quarta-feira, agosto 31, 2005

Gabeira crava um marco na crônica da crise

  blog LUIZ Weis
 

O máximo que ocorreu ao presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, para se desforrar do deputado verde Fernando Gabeira, pelo que este o obrigou a ouvir na sessão de ontem da Casa, foi dizer, já fora do plenário, que "ele quer se afirmar como homem, mas não conseguiu ainda.

Pobre Severino. Na realidade, hay que tener cojones, como dizem os espanhóis – além de caráter e integridade política – para um parlamentar se dirigir ao terceiro hierarca da República, nos seguintes e inesquecíveis termos:

"Vossa Excelência está se comportando de maneira indigna. Não posso representar contra Vossa Excelência porque sou um deputado isolado. Mas afirmo que Vossa Excelência está em contradição com o Brasil. A sua presença na presidência da Câmara é um desastre para o Brasil e para a imagem do país. Ou Vossa Excelência começa a ficar calado ou vamos iniciar um movimento para derrubá-lo."

As chances de um movimento desses prosperar dependem de provas, ou pelo menos de indícios veementes, como se diz nos tribunais, de que também Severino se beneficiou do impropriamente chamado mensalão – porque o que menos importa aí é a periodicidade – ou se acumpliciou pelo silêncio com os correligionários que se beneficiaram do PTduto.

Mas, com a hombridade de chamar as coisas pelo nome, o ex-petista Gabeira conseguiu cravar um marco na história da Câmara durante esses três meses de crise da corrupção: se não na prática, decerto simbolicamente, existia uma Câmara antes da fala de Gabeira e existe outra depois.

Trezentos deputados votaram em Severino. Trezentos eram os "picaretas" de que falava Lula. Mas não dizem que bastam 1o0 homens justos para salvar toda a humanidade?

É bem verdade que Gabeira não foi o único a atacar Severino por sua entrevista à Folha [veja a nota abaixo] em que negou que o PT subornasse políticos para votar a favor do governo e se manifestou contra a cassação daqueles que conseguirem provar que se abasteceram nas contas de Marcos Valério – "com dinheiro vindo dos Correios, de publicidade" – para pagar, via caixa 2, dívidas de campanha.

O que Severino não faz com dinheiro

O pefelista José Carlos Aleluia, por exemplo, disse ao microfone de apartes que "a Câmara foi jogada à execração pública". O tucano Alberto Goldman tinha dito já no dia da entrevista que Severino foi "leviano e irresponsável".

Aleluia e, depois, Gabeira, reagiram à nota lida por ele para se defender. Disse que não era "leviano, irresponsável ou muito menos desequilibrado". De fato, Goldman se enganou. Severino pode fazer tudo com dinheiro, venha de onde vier, menos rasgá-lo.

Na crise, ele vem jogando em dobradinha com o governo. Ninguém mais interessado do que o ex-ministro José Dirceu, para não falar no presidente Lula, em destruir as denúncias de compra de deputados.

Severino, ontem: "Enganam-se aqueles que pensam que deixarei levar inocentes ao cadafalso." Lula, ontem: "Temos de contar até 10 cada vez que temos de falar alguma coisa para não causar nenhuma injustiça, nenhum transtorno."

Semanas atrás, Severino tentou atrasar a abertura do processo por quebra de decoro parlamentar do agora deputado Dirceu, no Conselho de Ética da Câmara.

Ontem, enquanto Lula dizia também – com razão, em tese – que se deve ler duas vezes uma notícia muito escandalosa, para ver "se tem verdade ali" –, no plenário o deputado petista Devanir Ribeiro dirigia-se, reveladoramente, a Severino:

"Vossa Excelência terá minha solidariedade enquanto presidir esta Casa, enquanto não acatar o que a mídia quer que façamos aqui, ou seja, uma caça às bruxas".

Não menos revelador – no caso, do que aconteceu com o partido da ética – foi o comentário de outro petista, o deputado Chico Alencar, sobre a decisão do PPS de patrocinar os pedidos de cassações que vierem da CPI dos Correios [para que possam seguir diretamente ao Conselho de Ética e não depender de Severino]:

"Estou com ciúme. Quem deveria fazer isso era o PT."

"Era".

Editorial de O Estado de S Paulo Pizza no PT


Se nas CPIs sova-se a massa para a pizza da preservação do maior número possível de mandatos dos parlamentares que promoveram o mensalão ou dele usufruíram, no PT a massa já foi esticada e recebe a cobertura. Com a retirada da candidatura do ex-ministro Tarso Genro à presidência do partido e sua substituição pelo deputado Ricardo Berzoini, ficou sobejamente confirmado que quem manda no PT é o deputado José Dirceu.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já foi o árbitro de todas as decisões partidárias, hoje nada mais é que uma figura de proa - a caminho, também, de deixar de ser o principal puxador de votos do PT, conforme mostram as últimas pesquisas.
A indicação de Berzoini, afinal, só foi confirmada após consultas feitas ao ex-chefe da Casa Civil. Trata-se de candidatura feita sob medida para manter nos órgãos de direção do partido as mesmas pessoas que engendraram as maracutaias eleitorais e as operações de compra e aluguel de apoio parlamentar à custa de dinheiro público e de recursos de caixa 2. Ao contrário de Tarso Genro, que colocou como condição essencial para a sua candida
tura a retirada da candidatura de José Dirceu - pois com ele no diretório nacional não seria possível a 'refundação' do partido -, Berzoini afirma que 'a presença do deputado não é desejável, mas não é uma questão central. Não coloco como condição para ser candidato porque a construção da chapa é projeto político coletivo'.
Por aí se vê que, com Berzoini, já não se trata da 'refundação' do PT, mas da simples composição de uma lista de candidatos aos órgãos de direção do partido. E para ele é irrelevante que o grupo que levou o PT à ignomínia continue fazendo parte do corpo diretivo da agremiação.
Não surpreende, portanto, que o novo candidato à presidência do PT classifique como simples erros de 'gerenciamento' e 'operação' os vários delitos que foram praticados na montagem de um insano projeto de poder. O deputado Ricardo Berzoini defende a mesma tese do presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti: corromper e ser corrompido para custear campanha eleitoral não é crime, é deslize que merece, no máximo, uma advertência.

