
O deputado Osmar Serraglio alegrouse com a chegada do carnaval. Não pela chance de saborear a notoriedade recente em camarotes da Sapucaí, como fez o senador Delcídio Amaral, presidente da CPI dos Correios. Nem para folgar no exterior ou na praia, como tantos parlamentares.
Serraglio ficou feliz porque teria quatro dias inteiros para concentrar- se nos parágrafos derradeiros do relatório com as conclusões da CPI. São milhares de páginas, a bordo das quais o deputado paranaense viaja rumo a um capítulo obrigatório nos relatos da saga do Brasil republicano.
Todo homem tem seu preço, ensina o Manual do Cinismo. Tal falácia induziu os estrategistas do Planalto a escolher o aparentemente dócil parlamentar do PMDB paranaense para o posto de relator da CPI. Logo se faria o acerto que nunca houve.
O Relatório Serraglio é a prova mais contundente de que muitos deputados não estão à venda. Trata-se de um documento produzido com coragem e competência por um homem de bem.
Embora pouco se saiba do conteúdo, é possível anunciar que vem aí um minucioso e devastador retrato destes tristes tempos. Serraglio provará que o mensalão existiu – e que a bandalheira
foi muito além do caixa dois. Mostrará que o governo, o PT e vigaristas aliados praticaram crimes bem mais graves. Dirá que Lula foi, no mínimo, excessivamente brando com bandidos amigos.
Pilantras oposicionistas não escaparão às denúncias do relatório. Mas ficará evidente que a Era Lula transformou em rotina o que era ocasional. Furtos episódicos, praticados desde os tempos do Descobrimento, tornaram- se epidêmicos. Com a cumplicidade ativa ou o consentimento de comparsas alojados no coração do poder, o PT tentou tomar de assalto a máquina do Estado. Depois de divulgado o relatório, mesmo os mais atrevidos lulistas renunciarão à conversa fiada e a bravatas repulsivas.
Agarrado à fantasia de que os companheiros só praticaram pecados veniais, Ricardo Berzoini, presidente do PT, tem processado quem aponta o viveiro de gatunos alojado no partido. Serraglio confirma que existiu muito pecado do lado de baixo do Equador.
Se o Brasil não reagir ao contundente documento com a ira justa dos atraiçoados, terá deixado de existir como nação.
Missão em Montevidéu
Oficialmente, o ministro das Relações Exteriores é Celso Amorim. Mas a Era Lula é bem diferente das outras – e não poderia ser convencional a movimentação do time de Altos Companheiros. Amorim é o chanceler, mas se limita a ocupar-se das coisas da Europa, da África, da Ásia e da Oceania. A América Latina fica por conta de Marco Aurélio Garcia, assessor especial para assuntos exteriores.
Donatário de tão vasta capitania, Garcia eventualmente mobiliza emissários de confiança. Há dias, remeteu a Montevidéu o secretário-geral do governo, Luiz Dulci. O embaixador acidental conversou com o presidente Tabaré Vasquez sobre a questão das “papeleras”, fábricas de celulose que os uruguaios planejam construir e os argentinos pretendem implodir. A crise provocou o fechamento de duas das três rodovias que ligam os vizinhos. Sem solução a apresentar, Dulci achou melhor tratar do Mercosul.
A relíquia assassinada
Descoberto durante escavações feitas há 46 anos em Ouro Preto, o Chafariz do Pilar, construído em 1733, dificilmente resistirá às brutalidades do novo século.
Entre 2003 e fevereiro passado, o monumento foi atropelado por dois caminhões e dois carros. No carnaval, jovens vândalos arrancaram um pináculo da relíquia.
A Unesco ameaça retirar de Ouro Preto o selo de Patrimônio Histórico da Humanidade. Um castigo merecido: não há futuro para quem assassina o passado.
