Entrevista:O Estado inteligente

domingo, agosto 07, 2005

ELIANE CANTANHÊDE Caracas é lá

FOLHA DE S PAULO

  BRASÍLIA - Alguém precisa explicar ao presidente Lula e ao novo "núcleo duro" do Palácio do Planalto que o Brasil não é exatamente a Venezuela. Muito pelo contrário.
Por aqui, vai ser meio difícil partir o país ao meio, como Hugo Chávez fez no país vizinho, e governar apenas com os pobres e com setores muito específicos.
A Venezuela é um samba de uma nota só na economia: petróleo, petróleo, petróleo. E petróleo estatal, da PDVSA (a Petrobras de lá). Governar o país significa gerenciar o setor e administrar bem as vacas gordas do mercado internacional do produto.
O Brasil, ao contrário, tem uma planta industrial bem mais sofisticada. Produz, compra e vende em setores diversificados e tem parcerias no mundo inteiro.
Quando Chávez tomou posse, encontrando instituições deterioradas, uma moral pública arrasada e os capitais privados voltados para Miami, ele tinha todas as condições para assumir com mão de ferro e fazer prosperar o mito entre pobres.
Lula vive num país muito diferente, onde há, sim, corrupção endêmica, mas a população reage, a iniciativa privada prospera, a imprensa é plural, a inserção internacional é evidente. Ele foi eleito com os votos de miseráveis, da classe média, do funcionalismo, do capital e até das igrejas. E com eles precisa governar.
Chávez rachou seu país ao meio, e sobrevive, entre outros motivos, por falta de adversários e de uma oposição consistente e unida. Após os escândalos, Lula enveredou pelo discurso fácil e populista e corre o risco de naufragar, entre outros motivos, porque o grande capital tem opções mais confiáveis, a classe média não se sente mais representada e o voto dos excluídos não sustenta presidentes no Brasil de 2005, bem diferente do Brasil de Getúlio Vargas ou da Venezuela de Chávez.
Em vez de se mirar na Venezuela, Lula deveria mirar o Brasil. Ver onde errou, por que errou e com quem errou. Para tentar, enfim, acertar. Se é que não é tarde demais.

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