Essa é a mentalidade e o modo de pensar do pizzaiolo típico. Nesse ambiente, nada mais natural que surja com força a proposta atribuída ao deputado José Dirceu de que ele e o adversário Tarso Genro permaneçam na chapa do Campo Majoritário, com o compromisso de não assumirem cargos na executiva e no diretório nacionais.
O ex-ministro Tarso Genro, que tornou a sua candidatura inviável ao dar um ultimato ao capo José Dirceu, tem uma visão surpreendentemente romântica de seu partido. Para ele, 'o grupo dirigente anterior e seus principais quadros deveriam assumir as responsabilidades públicas pelo que aconteceu, porque até agora não se tem responsáveis pelo que aconteceu. Até agora, o único responsável é o Delúbio. Estou falando de responsabilidades políticas, não penais. E até agora não se tem responsabilidades políticas apuradas'. Ora, essas responsabilidades estão mais que apuradas. Elas são do homem que controlava e controla o PT e de seus comandados - Delúbio, Sílvio Pereira e Marcelo Sereno. Mas o cúmulo da ingenuidade é pensar que quem
foi tão longe e ousou tanto, montando tamanho esquema de corrupção, se afastará voluntariamente das prebendas partidárias que podem aumentar as suas possibilidades de escapar sem punição. É preciso não esquecer que o exministro José Dirceu, quando confrontado com o ultimato de Tarso Genro, declarou que preferia morrer a abandonar a disputa pela renovação do cargo partidário. E também é difícil acreditar que um partido que conviveu durante três anos com essa podridão, sem tugir nem mugir, agora vá reagir virtuosamente.
O deputado José Dirceu, apesar de tudo o que foi e está sendo apurado nas CPIs e nas investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, continua dominando o Campo Majoritário e, com ele, o Partido dos Trabalhadores. E o deputado Berzoini é candidato à presidência do PT porque isso atende às conveniências do ex-chefe da Casa Civil. Eleito, não fará a faxina que a situação exige e será um crítico impertinente da política econômica do presidente Lula, da qual discorda abertamente desde os tempos em que foi ministro da Previdência. Nessas condições, a reaproximação de Lula com o partido que fundou será cada vez mais difícil.

BLOG 31 e 30 AGOSTO


DORA KRAMER Inconveniência continuada

O ESTADO DE S PAULO

Severino faz defesa de ilícitos e consolida as piores expectativas a seu respeito Não que tenham muita importância ou poder de influência as coisas que diz ou pensa o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti.

Mas, como sua conduta queira ou não resulta num reflexo da imagem do Parlamento, sempre é bom ressaltar o resultado da obra construída em fevereiro último por uma afoita oposição em conjunto com uma incompetente situação.

Principalmente em situações como a atual, em que o deputado acha por bem fazer a defesa enfática de ilícitos penais e morais, cumpre lembrar às excelências a armadilha que montaram e da qual se tornaram reféns.

Bons ou ruins, preparados ou despreparados, conscientes ou inconscientes, honestos ou desonestos, dignos ou abjetos, altivos ou desprezíveis, todos acabam confundidos com pequeninos severinos a cada demonstração de inadequação do homem ao cargo, proporcionada pelo titular do posto terceiro na linha de sucessão presidencial.

O produto do menosprezo aos ritos e procedimentos institucionalizados no Poder Legislativo deu nisso: na eleição para presidi-lo de um parlamentar que não considera indecoroso o suborno, acha o trânsito ilegal de dinheiro uma falta menor e nada vê além de conduta "muito ruim", digna apenas de censura, no desvio de dinheiro de uma empresa pública para os cofres de partidos.

Isso para um Congresso já em estado de litígio explícito com a opinião pública é sal puro em feridas abertas. É claro que o encaminhamento do resultado das investigações das comissões de inquérito não será o defendido por Severino Cavalcanti, cuja noção de justiça passa necessariamente por suas circunstâncias pessoais e partidárias.

Como de resto passam também por conveniências familiares seus critérios sobre administração pública.

É evidente que nada será feito no ritmo e ao molde do gosto de Severino e seus companheiros de partido, muito deles envoltos até o pescoço nas acusações em cartaz e para as quais o presidente da Câmara defende punições leves, jamais cassações.

A fim de reparar o estrago causado pela entrevista que deu à Folha de S. Paulo, toda ela um elogio ao compadrio e à ilegalidade, o presidente da Câmara leu uma nota oficial, durante a sessão de ontem no plenário, cheia de obviedades - "esta Casa não condenará inocentes sem que tenham amplo direito de defesa assegurado" - insuficientes para eliminar o efeito da entrevista.

A gritaria veemente sobre a própria honra e biografia alta, preparada às pressas para servir de lenitivo às palavras ditas no dia anterior com toda a calma, e certamente em frente a um gravador, não consertaram coisa alguma.

Nem poderiam tal a enormidade dos disparates pronunciados.

Do ponto de vista legal, a mais grave delas é exibida a título de explicação sobre o que seria, na visão de Severino, a diferença entre o "mensalão" - na opinião dele inexistente - e o abastecimento financeiro de partidos.

"A procedência do dinheiro é muito ruim, porque foi feito com dinheiro vindo dos Correios, de publicidade. Mas tem de ver caso a caso, porque ninguém merece execração pública sem provas", diz ele.

Primeiro, atesta que o dinheiro repassado pela empresa de Marcos Valério de Souza aos deputados tem origem no setor público; depois, não vê o enorme ilícito existente no repasse de dinheiro de uma estatal para o caixa de partidos; por último, defende tratamento fidalgo aos subornados por aquele dinheiro, segundo ele mesmo, "de procedência ruim, vindo dos Correios".

O deputado Fernando Gabeira talvez tenha se irritado além da conta ao protestar contra as atitudes de Severino ameaçando, de peito aberto, iniciar um movimento pela derrubada do presidente da Câmara.

Deu o argumento que muitos precisavam para sair em socorro de Severino e reforçar, assim, aquelas posições, digamos, apaziguadoras, defendidas por ele. Forneceu a ele a chance de passar de réu a vítima.

Além do mais, não seria a mesma Câmara que produziu Severino Cavalcanti a instância mais legítima para requerer seu impedimento, seja por suspeições de ordem ética - levantadas de público por Gabeira durante o protesto -, seja por ausência de conformes à altura do cargo.

Ali ninguém pode reclamar de nada. A oposição achou que podia brincar de impor uma derrota ao governo completa, bem maior do que seria a eleição de Virgílio Guimarães e não do candidato oficial, Luiz Eduardo Greenhalgh.

A situação, aí entendida como o PT, voltou-se para o próprio umbigo, encaminhou todo o processo obedecendo à dinâmica da briga petista pelo poder paulista. Confiou no patriotismo da oposição - daí o governo ter ficado especialmente irritado com os tucanos - e no sabujismo dos partidos aliados.

Saiu tudo errado, ninguém levou em conta que haveria dois anos pela frente com a Câmara sendo conduzida por um parlamentar que por alguma razão ainda pertencia ao chamado baixo clero depois de décadas de vida parlamentar.

Assim como se pode dizer também em relação a um outro presidente, a cigana não enganou ninguém a respeito de Severino Cavalcanti, cujos atributos estiveram sempre à disposição; surpreende-se e decepciona-se só quem imaginou poder festejar a indigência sem pagar um preço por isso.


