-, dizia ter vivido uma tragédia e uma alegria. A tragédia foi a liquidação de sua instituição pelo Banco Central. A alegria foi ter tomado conhecimento da peça de acusação na qual o Banco Central se baseou para liquidar o banco. "Meus advogados estão dando cambalhotas, com o gol aberto e a bola quicando, para entrar com o pedido de indenização", dizia ele. Na semana passada, em sua coluna no "Valor", a jornalista Cláudia Safatle revelava que o Vetor conseguiu, na Justiça, indenização de R$ 172 milhões.
O parecer do procurador do BC sustentava que o Vetor vendeu os títulos estaduais (emitidos para pagar precatórios) por preços abaixo de mercado. "Vai ser facílimo comprovar que nosso preço era o de mercado e que o último comprador é quem pagou o sobrepreço", vangloriava-se o futuro milionário Nahoum.
Na mesma época, um sujeito se aproximou de mim, em um bar de São Paulo, e informou que em dez anos estaria rico. Tinha uma pequena distribuidora, também liquidada. A fórmula era simples: projetaria o crescimento dos últimos dois anos para o futuro e uma distribuidora de R$ 4 milhões de patrimônio daria direito a uma indenização de algumas dezenas de milhões de reais. Provavelmente deve ter conseguido seu intento.
Nem se pense em má-fé do procurador. O que se procurou foi apenas atender à sanha da massa, prestar contas imediatas, buscar qualquer punição que acalmasse o alarido. Qualquer alerta acerca dos erros processuais, das imperfeições técnicas, era debitado aos estraga-prazeres ou aos cúmplices dos infratores.
Ao longo dos anos, esses processos catárticos têm resultado nisso: sede por escândalo fácil, falta de critério na apuração, falta de uma análise mais sofisticada, falta de planejamento nas investigações, de preocupação em discutir soluções que ataquem as raízes do problema, falta de discernimento que permite misturar inocentes e culpados, desprezar episódios fundamentais e consagrar irrelevâncias.
Faz parte desse enorme subdesenvolvimento nacional. Em geral, grandes crises abrem espaço para grandes mudanças, removem resistências, obrigam a opinião pública a se debruçar sobre tabus ou temas que se incorporaram à rotina das distorções nacionais.
Aqui, tudo é difícil. Crises políticas terminam em pizza, escândalos terminam em circo ou provocam mudanças muito lentas. Fica cada qual no seu canto, procurando tirar sua casquinha da crise, ora se valendo da confusão geral para ferir adversários, ora espalhando confusão geral para se livrar das suas próprias confusões, ora praticando esse supremo sentimento, que tanto encanta o público: o exercício reiterado da indignação estéril.
Crises morais e amplas, como a atual, provocam um sentimento de lassidão, de desânimo em relação ao futuro. Só há um remédio eficaz: mudanças definitivas, não apenas punições pontuais que meramente satisfaçam a sede de sangue mas que não evitam a repetição dos ilícitos. São necessárias medidas que transmitam a sensação de que se avançou um pouco na construção da civilização no país.
Mas onde estão as propostas de reforma política de redução da margem de manobra do caixa dois no financiamento eleitoral?
O país já demonstra que não precisa de pais da pátria. Diferentemente de tantas crises anteriores, não há o sentimento de orfandade, pela ausência de figuras referenciais. O que assusta é outra coisa, é a banalização do escândalo, como se fosse uma preliminar da novela das oito, para fornecer tema para as conversas de bar. E a ausência de interesse dos jovens, como se política fosse um mal, ainda que desnecessário.
A comoção nacional começa com a abertura da CPI e termina com o fim do "Jornal Nacional". Depois, troca-se o canal para a próxima atração.
Entrevista:O Estado inteligente
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