Seria o supra-sumo da mesquinhez política desdenhar do amplo espaço que o semanário londrino The Economist, a mais importante revista do gênero no mundo, concedeu ao presidente Lula na edição que começou a circular ontem, quatro dias antes de sua visita de Estado à Grã-Bretanha, a terceira de um governante brasileiro, depois de Ernesto Geisel e Fernando Henrique. Muito ao contrário, o País deve receber com satisfação o destaque conferido pela publicação ao presidente - o editorial A mágica de Lula, a reportagem O salto de Lula e a entrevista de 46 perguntas, um recorde na história das suas infreqüentes conferências à imprensa desde que chegou ao Planalto. Espinha dorsal da mencionada reportagem, a íntegra da entrevista pode ser lida apenas na edição eletrônica do semanário. Quem o fizer não se envergonhará do entrevistado.
A importância que a Economist lhe deu traduz uma atenção ao Brasil rara na mídia do Primeiro Mundo. Os principais periódicos do mundo rico, quando não falam de seu entorno imediato, da guerra no Iraque e do terrorismo, têm os seus olhos voltados - justificadamente - para a China e a Índia. E, hoje em dia, a Venezuela de Hugo Chávez e a Bolívia de Evo Morales são mais notícia do que Lula na grande imprensa européia e americana. A atitude desses órgãos de mídia - que fazem a cabeça de governantes e investidores - em relação ao País é de "negligência benigna", como disse certa vez, em outro contexto, o presidente americano Lyndon Johnson.
Agora, tanto o editorial quanto o artigo e a entrevista que lhes serviu de base tratam Lula com fairness e o Brasil com seriedade. Atestam o pragmatismo do outrora ferrabrás, reconhecem o medíocre desempenho da economia nacional, relacionam os problemas estruturais que freiam o crescimento brasileiro, constatam que, apesar disso, na década passada o País enfim lançou as bases para o desenvolvimento sustentado, ressaltam a "considerável coragem" de Lula em ir ainda além do seu antecessor em matéria de políticas monetárias e fiscais impopulares, e identificam o "ponto cego" da atual administração: o inchaço dos custos do seu governo (de 17,7% do PIB em 2002 para estimados 18,8% no ano passado). Como é de seu feitio, a Economist oferece conselhos ao presidente dos próximos quatro anos: diminuir o déficit público, expandir o investimento e aliviar a carga tributária.
Esse presidente, a revista dá como quase certo, será o político de que se ocupa - "carismático e de sorte". Eis, de fato, uma combinação invejável aos praticantes do ofício em qualquer parte do mundo. Graças a ela, a sua popularidade se recuperou do mensalão e até agora não pagou pelo acabrunhante crescimento de 2,3% do PIB de 2005. Do mensalão - para a revista "um mar de suposições, pontilhado por ilhas de fatos" -, diz Lula, quase de um só fôlego, que o PT foi vítima de um massacre "não injustificável", que o partido não pode ser julgado "porque meia dúzia dos seus membros fez algo errado", que as CPIs lhe darão um atestado de idoneidade, mas terá muito a explicar à sociedade nos próximos anos. Como notou a Economist, ele próprio, Lula, evitou se explicar.
Esperto, o presidente argumentou que, na campanha de 2002, nem se quisesse poderia recorrer a dinheiro público, portanto ilícito, porque, oposicionista, não tinha acesso aos cofres federais, como se fosse peça de ficção a folha corrida petista nas prefeituras sob o seu controle - e como isso pudesse absolver avant la lettre o seu governo por ter parte com o mensalão, via contratos superfaturados de publicidade e generosos investimentos de fundos de pensão das estatais nas nascentes do valerioduto. Mas passemos. Surpreendentemente, faltou presença de espírito a Lula quando confrontado com o fato de o Brasil não crescer nem a metade de outros países em desenvolvimento. Acredite quem quiser, assegurou que "não estamos com pressa de fazer a economia decolar". "Não quero crescer 10% ou 15% ao ano. Quero um ciclo duradouro de crescimento médio de 4% ou 5%."
Apesar dessa rata, no entanto, o Lula que o establishment britânico é chamado a ver pelos olhos da Economist, juntamente com o seu país, deixa uma boa imagem, que se deve, principalmente, ao fato salientado pela revista de a "vitória do operário nascido em meio à extrema pobreza" não o ter levado a transformar-se num populista como o presidente Hugo Chávez". Não é pouco.
Entrevista:O Estado inteligente
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