Editorial de A Folha de S Paulo ESPETÁCULO DA PARALISIA

 Em contraste com as promessas do governo de que neste ano as deficiências de infra-estrutura do país mereceriam mais atenção, vai-se observando um aumento do esforço fiscal do setor público em detrimento dos investimentos. O compromisso oficial é gerar um superávit primário (receitas menos despesas, sem contar pagamento de juros) de 4,25% do PIB em 2005, mas tudo indica que o percentual será maior, visando fortalecer a credibilidade da política econômica e compensar os aumentos da dívida pública gerados pela altíssima taxa básica de juros.
Algumas situações conspiram para isso, notadamente o aumento da arrecadação e da carga tributária e o atraso na implementação dos programas orçamentários. Até o dia 12 de agosto, somente 4,68% dos R$ 22 bilhões autorizados no Orçamento deste ano haviam sido gastos.
Projeto considerado prioritário pelo próprio governo, a transposição das águas do rio São Francisco havia desembolsado apenas 2,68% do total disponível; a manutenção de rodovias, 4,46%; as obras de infra-estrutura em municípios pequenos, apenas 2,65%. Em agosto do ano passado, o governo anunciou a licitação, no primeiro trimestre deste ano, de 17 novas usinas hidrelétricas, que iriam adicionar 2.829 MW ao sistema a partir de 2009. Pois bem, desse total, apenas uma obteve o licenciamento ambiental -situação que eleva o risco de aumentos no preço da energia no período de 2007 a 2010.
Há investimentos que são imprescindíveis e, por suas características, dependentes da iniciativa do setor público. São áreas que dizem respeito não apenas às condições de vida da população, como o saneamento básico (verdadeira tragédia nacional), mas também às perspectivas do desenvolvimento econômico, como as ferrovias, os portos e as estradas.
Infelizmente, a política econômica do governo petista, apesar da retórica de alguns, relega essas questões a segundo plano. É o espetáculo da paralisia e da omissão. O governo federal nem corta despesas nem realiza os investimentos indispensáveis.

CLÓVIS ROSSI Os crimes e os "severinos"

FOLHA DE S PAULO

  SÃO PAULO - Indignado com a pizza gigantesca que o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, defende com a maior cara-de-pau? Muito bem. Mas é injusto circunscrever a indignação a Severino. Ele é apenas a cara e o espírito da Câmara dos Deputados, tanto que 300 de seus pares o elegeram presidente.
Elegeram-no porque o mundo político faz tempo perdeu a característica de representar o tal de povo (se é que a teve algum dia) .
Salvo uma dúzia de exceções, os congressistas representam a si próprios e a seus interesses, eleitorais ou, pior ainda, financeiros. Ser deputado/senador tornou-se profissão, cuja finalidade é, na melhor das hipóteses, reeleger-se. No pior dos casos, é fazer negócios. Não raro, sujos.
Tanto é assim que muitos confessaram ter recebido dinheiro de caixa dois, como se fosse banal. Não é, ensina o jurista Ives Gandra: mesmo que o dinheiro não tenha saído dos cofres públicos (o que seria corrupção pura e simples, ainda a ser provada), quem recebeu do PTduto tem que declarar à Receita Federal sob pena de cometer crime contra a ordem tributária (lei 8.137).
É indecoroso, mas Severino fez campanha prometendo, justamente, defender esse mundo como ele é, com suas obscenidades.
Nada mais natural, portanto, que continue agora a defender seus pares, mesmo os réus confessos.
É possível tornar ao menos menor a gigantesca pizza oferecida por Severino? Depende, a rigor, da TV, em especial da Rede Globo (já que os eleitores, salvo uma ou duas exceções, não se mexem mesmo).
Se o "Jornal Nacional" continuar a apimentar com indignação o seu noticiário sobre a crise e sobre a falta de punições, pode abalar os "severinos" que são maioria no Congresso.
Para os jornais indignados, "severinos" nem dão bola, porque sabem que seu eleitorado não os lê. Nem chegam aos grotões, aliás, onde "severinos" são eleitos porque mandam soltar motoristas bêbados.

FERNANDO RODRIGUES A ajuda de Severino

FOLHA DE S PAULO

  BRASÍLIA - Um defeito Severino Cavalcanti não tem: esconder as suas opiniões. Ao defender a punição diferenciada para os deputados mensalistas, ontem na Folha, o presidente da Câmara contribui para adiar a pizza do atual escândalo.
Formou-se em Brasília um movimento para evitar a degradação ainda maior da imagem do Congresso. Mais de 50 congressistas querem derrubar a visão severinista de mundo. Para o presidente da Câmara, tudo bem se um deputado pegou dinheiro sujo e para contas de campanha. Basta repreendê-lo. Se recebeu mensalmente, aí deve ser cassado.
Por essa lógica, todos se salvam. Seria uma catástrofe. Não só para a Câmara e para o Senado mas para a democracia. A sociedade poderia voltar-se contra o mais aberto dos Poderes, justamente aquele designado para representar os eleitores.
Com a contribuição de Severino para o debate, ontem as direções das CPIs tiveram uma das únicas decisões acertadas do ponto de vista de suas operações simultâneas: vão preparar um relatório preliminar conjunto sobre quem deve ser cassado. Terá muito mais peso. Ainda haverá chance de adormecer na gaveta do presidente da Câmara, mas estará reduzido o espaço para manobras de bastidores e operações abafa.
A lógica de atuação dos acusados agora é clara. Concentram-se na tentativa de livrar a cara de José Dirceu, o primeiro na fila depois de Roberto Jefferson para ir ao cadafalso.
Como se sabe, contra José Dirceu só pesam as acusações verbais de que teria sido um dos mentores do "mensalão". Seu principal detrator, Jefferson, teve a cassação requerida exatamente por não ter apresentado provas materiais contra Dirceu.
Ao defender a punição leve para a maioria, Severino provocou a reação que faltava. Ficou mais difícil salvar Dirceu. Se o ex-chefe da Casa Civil for degolado, a porteira se abre para uma limpeza maior.

