Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 04, 2006

Diogo Mainardi A omertà brasileira

VEJA

"Nosso negócio é o acobertamento.
Nosso negócio é a cumplicidade. O
mesmo código do silêncio que vigora
nas favelas dominadas por traficantes
vigora também nos gabinetes e escritórios"

Continuo na mesma. Continuo tentando derrubar Lula. O assunto já ficou velho. Mas não consegui encontrar outro melhor. Lula é meu Moby Dick. Lula é minha Lolita. Lula é meu rato Ignatz.

Há quem prefira que Lula perca nas urnas. Não me animo com essa possibilidade. Uma derrota nas urnas, por mais esmagadora que fosse, não teria aquele caráter de exemplaridade que a abertura de um processo criminal contra ele poderia ter. Por isso não acompanho com muito interesse o resultado das pesquisas de opinião. Eu não sou cabo eleitoral de ninguém. Lula pode ganhar ou perder em outubro. Para mim dá mais ou menos na mesma. Lula não é o primeiro e certamente não será o último espertalhão a conquistar o poder. Bem mais útil do que derrotá-lo no voto seria desmontar alguns dos esquemas clandestinos que o beneficiaram nos últimos anos.

Lula alega que não há documentos que o incriminem diretamente. Ele está certo. Eu diria o mesmo se estivesse em seu lugar. Esse é um dos pontos mais inquietantes sobre a crise do mensalão: faltam documentos. Não me refiro aos que circularam nas CPIs, como relatórios do Coaf ou quebras de sigilo bancário. CPIs são inúteis porque os políticos sempre acabam protegendo uns aos outros. Refiro-me a documentos fornecidos por gente comum, como a agenda da secretária de Marcos Valério, Fernanda Karina Somaggio. Quantas foram as secretárias que testemunharam crimes cometidos por seus empregadores e escolheram calar a boca? Quantos foram os pilotos de jato particular que transportaram malas de dinheiro e preferiram ficar na moita? Quantos foram os assessores parlamentares que negociaram com doleiros e não denunciaram seus chefes? Quantos foram os contínuos que receberam ordens para destruir papéis comprometedores? Quantos foram os diretores financeiros que falsificaram balancetes de suas empresas para desviar recursos para os partidos?

Estou seguindo, neste momento, quatro histórias sobre Lula. Uma mais entusiasmante do que a outra. Mas há muito mais material explosivo dando sopa por aí. Bastaria que as pessoas se dispusessem a compartilhá-lo. Nos Estados Unidos, inúmeros sites dependem apenas disso: da qualidade dos documentos desencavados pelos internautas. No Brasil, algo assim jamais funcionaria. Ninguém cede espontaneamente cartas, fotografias, contratos, recibos, reservas de hotel, passagens aéreas, extratos bancários, ordens de pagamento e outros documentos que envolvam autoridades. Os brasileiros ainda não foram tomados pelo espírito do parajornalismo. Nosso negócio é o acobertamento. Nosso negócio é a cumplicidade. O mesmo código do silêncio que vigora nas favelas dominadas por traficantes vigora também nos gabinetes e escritórios.

De qualquer maneira, não custa tentar: se alguém aí tem documentos contra Lula, ou contra qualquer outro candidato a cargo público, e se eles forem verdadeiros, remeta-os a VEJA, em meu nome. Continuo aqui, na mesma.

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