Colunista se equivocou
No domingo passado, a coluna reproduziu a essência da mensagem enviada por um jovem médico que se declarou estagiário do Hospital Municipal Souza Aguiar. Ao comentar as carências que afligem a saúde pública, o remetente afirmou que a emergência daquele hospital não dispunha de aparelhos de ultra-som. É um equívoco, informa Eduardo Ulup, assessor do secretário Jacob Kligerman, que enviou o seguinte esclarecimento:
“Tendo em conta o alto nível do jornalismo praticado em sua coluna, o secretário Jacob Kligerman lamenta que a Secretaria Municipal de Saúde não tenha sido ouvida. A emergência do Hospital Municipal Souza Aguiar dispõe, sim, de aparelho de ultra-som, que também serve a outros setores. Apesar das reconhecidas dificuldades na saúde pública, o Souza Aguiar segue representando um alto padrão de atendimento de emergência à população da cidade.” O colunista errou.
Um paraíso para poucos
O leitor Paulo Portinho espantou- se no começo do ano com a gula dos biliardários. Numa agência do Banco Real, descobriu que o preço do DOC – documento utilizado na transferência de dinheiro de uma conta para outra – sofrera um aumento de bom tamanho. Antes custava R$ 5,25. Saltou para R$ 8,00. Parece pouco dinheiro. Somados os DOCs usados, por exemplo, pelos 16 milhões de correntistas do Bradesco, chega-se a uma fortuna considerável.
Para a CNBB, o governo socialista e popular do PT fez do Brasil um paraíso financeiro. É um lugar sem vagas para bancários. Os salários raquíticos não lhes permitem sequer sonhar com excursões ao paraíso. Ali só entram patrões.
Ligações de alta voltagem

O jurista Nelson Jobim, atual presidente do Supremo Tribunal Federal, é um campeão da minúcia. Vive interrompendo julgamento de ações diretas de inconstitucionalidade com pedidos de vista. Sempre demora anos para examinar o caso com a devida cautela. A Adin 494, por exemplo, pousou na mesa de Jobim em 1997. O estudo foi concluído depois de oito anos e um mês.
O candidato Jobim é mais ligeiro. Em janeiro, de plantão no STF, levou poucos segundos para impedir a quebra do sigilo telefônico de Paulo Okamotto, presidente do Sebrae. Para o palanqueiro de toga, não se autoriza tamanha violência com base no noticiário da imprensa.
A CPI dos Bingos modificou o texto da solicitação, mas colidiu com o vigilante ministro César Peluzzo. Faltara delimitar o período atingido pela quebra de sigilo, alegou.
No começo da semana, uma reportagem do E st a dã o voltou a pinçar das sombras o amigo de Lula. Tão amigo que paga com o próprio dinheiro dívidas do presidente.
A quebra de sigilo, negada duas vezes pelo STF, decerto ampliaria a lista de ligações – e localizaria outros contatos de alta voltagem. Se um novo pedido da CPI pousar na sala de Jobim, será rechaçado: notícias de jornais não valem. Tomara que acabe nas mãos de algum ministro interessado na verdade e disposto a fazer justiça.
O herói de Vila Isabel
O companheiro Lula atribuiu ao presidente Lula a medalha de maior estadista de todos os tempos. O ex-coronel Hugo Chávez reivindica o mesmo título para o presidente Hugo Chávez. A disputa entre eles terminou no carnaval. O brasileiro foi pescar. O venezuelano patrocinou o desfile da Vila Isabel, campeã da guerra da Sapucaí.
O combate foi bonito. Lula acabou com a fome por decreto. Chávez replicou com venda de gasolina barata a americanos desvalidos e emprestou dinheiro a Fidel Castro. Resolveu cruzar a fronteira e doou uma refinaria a Pernambuco. Vitorioso no carnaval, conquistou Vila Isabel. Virou herói do bairro por um preço baixo: menos de R$ 1 milhão.
augusto@jb.com.br
[05/MAR/2006]