Aviso de gringo PAULO RABELLO DE CASTRO

FOLHA DE S PAULO

Já não é o primeiro nem o terceiro. Na semana passada, tivemos de ouvir mais dois sermões de economistas coroados pelo establishment internacional alertando contra o efeito deletério da nossa "política" de juros. Dessa vez, foi Kenneth Rogoff, ex-FMI e agora na Harvard. A caminho da serra da Mantiqueira, para se reunir com homens de finanças de São Paulo, deu entrevista à Folha (25/ 8, pág. B3) na qual lamentou que, enquanto o juro é baixo, lá fora -a principal vantagem do Brasil-, a principal desvantagem é ter taxa alta demais, aqui dentro.
Fazendo coro com o colega, o também americano Paul Krugman, festejado professor e colunista, também desancou em cima dos juros. Krugman, ex-conselheiro da falida Enron, hoje sabe muito bem como é perigoso não dar atenção a pequenos indícios de desequilíbrio. A Enron, gigante da energia no mercado americano, com fortes investimentos até no Brasil, quebrou "de surpresa", até para quem estava sentado lá dentro, como o experiente Krugman, ouvindo a xaropada das reuniões de conselho, em que só coisas boas e relatórios favoráveis eram apresentados. Se houvesse essa palavra em inglês, alguém teria lembrado de dizer nessas reuniões que a Enron estava "blindada".
Nada pior do que a aparência de tranqüilidade, quando todas as outras circunstâncias são desfavoráveis. O ministro Furlan, na sua habitual bondade, reafirmou que a economia "vive um momento de tranqüilidade". Lembro-me dos lindos dias de sol em Nova Orleans, logo antes da passagem do furacão Katrina.
Como Krugman, ou Rogoff, também Stiglitz, o midiático Prêmio Nobel que veio a São Paulo ministrar palestra, a caminho de Buenos Aires (..."a Argentina vai muito bem, sobre o Brasil, o júri ainda não decidiu..."), não perdeu oportunidade de estabelecer a injusta comparação entre a inadimplente Argentina e seu bom vizinho Brasil, cujo absoluto rigor no cumprimento das obrigações financeiras internacionais não lhe tem rendido outro destaque além de ser igualado a quem não paga suas contas.
Tem mais. Antes desses, tivemos a visita do metálico John Snow, secretário do Tesouro americano que, embora não querendo imiscuir-se em questões internas, não poderia sair daqui sem manifestar sua incompreensão quanto ao nível dos juros no Brasil.
Até o circunspecto John Williamson, pai presumido do malvado "Consenso de Washington", andou dando uns pitacos contra o juro. Disse coisas que economistas coroinhas, no Brasil, prefeririam não ouvir, menos ainda repetir: "Está na hora de baixar juros, mesmo que a inflação suba um pouco -diminuir a diferença...".
Enquanto isso, chegamos a setembro sem que o Banco Central tenha desistido de envergar sua armadura de D. Quixote para investir contra os moinhos de vento da inflação. Alheio ao conceito básico de moeda estável e forte -aquela que todos demandam e retêm sem necessidade de juros altos-, o aprendiz de feiticeiro repete a ladainha dos economistas do circuito internacional, deixando atrás de si um rastro de centenas de bilhões de reais de excesso de juros pagos ao longo da prática do regime de metas de inflação, ao que se soma o prejuízo ainda maior do crescimento perdido nos últimos anos e a destruição de alguns milhões (!) de postos de emprego, sacrificados pela artificial apreciação do real perante as moedas dos concorrentes.
Calcula-se que, para cada 10% de valorização artificial do real, a mão-de-obra empregada na indústria paulista recue cerca de 5%, segundo um teste estatístico realizado com dados de 1975 a 2005. Portanto não há virtude numa política que sacrifica crescimento e emprego para manter a precária estabilidade dos preços, como essa recém-alcançada pela momentânea deflação do IGP.
Já tivemos o duvidoso benefício de vivenciar muitas outras heterodoxias, especialmente o congelamento de preços e salários, que alguns, da academia internacional, chegaram a aplaudir, nem por isso fazendo daquela estupidez nenhuma idéia brilhante. Foi com tal sandice, entretanto, que muitos políticos chegaram a ter 90% de popularidade, por uns tempos...
Hoje, não se passa muito diferente. O juro alto, atuando sobre o câmbio para apreciá-lo artificialmente, "congela" preços e salários, sem decreto de congelamento. Embora método mais ardiloso e sofisticado, trata-se da mesma heterodoxia de sempre. Até os gringos já conseguem perceber que algo está errado.

LUÍS NASSIF Um banco latino-americano


FOLHA DE S PAULO

  Nos últimos anos, ganhou força a idéia de constituição de um banco latino-americano, que juntasse vários países, pudesse ser "investment grade" (grau de investimento) e promover financiamento barato e confiável para a região.
Pelo menos para financiamento das exportações, esse banco existe desde 1979, cumpriu papel relevante nas várias crises externas dos últimos anos e goza de um anonimato absolutamente incompreensível. Trata-se do Bladex, banco criado em 1979, no Panamá, e que tem acionistas de 23 países latino-americanos -do lado brasileiro, o sócio é o Banco do Brasil-, possui todas as suas ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova York e em 1992 tornou-se o primeiro banco latino-americano a ganhar o status de "investment grade".
Seu início no Panamá explica-se pelo fato de, na época, ser um o único centro bancário internacional do continente e ter o dólar como moeda. Também pesou a posição geográfica do país. À medida que o comércio exterior latino-americano começou a crescer, nos anos 80, o Bladex passou a ganhar musculatura, ao atuar basicamente como fornecedor de linhas de financiamento para bancos e como o maior financiador das vendas inter-regionais de petróleo. Com um capital de US$ 600 milhões, já forneceu mais de US$ 130 bilhões em financiamento para a região.
Essa vocação latino-americana foi responsável por glórias, mas também por quase tragédias. O Bladex forneceu linhas de financiamento para a região nas crises Tequila, da Ásia, da Rússia e do Brasil. Na grande crise brasileira de 2002, garantiu US$ 3 bilhões em linhas de financiamento ao país. Ficou na Argentina até o fim, e essa lealdade quase lhe custou a solidez. Na crise da Argentina, as instituições multilaterais decidiram tirar o colchão de segurança, que garantia saída tranqüila para os credores.
As perdas com a Argentina reduziram o capital contábil do banco pela metade em menos de um ano. Seu valor de mercado caiu para irrisórios US$ 37 milhões. A operação de salvamento contou com o apoio de vários governos -inclusive do brasileiro- e do IFC (International Finance Corporation), braço do Banco Mundial. Foi montado um pacote de garantias que permitiu ao Bladex ir a mercado. Fez uma oferta de US$ 100 milhões. Houve uma superprocura e o banco acabou colocando US$ 147 milhões, principalmente devido ao apoio do Brasil e de instituições como o IFC.
Quando a Argentina retomou os pagamentos, o Bladex foi tratado como credor prioritário. O pagamento inflou os resultados do banco, e o valor de mercado saltou para US$ 700 milhões.
O recado de seu presidente, Jaime Rivera, é sério: desde a independência, nunca a região enfrentou uma ameaça comercial como a que se apresenta agora no mundo. Em períodos altamente favoráveis, as exportações da região caíram de 5,4% do comércio mundial para 5% nos últimos quatro anos.
Sua sugestão é a integração rápida do continente e a aproximação rápida com o mercado americano.

