Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 05, 2006

Miriam leitão Escolhas não feitas

O GLOBO

Escolhas não feitas

O sociólogo Gláucio Soares tem uma explicação para o crescimento da violência urbana no Brasil: é o preço das escolhas não feitas pelo país. Nos anos 60, o Brasil não fez a reforma agrária. Isso acelerou o processo de ida para as cidades. Ao mesmo tempo, o país estava aumentando fortemente sua população. A pressão sobre os serviços oferecidos pelas cidades foi maior do que se poderia atender.

Muito maior, na verdade. Em 1960, São Paulo era do tamanho de Madri. Hoje cabem três Madris em São Paulo. Em 1960, Praga era maior do que Recife; hoje cabem três Pragas em Recife. A população brasileira aumentou em 40 anos em mais de 100 milhões de habitantes. Isso significa que o Brasil teve que incorporar, em quatro décadas, uma Inglaterra, uma Espanha, uma Áustria e uma Dinamarca. Ou seja, o que a população brasileira cresceu desde 1960 é o equivalente à população atual destes quatro países juntos.

— E arrume moradia, escola, treinamento de professores, leitos hospitalares, água, lixo, esgoto para todo mundo. Não foi possível. Até porque o aumento de população e a ida para as cidades não se distribuíram igualmente pelo país. A pressão se concentrou em algumas áreas que são as que estão hoje vivendo surtos de violência — diz Gláucio Soares, professor do Iuperj.

De lá para cá, o Brasil teve uma queda forte da taxa de natalidade, mas, em anos em que crescia ainda como no velho padrão demográfico, o país enfrentou também uma urbanização acelerada pelo fato de não ter havido aquilo que se propunha no começo dos anos 60 e que foi bloqueado pelo regime militar.

— Perdemos a oportunidade histórica. Não fizemos a reforma agrária e isso prejudicou as cidades de hoje. Se tivéssemos feito o que fizeram os tigres asiáticos, reforma agrária e reforma educacional distribuidora de renda, teríamos uma realidade diferente. Um país que deixa de lado o fundamental e aumenta o investimento lá no topo do nível educacional concentra renda — comenta Gláucio.

E foi isto que o Brasil fez: escolheu concentrar recursos públicos na educação superior em vez de investir pesadamente no ensino fundamental e no ensino médio, como fizeram os países asiáticos. Gláucio Soares comparou os 10% mais pobres da população com os 10% mais pobres que freqüentam a universidade e viu uma enorme diferença de renda. Ou seja, os mais pobres da universidade pública são bem menos pobres que os mais pobres da população. Fez isso no topo e viu que os 10% mais ricos na universidade pública têm renda superior aos 10% mais ricos da população. Comparou a média de renda na população e na universidade e encontrou a mesma diferença. Isso comprova que a universidade pública tem sido um privilégio para quem tem mais renda.

O sociólogo acha que tem de haver cota para os mais pobres, mas é preciso também haver uma política de apoio aos estudantes de renda mais baixa para que se consiga reduzir a distância entre eles e os estudantes mais ricos, que chegam na universidade muito mais bem preparados.

— Sou a favor de cota, mas sou a favor também de que todos paguem pela universidade, seja agora ou no futuro, quando tiverem uma renda que permita este pagamento. Assim, todos estarão ajudando outros a se manterem no sistema — avalia Gláucio.

Ele lembra que, nos Estados Unidos, toda universidade é paga, mesmo as públicas. Ele cita o caso da universidade estadual do Arizona, que é a mais barata, e cobra US$ 10 mil por ano. Gláucio Soares defende, assim, um sistema de financiamento para os estudantes que não possam pagar agora para que paguem no futuro, quando tiverem renda suficiente.

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