"No país habituado a operações para
remover barraco de favela, agora temos
uma inovação: operações para remover
casinha de cachorro para gente"
Nos últimos tempos, talvez como sinal de que estamos definitivamente descendo a ladeira sem freio, a cidade de São Paulo tem produzido as mais inacreditáveis metáforas da nossa acachapante miséria social. Uma das mais recentes ocorreu numa praça da Vila Nova Conceição, bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, onde se vendem apartamentos de até 15 milhões de reais. O caso foi o seguinte: o mendigo Manoel Menezes da Silva, 68 anos, que havia anos dormia na praça, foi recolhido a um hospital psiquiátrico por pressão de moradores que não suportavam seu mau cheiro. Isso mesmo: alguns ricos da região, para não desvalorizar seus imóveis nem perturbar seu olfato, pressionaram para encarcerar a pobreza – ou psiquiatrizá-la, numa velha inspiração soviético-stalinista. Com o apoio de defensores de direitos humanos, o velho foi "libertado" do hospital e ganhou na Justiça o direito de voltar a dormir na praça.
Agora, apareceu outro caso emblemático.
Uma entidade assistencial, certamente com a melhor das intenções, instalou numa região de São Paulo casinhas de madeira, de 1 metro e meio de altura e telhado de zinco, para servir de abrigo a moradores de rua. Pintadas de azul por fora e branco por dentro, elas parecem casas de boneca ou, mais apropriadamente, casas de cachorro. "Mudão", um morador de rua que tem problemas mentais e identidade desconhecida, quando convidado a entrar num desses abrigos, apontava para a casinha e dizia "au, au, au". Seu transtorno mental não o impediu de perceber que aquilo estava mais para canil do que para lugar de gente.
Eis o desastroso ponto a que chegamos: dar casinhas de cachorro para a noite dos desvalidos. Na verdade, o ponto é mais desastroso ainda: nem casinhas de cachorro damos para a noite dos desvalidos. Isso porque a prefeitura de São Paulo ficou estupefata com a idéia da entidade. O prefeito José Serra disse que a solução era um "absurdo completo". Porque é indigna e tende a perpetuar a situação do morador de rua. Então, qual foi a saída? Recolher as tais casinhas. Na retirada, os funcionários da prefeitura de São Paulo não se fizeram acompanhar sequer de um assistente social para explicar o que se passava ou convidar os moradores de rua a dormir num albergue. "É claro que eu vou chorar. A casinha era boa. Tinha colchão e cobertor, cabiam até três pessoas apertadas", lamentava I., de 13 anos. No país já tão habituado a operações para remover barraco de favela, agora temos uma inovação: as operações para remover casinha de cachorro para gente... Lá se vão os bons tempos da saudosa maloca.
Dona Lusia Lopes da Silva, que comanda a entidade que criou as casinhas, sabe que a solução que encontrou está longe do ideal. Mas sua angústia é: o que fazer diante da inércia do poder público e da proliferação de miseráveis morando nas ruas? Duas das crianças de rua que estavam usando as tais casinhas agora passam a noite no apartamento de dona Lusia Lopes da Silva. Diz ela: "De dia, elas ficam na associação, comigo. De noite, eu as levo para o meu apartamento. O que mais posso fazer?"
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