Zuenir Ventura Prevendo o passado

O GLOBO


Lendo uma entrevista de César (Cesinha) Benjamin, o fundador do PT que há dez anos rompeu com o partido acusando-o de corrupção, pergunta-se como foi possível durante todo esse tempo não se perceber um processo de deterioração moral cujos sinais aparentes já revelavam, através de novos hábitos e costumes de militantes — carros, roupas caras — enriquecimentos por demais rápidos.


Ao contrário de muitos, não acho que se deve atribuir o mau passo do PT apenas à ânsia de ascensão social de alguns de seus dirigentes, que deixaram o poder lhes subir à cabeça e entrar no bolso. O deslumbramento não é a origem, mas a conseqüência visível do princípio, adotado aliás por parte da esquerda, de que "pela causa" vale qualquer sacrifício, principalmente o de se apropriar dos recursos alheios. Em outras palavras, os fins justificam os meios.

O desvio de conduta não foi um acidente de percurso ou uma emergência diante da necessidade política de eleger Lula na sua quarta tentativa. Os métodos já tinham sido utilizados na campanha de 1994. "Havia uma claríssima evidência de prática sistemática de caixa dois", disse Cesinha à repórter Eliane Brum. E para não parecer denúncia atrasada, ele contou como em 95 chamou a atenção para o "ovo de serpente", durante a convenção nacional do partido, no Espírito Santo.

Cerca de 800 delegados ouviam as acusações feitas da tribuna quando, de repente, obedecendo a um gesto de José Dirceu, um grupo se levantou agressivamente. "Eram umas 20, 30 pessoas. Vieram para me dar porrada. Lula estava lá, não participou, mas não impediu." A confusão acabou interrompendo o encontro. "O zunzum sobre desvio de recursos" teria começado ainda antes, no início dos anos 90.

Cesinha é categórico: "O Delúbio não fez nada que não tenha sido autorizado pelo Zé Dirceu. E o Zé Dirceu não autorizou nada de que Lula não tivesse conhecimento." Ele se desfiliou do PT ao constatar que Delúbio Soares e Sílvio Pereira haviam chegado à direção nacional levados pelos próprios Dirceu e Lula.

Como ninguém viu isso? Cesinha acusa a maioria dos intelectuais de tolerância com os indícios de degeneração. Além dessa pergunta, há outra para ser dirigida não mais aos militantes petistas, mas aos jornalistas, aos sociólogos, aos cientistas sociais: como ninguém previu que aquilo que estava ocorrendo quase ostensivamente numa escala e com uma voracidade tão fora do comum iria dar inevitavelmente no que deu agora?

Na parte que nos toca, a nós, jornalistas, temos que admitir, fazendo um mea-culpa, que fica comprovado mais uma vez que, em matéria de antecipar acontecimentos, somos craques mesmo é em prever o passado.

Merval Pereira Tucanos se bicam

O GLOBO

O governador de Minas, Aécio Neves, deve voltar a São Paulo nos próximos dias, desta vez para uma conversa franca com o prefeito paulistano José Serra, o presidenciável do PSDB mais bem colocado nas pesquisas de opinião. Na semana passada, Aécio esteve com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que se mantém como o principal eleitor interno tucano, e alternativa sempre possível a candidato do partido à Presidência, especialmente se o consenso estiver difícil de ser atingido, e a disputa ficar facilitada com a derrocada da popularidade do presidente Lula.

Fernando Henrique pode surpreender, no entanto, com a aceitação de uma candidatura ao governo de São Paulo, sonho dos tucanos paulistas. Agora que o PT está enfraquecido nacionalmente, e que suas pesquisas pessoais indicam que "São Paulo tucanou", pode ser que se disponha a disputar uma eleição em que seja o favorito.

Não se pense, portanto, que apenas o PT ou o PMDB têm facções, pois o PSDB, mesmo com a situação favorável à retomada do poder em 2006, consegue se envolver em disputas internas que podem terminar prejudicando seu desempenho eleitoral. Foi assim em 2002 com a escolha de José Serra como candidato — a mesma parte do PSDB que hoje se inquieta com a atropelada que o prefeito vem dando sobre o até então candidato natural do partido, o governador Geraldo Alckmin, deixou-o sozinho na campanha eleitoral.

A situação hoje é mais tranqüila para Serra, pois ele ainda aparece como o único tucano a vencer tanto Lula quanto Garotinho. Mas a sensação de que, a estarem certas as pesquisas que apontam a tendência constante de queda na popularidade do presidente, dentro de pouco tempo qualquer dos presidenciáveis tucanos poderá derrotá-lo, faz com que as disputas internas se acirrem, e que o "salto alto" do favoritismo seja usado em lugar da "sandália da humildade".

Há um entendimento generalizado, porém, de que o candidato do PSDB não pode sair de uma briga de tendências dentro do partido, pois já iniciaria a campanha fragilizado. Além do mais, o próximo presidente, seja ele quem for, terá pela frente um país saído de uma grave crise política, e terá que ter grande capacidade de aglutinação para poder governar.

A missão paulista de Aécio Neves tem, portanto, várias dimensões e nuances. Tanto ele quanto Tasso, o senador Arthur Virgílio, do Amazonas, e o governador Marconi Perilo, de Goiás, formam um grupo de líderes tucanos que demonstram certa impaciência com a centralização das decisões no núcleo paulista do partido. Os três pré-candidatos mais fortes são paulistas— Fernando Henrique, Geraldo Alckmin e José Serra — mas os demais líderes regionais pretendem lembrar a eles que qualquer decisão tem que passar por outras instâncias partidárias.

Aécio joga também com a possibilidade de vir a se candidatar por um outro partido, aventada pelo PMDB há alguns meses e que foi ressuscitada hoje, mais como uma ameaça potencial do que uma possibilidade real. Nada indica que Aécio Neves tenha interesse em deixar o PSDB, por onde tem uma reeleição mais que provável para o governo de Minas, e uma candidatura à Presidência da República quase natural, plano que sua idade permite que seja postergado sem grandes ansiedades.

É verdade que não estava no seu cronograma a realidade que se apresenta hoje, com Lula enfraquecido e a provável eleição de um tucano em 2006. Com a reeleição do atual presidente como provável até alguns meses atrás, Aécio, reeleito também governador de Minas, seria o candidato natural do PSDB em 2010. Com a possibilidade de Serra ou Alckmin se elegerem, seu projeto pode ter que ser adiado para 2014, quando será no máximo senador da República e o PSDB terá estado no poder por 8 anos novamente, enfrentando o desgaste natural da fadiga de material.

