"Lula bem que poderia aproveitar e indicar Duda Mendonça como o marqueteiro ou Delúbio Soares como o tesoureiro"
Os jornais noticiam que o presidente Lula resolveu indicar o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, para ser coordenador de sua campanha reeleitoral. É uma ousadia ímpar, para dizer o mínimo: Lula está colocando no centro de sua campanha o ministro mais suspeito de seu governo desde que José Dirceu foi demitido da Casa Civil. Palocci prestou três depoimentos em comissões no Congresso, mas nunca esclareceu nada e deixou ainda mais suspeitas no ar. Com isso, Palocci vive enredado por uma teia tenebrosa. É suspeito de ter montado um esquema de mensalinho em Ribeirão Preto, de ter arrecadado dinheiro clandestino na campanha de Lula, de ter-se cercado de assessores ávidos por negócios ilícitos, de dissimular suas visitas ao casarão que funcionava em Brasília como "central de negócios", de esconder que usava o mesmo jatinho que viajou com o dinheiro de Cuba...
São tantas as suspeitas em torno de Palocci que sua indicação para comandar a campanha de Lula só pode ser interpretada como um deboche lançado a todos aqueles que não se esqueceram. Ou, então, é a expressão mais cabal de que Lula pretende comportar-se na campanha reeleitoral como um autista que nunca ouviu falar em mensalão. Se é assim, Lula bem que poderia aproveitar e indicar Duda Mendonça como o marqueteiro ou Delúbio Soares como o tesoureiro, ora.
Tem-se discutido de que forma Palocci sairia do ministério – se abandonaria o cargo sendo substituído por outro ministro, ou se pediria uma licença temporária e seu cargo seria ocupado por um interino. A hipótese de Palocci ser substituído por outro ministro tem um problema ético, veja só: é que o ministro mais cotado é Paulo Bernardo, do Planejamento, que anda enroscado em suspeitas de rechear o caixa dois do PT em campanhas eleitorais no Paraná, sua base eleitoral. Parece piada. Um ministro na Fazenda com problema ético parece não ser um empecilho neste governo. Por que seria na coordenação da campanha?
O formato da saída de Palocci – se deixa o cargo ou se pede licença – é um assunto fora da esfera política. Eis o ponto a que chegamos: diz-se que o ministro teme que, deixando o cargo e virando um cidadão comum, possa acabar sendo preso. Se pedir apenas uma licença, talvez possa seguir com o status de ministro e assim manter o foro privilegiado – e escapar. É um tanto constrangedor que um ministro, e futuro coordenador de campanha, esteja preocupado com a forma mais eficaz de escapar da Justiça, mas isso parecer ser o de menos.
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Algumas luzes, modestas ainda, surgem no fim do túnel: o senador Demosthenes Torres, do PFL de Goiás, disse que está na hora de deixar de lado os "pudores tucanos" e investigar a relação entre Lulinha, filho do presidente, e a Telemar. A senadora Heloísa Helena, do P-SOL de Alagoas, pediu que o Congresso abra uma investigação para saber os motivos verdadeiros que levaram a Telemar a aplicar cerca de 15 milhões de reais na empresa de Lulinha, a Gamecorp.