Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 04, 2006

CELSO MING Ameaças desta gripe

OESP
Ameaças desta gripe

Celso Ming
ming@estado.com.br

A gripe aviária vai espalhando medo ao redor do mundo. Além dos cuidados com a saúde humana é preciso olhar para a economia. Alguns segmentos da produção global estão sob ameaça.

Quem ouve doença aviária vai logo pensando em frango, pato e peru. Mas o prejuízo pode ultrapassar em muito o âmbito da avicultura, especialmente se os preços internacionais das rações e, portanto, da soja e do milho, despencarem em conseqüência de súbita queda do consumo de carne de aves.

As vítimas entre humanos ainda são baixas e, mesmo assim, confinadas a gente que teve contato direto com aves contaminadas. Desde que bem cozida, a carne de frango não ameaça a saúde humana. O problema é que até a população acreditar nessa informação, o consumo do produto tende a despencar.

Nos países em que foram confirmados focos da doença, a rejeição de carne de frango foi enorme. Na Itália, logo depois do primeiro caso, a queda do consumo chegou a 70% e na Turquia ultrapassou os 90%.

Não é possível avaliar por antecipação qual seria o impacto se a gripe aviária se transformasse em pandemia, como temem tantos sanitaristas. "Não há reações uniformes entre populações diferentes a casos comprovados da doença", observa José Carlos Hausknecht, consultor da MB Associados.

No Brasil não houve até agora nenhuma incidência da doença. Também não há sinal de quebra do consumo. Mas as exportações começam a acusar o golpe. O presidente-executivo da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frango (Abef), Ricardo Gonçalves, informa que, em fevereiro, o País exportou 190 mil toneladas de carne de frango. No mesmo mês do ano passado havia embarcado 210 mil toneladas.

Os preços também baquearam. O quilo do frango no mercado internacional, que em dezembro era negociado a US$ 1,47, passou a US$ 1,36 em janeiro e US$ 1,18 em fevereiro. "Estimativas ainda grosseiras indicam que os preços podem cair até 30%", observa Gonçalves.

Além disso, a diminuição do consumo de carne de frango força a redução das atividades na avicultura e, com isso, são atingidos também os mercados de milho e soja, os dois principais componentes das rações animais. A tendência é de que os preços desses grãos caiam no mercado internacional, o que pode agravar uma situação já complicada.

O preço internacional da soja vem caindo em dólares há dois anos em conseqüência do excesso de produção - 31,4% desde março de 2004. Se o consumo levar o baque tão temido, os preços irão junto. "O negócio não se sustenta com cotações muito menores do que os US$ 5,80 por bushel (27,2 kg) atuais", afirma Daniel Dias, analista da FNP Consultoria. A vantagem do Brasil seria resistir mais do que outros produtores porque trabalha com custos mais baixos.

Com o milho a situação não é melhor. Está sendo vendido a US$ 2,27 por bushel (25,4 kg) no mercado internacional e a R$ 13,50 por saca de 60 kg no Paraná. "Esse preço baixo mostra que o setor já começa a sentir os efeitos da crise de consumo", explica Sônia Martins, do Instituto de Economia Agrícola (IEA).

O Brasil pode tirar vantagem no frango. Como é grande exportador (responsável por cerca de 40% da exportação mundial) e não tem focos da doença, pode tomar as fatias da concorrência agora proibida de exportar. "Mas qualquer prognóstico no momento é pouco confiável", observa Ricardo Gonçalves.

Se a pandemia se confirmar e os preços das rações despencarem, o governo Lula terá de enfrentar quatro novos focos de pressão política num ano eleitoral: Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo, os maiores produtores nacionais de soja e milho.

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