Ou, pior, se o presidente tucano não tiver sucesso capaz de reelegê-lo em 2010, esse sonho pode ser jogado para 2018. De qualquer maneira, embora não seja candidato agora, Aécio tem poder político para fazer com que o candidato do PSDB obedeça a um consenso, e não seja escolhido apenas pelas pesquisas de opinião. O fato é que Serra só será o candidato natural do partido se continuar sendo o único apontado pelas pesquisas de opinião a vencer Lula até o início de 2006, quando será definido o nome oficialmente.

Em igualdades de condições, o candidato natural será mesmo o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, até mesmo porque Serra terá dificuldade em deixar a prefeitura com pouco mais de um ano de mandato. Mas Aécio acha que Serra, mesmo tendo a chance de se tornar um candidato natural, tem que costurar internamente um consenso em torno de sua candidatura, e não impô-la. O primeiro passo para a unidade partidária seria um candidato de consenso também para a presidência do partido, que será escolhido até o final do ano.

O candidato natural é o senador cearense Tasso Jereissati, que já presidiu o partido e foi governador três vezes. No entanto, o prefeito José Serra, que é o presidente licenciado do partido, trabalha nos bastidores para que seja outro o escolhido, considerando que Tasso não é simpático à sua candidatura, o que é apenas meia verdade. Serra acha que Tasso prefere o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (o que é verdade), mas acabará, como em 2002, apoiando a candidatura de Ciro Gomes, o que é possível, mas não é inevitável.

Já tentou lançar a candidatura de Marconi Perillo, mas a manobra não só não funcionou como Perillo anda revelando sua preferência pela candidatura de Alckmin. O que Aécio tentará nos próximos dias é convencer Serra de que deve lançar a candidatura de Tasso Jereissati à sua sucessão na presidência do partido, como ponto de partida para a construção do consenso interno.


Miriam Leitão :Aos mais céticos

O GLOBO

O dia foi de mandar o recado para os críticos. O Banco Central comemorou e discutiu ontem o regime de metas de inflação, polêmica ferramenta usada para manter os preços sob controle. O ministro Palocci, ao fim do dia, sentenciou: "O nosso BC conseguiu acertos extraordinários na busca de tornar o Brasil um país normal."
— Os juros não sobem por capricho — explicou Antonio Palocci, parecendo endereçar a frase para seu irrequieto público interno.


— Há quem diga que as metas de inflação são ambiciosas. Estamos no 12 ano deste processo de controle da inflação e a nossa taxa ainda é maior que a da maioria dos países do mundo — disse o ministro. E essa frase tinha nome, endereço e CEP: o novo candidato do grupo governista à direção do PT, Ricardo Berzoini, que disse que a meta é baixa demais.

Berzoini falou na hora errada, porque acaba de ficar claro que a meta será cumprida na mosca e na semana em que o PIB do segundo trimestre mostrará que o país continuou crescendo.

Mais do que um número, o que o regime de metas está mostrando é o aumento da resistência da economia brasileira aos choques de uma forma geral.

O economista Paulo Guedes tocou diretamente num assunto que aquela platéia, econométrica, preferiu evitar ao longo do dia inteiro:

— Nós estamos aqui discutindo modelos que alongam o horizonte da política monetária no meio da pior crise da nossa história; com a inflação sendo derrubada e o país crescendo — afirmou, saudando o acerto da política introduzida pelo Banco Central.

Nada naquele seminário lembrava o polarizado ambiente político. Primeiro, ninguém falava como se tivesse havido mudança de governo. A festa era para comemorar o 6 aniversário de uma política. Segundo, os dados da economia apresentados eram inegavelmente saudáveis. Superávits comerciais e em conta corrente nunca dantes navegados apareciam nos slides de economistas brasileiros e estrangeiros.

Se todo mundo falava em seis anos, Palocci foi além e falou em doze. Ou seja, incluiu no fato a ser comemorado os primórdios do real, quando no governo Itamar ainda se tentava pôr em marcha um plano que acabasse com aquela inflação horrorosa.

— Tudo foi feito para controlar um dos nossos mais perigosos indicadores: a inflação alta — comentou Palocci.

O ministro disse que, em 99, o Banco Central "trouxe para o Brasil o que havia de mais moderno em termos de controle de inflação".

O professor Dionísio Dias Carneiro mostrou, em linguagem mais técnica, que a meta era, de fato, o que havia de mais moderno; tão moderno que ainda é cedo para avaliar completamente o seu resultado. Lembrou que o controle dos agregados monetários — política usada no Brasil nos anos 70 e parte dos 80 — não conseguiu debelar a inflação, que foi crescente; a âncora cambial funcionou por algum tempo, mas, como toda âncora, um dia entrou em colapso. Foi quando se introduziram as metas de inflação:

— Seis anos é um tempo pequeno, mas se deve fazer a seguinte pergunta: caiu a taxa de sacrifício para manter a inflação sob controle? — avaliou o professor.

Ele estudou o caso do Brasil e de outros países que passaram a adotar o mesmo mecanismo e concluiu que há boa indicação de que hoje é preciso menos sacrifício — ou seja, menos redução da taxa de crescimento — para manter a inflação sob controle.

De manhã, na palestra inaugural, falou Kenneth Rogoff, de Harvard. Já foi economista-chefe do FMI, já veio aqui em outros seminários desses e já é chamado de "Ken" pelos economistas brasileiros.

Ele tentou responder à questão-chave nesse debate: por que as taxas de juros são tão altas no Brasil?

O Brasil fez sete moratórias ao longo de sua vida como país independente. Mas não é o único com essa história. Ele apresentou uma lista dos serial caloteiros . O argumento é bom, mas insuficiente.

Quando acabou de falar, perguntei para ele como era possível explicar dois casos. A Rússia, que deu um calote em 98, e é considerada Bom Investimento, e a Argentina, que deu um calote ano passado e já está no mesmo nível de risco-país do Brasil no Embi do JPMorgan.

Kenneth Rogoff tem uma boa explicação para a Rússia: ela tem petróleo, tem reservas demais, não tem dívida, hoje é credor e não tomador de crédito. Outros economistas por perto explicaram a Argentina: os investidores estão lá por curto período, só para fazer um pé-de-meia.

O BC podia ontem comemorar porque está cumprindo a meta, mas continua o mistério de o Brasil ter a mais alta taxa de juros do mundo. Isso certamente cria distorções.

O BANCO RURAL divulga hoje um balanço vermelho (ops!): um prejuízo de R$ 130 milhões, vai provisionar R$ 156 milhões e já iniciou execução judicial contra todo mundo. Vai fechar 40% das agências e demitir 800 funcionários. O banco, que começou como braço financeiro de uma empreiteira, emitiu o cheque do Fiat Elba e outras coisas colloridas e mergulhou de cabeça no valerioduto, está decidido a mudar de vida.

Lucia Hippolito :Encreca na Câmara

BLOG NOBLAT

 

" Sempre se disse que na Câmara dos Deputados existe de tudo, menos tolos. Segundo o Dr. Ulysses Guimarães, o mais bobo dos deputados conseguia consertar relógio calçando luvas de boxe.

E mais: sempre se soube que, por mais estripulias que façam, senadores e deputados têm um ouvido colado na opinião pública. Quando vão visitar as bases, voltam cheios de informações sobre o que pensa o eleitorado de sua região.

 

E é natural. A política tem poucas leis realmente imutáveis. A primeira diz que, numa democracia representativa, os políticos são eleitos. E a segunda diz que eles gostam de ser reeleitos.

Portanto, por mais bobagens que o deputado ou o senador possam fazer, uma visita as bases conserta quase tudo. De volta a Brasília, o deputado muda de idéia, o senador desdiz o que disse. Tudo para ficar de bem com o único povo que lhe interessa: o seu eleitorado.

 

A encrenca em que está metida a Câmara dos Deputados não tem precedente na história da República. Olhem que já saiu até tiro no Congresso, mas nunca um presidente da Câmara foi tão severamente criticado, tão desautorizado como foi o atual presidente, deputado Severino Cavalcanti.

 

Nunca é demais lembrar que Severino não foi eleito por acaso, nem por esperteza própria. Severino é resultado do festival de incompetência que assolou o PT quando da eleição para a presidência da Câmara, em fevereiro deste ano.

 

E aí sobra para todo mundo. Do presidente Lula, passando pelo então todo-poderoso ministro José Dirceu, pelo então presidente da Câmara, deputado João Paulo, que na ânsia de se reeleger estava mais preocupado em manter sua amizade com o publicitário Marcos Valério do que em articular uma sucessão minimamente decente, até o presidente do PT, José Genoíno, que decidiu apoiar a imposição de um candidato à presidência da Câmara francamente impopular, arrogante e auto-suficiente, como se revelou o deputado paulista Luiz Eduardo Greenhalg.

 

O resultado foi Severino Cavalcanti, rei do baixo clero, que exercita diariamente suas principais características: corporativismo, clientelismo, populismo e todos os "ismos" mais arcaicos que se possa imaginar.


Estamos navegando na mais grave crise política da história da República, com o envolvimento do governo, do partido do governo e dos partidos aliados do governo.

 

E qual é a resposta que a Câmara dos Deputados está dando a esta crise pavorosa? Severino Cavalcanti.

 

Ninguém merece."

terça-feira, agosto 30, 2005

Villas Boas:Fraco é o golpismo

JB


Dos últimos presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), o atual, ministro Nelson Jobim, é, sem sombra de dúvida, o que mais se movimenta nos contatos com o Legislativo e o Executivo e o mais loquaz nas entrevistas e declarações aos colegas da imprensa. Não se trata de crítica, mas de mera constatação. Ainda agora, entrevistado por Roberto D'Ávila na TVE, com tempo à disposição, falou pelos cotovelos, saltitando dos temas políticos para os mergulhos rasos no escândalo da corrupção, que três CPIs investigam, com os complicadores da indefinição dos limites de cada uma e dos excessos de documentos que entopem salas do Congresso.

Lá pelas tantas, no embalo da melodia da sua eloqüência, o presidente de um dos poderes da República embarafustou pela vereda do ensaio sobre a crise. E se deixou levar pelos ventos do otimismo, servido como xarope de ânimo para a cura da epidemia de frustração em que afundamos, em maciça a amargurada maioria.

Pois a visão panglossiana enxerga a crise pelas lentes róseas como uma demonstração prática da vitalidade das instituições. Reconhece que há pedras no caminho, cascalhos que não ameaçam a solidez do regime democrático. O Congresso funciona, as CPIs investigam e o ministro não escapa da repetição da óbvia e impositiva necessidade da apuração das denúncias e a punição dos culpados. Sobre os embaraços do governo, da inação administrativa à omissão do presidente ou a avaliação dos dois anos e oito meses perdidos de mais da metade do mandato, nem uma palavra de reparo, o beliscão da reprimenda.

Não é difícil entender o saudável otimismo do ministro. Ao contrário, sobram-lhe razões para estar de bem com a vida. Desfruta de amplo acesso aos andares de cima dos outros poderes e sabe utilizá-lo na defesa dos interesses dos seus pares. Graças à sua obstinada e competente articulação política - com a achega do apoio do presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti - conseguiu aprovar, no Congresso, o reajuste dos vencimentos dos ministros do STF de 19 mil para R$ 21.500, retroativo a 1° de janeiro deste ano, o que representa um gasparino premiado com o pagamento dos atrasados.

Não faltou previdência ao competente articulador. No mesmo projeto encaixou a inovadora antecipação do novo aumento para R$ 24.500, a partir de janeiro, garantindo as castanhas do Natal e o peru do Ano Novo.

Mais afoito do que o presidente do STF, o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, convive com a crise que despeja lama sobre o Congresso e cuida de tapar o buraco, com firme solidariedade ao baixo clero e a todos à beira da cassação dos mandatos: jura que o mensalão não existe, é uma invenção de milhões de reais para o financiamento das campanhas. O caixa dois baixa a pecados veniais, castigados com brandura de pai amoroso. Nada além do puxão de orelhas de uma repreensão, das palmadas no bumbum da suspensão do exercício do mandato por poucos dias.

A eleição do deputado Severino a presidente da Câmara, com votos de sobra, foi o sinal da crise institucional à vista para os que não queriam enxergar a evidência. Mas, francamente, é tentar tapar o sol com papel transparente. Basta ligar a televisão, o rádio, ler os jornais, as revistas, abrir o computador e entrar nos noticiários em tempo virtual. Ou estamos na alucinação da paranóia coletiva?

Crise institucional, sim senhor, e gravíssima, envolvendo os três poderes, sem poupar a toga. O governo Lula balança, pendurado na corda bamba e podre do inesperado da denúncia que escancare a porteira do Legislativo purga a insanidade desmoralizante das mordomias, das vantagens, da madraçaria da semana de dois a três dias úteis, da indecorosa verba indenizatória, embrulhada na discutível esperteza da legalização. Anos de insensibilidade, de desprezo pela advertência das pesquisas que apontavam para a escalada da rejeição popular. No fundo do poço, focos de insensatez tramam fórmulas calhordas para garantir a impunidade de corruptos.

Só o que já se apurou e que os mais descarados tentam abafar, é mais grave, amplo e repulsivo do que as trampas do finado PC Farias que forçaram a expulsão do presidente Collor de Mello. Convém dobrar a cautela. Quando os duendes estão soltos na praça, excesso de tolerância pode ser confundido com cumplicidade.

Depois, não são as instituições que estão fortes. O golpismo é que está desarticulado, sem liderança, sem a sustentação militar dos tempos em que era moda derrubar presidentes.

Os escravos morais estão inquietos Por Reinaldo Azevedo

PRIMEIRA LEITURA

A cada vez que leio uma crônica dessas lacrimejantes, em que o analista ou a analista especula sobre a crise da esperança que se seguiria à derrocada do PT; ou, então, em que se lamentam os desvios do partido, que seria bom na origem e só proporia coisas decentes e razoáveis, toma conta de mim uma espécie de melancolia. É como se eu pressentisse que o país não tem lá muita saída mesmo. Estamos condenados a certo estado de coisas. Explico-me.

Se alguns analistas fossem para um divã político, quem sabe arrastando consigo dirigentes petistas para uma terapia de grupo, a verdade talvez lhes fosse revelada — ou, mais apropriadamente, como acontece na psicanálise quando séria, eles próprios seriam levados a descortiná-la. Estão todos eles ansiosos, doidos mesmo, para que um tucano ou um pefelista chegue ao poder. Mas o melhor é que seja um tucano — sempre mais odiado pelos petistas, como se percebe no barulhento silêncio de Marilena Chaui.

Querem todos eles voltar à sua antiga profissão: o exercício da crítica irresponsável, da esperança sem fundamento, das promessas sem fundo, do discurso moralista descolado dos limites da realidade. Sim, era uma profissão e um conforto. Eram os escravos triunfantes a exercer o poderosíssimo papel da vítima. Ou, com mais gosto ainda, eram as vítimas vicárias identificando-se com a causa do oprimido, o que lhes permitia, ademais, exercer assim uma espécie de doação em favor do outro. Todo mundo quer ser reconhecido como uma pessoa boa e generosa, ainda que não seja. Os maiores psicopatas do mundo se consideram mártires de uma causa.

A crítica de esquerda que se quer moderada e propositiva não vê a hora de ter no poder um Serra, um FHC, um Alckmin. Ainda que sejam tão distintos entre si — e parte da tragédia do pensamento brasileiro está em não reconhecer essas diferenças —, qualquer um deles voltaria a ser objeto de uma desconstrução desses analistas, que retomariam o discurso preguiçoso da modernização conservadora. Ninguém agüenta mais se sentir ilegítimo para atacar o poder, uma vez que foram, todos eles, coadjuvantes da ficção que conduziu Lula ao poder.

Vejam que estranho: a democracia brasileira teria de voltar a ter, diante dos olhos da esquerda, certa aparência de ilegitimidade (para ela, claro) para que ela própria se sentisse, então, (re)legitimada. Essa gente só consegue se entender com uma função social se for desconstruindo, como diz, o poder. Marilena é a prova mais triste, bisonha e patética disso que estou dizendo.

Esses caras passaram 23 anos sonhando com o poder. Quando o conquistam, sustentados em 53 milhões de votos, com uma oposição cordata como eles nunca foram, rigorosamente não sabem o que fazer. E não sabem não porque estejam apalermados pela incompetência apenas. Viviam o delírio de que a sociedade e o Estado tinham de ser substituídos pelo partido, de sorte que as demandas resolvidas entre eles implicariam soluções também para o país. Daí a determinação de aparelhar até carrinho de Chicabom.

Tendo dado tudo errado, os escravos estão aflitos para reentronizar aqueles que consideram os seus senhores. Não tinham projeto de governo, mas apenas alguns ressentimentos à mão. Sua chegada ao poder, diga-se, é a prova evidente de que sempre estiveram errados. Olhem que tragédia moral: só conseguem atingir o seu objetivo negando-se. Eles são, em suma, uma equação impossível.

Por isso Marilena mergulha fundo na loucura e culpa os tucanos. Porque ela só sabe ser vítima; ela só sabe existir como função ou derivação do "outro" que ela combate. Por isso ela se nega o exercício nem tanto de uma autocrítica, que talvez nem fosse necessária, mas da crítica. Ora, só reconhece um erro quem se sente autônomo e, pois, inquire sobre as próprias responsabilidades em qualquer processo. Marilena, não. Se lhe derem autonomia de vôo, voltará às caravelas para buscar a gênese do desastre. Ela existe como contestação em si. De quê? De qualquer coisa. De tudo o que está aí.

Sua experiência, aliás, como secretária de Cultura de Luíza Erundina já deixara isso muito claro. Ela não tem propostas, ela tem uma retórica, no pior sentido que essa palavra pode assumir. A retórica pode ser um discurso decoroso sobre determinada prática social, defendendo um ponto de vista, um propósito, uma tese. Pode ser apenas uma fala oca, exercida às cegas, denunciando as trapaças do poder. De qual poder? O do adversário.

Os escravos estão assanhados de novo. Reivindicam a devolução do seu direito de se sentir discriminados e fora do jogo. Querem criar de novo um bantustão nesta sociedade nojenta, capitalista e excludente, onde poderão exercer à vontade as suas utopias, em sentido absolutamente literal. Querem voltar a criticar o poder do ponto de vista de quem está cercado, sonhando com amanhãs que cantam. O poder os leva à falência moral. Por isso ou silenciam ou atacam os outros, mas jamais reconhecem a si mesmos como realidade autônoma e, pois, também criticável.

Torço para que alcancem seu intento. Não vejo a hora de a esquerda voltar a denunciar o capitalismo em vez de tê-la no poder a acrescentar ao modelo crimes que ele não conhecia.

FRASE DO DIA BLOG NOBLAT

"Lula refugiou-se no conservadorismo porque não tem programa algum. Para ele, política é como uma negociação sindical, que tem dois lados. Ou um dos dois perde ou se faz uma conciliação. É uma concepção pobre"
  



Francisco de Oliveira, sociólogo

Opinião BLOG Cesar Maia



Foco e Não Prazo !

O que se deve pedir às CPIs é foco e não prazo. Prazo significa apenas atender a uma demanda de opinião pública. Pode-se até cassar alguns deputados e mostrar resultado. Mas o sistema ficaria incólume -ou quase- com uma ou outra condenação na justiça dentro de alguns meses mais. Seria um erro, pois não se identificaria todos os dutos e canais pelos quais passam os fluxos de corrupção no Estado brasileiro.

As CPIs não podem e não devem ser cobradas por prazo, mas por foco. Devem definir seus objetivos de trabalho interno claramente. E serem desestressadas de qualquer exigência de prazos.

Os empresários querem acabar logo com isso. Querem "normalidade". A imprensa quer solução logo pois a audiência começa a ficar cansada. Mas o país precisa que os parlamentares resistam a estas pressões. Definam foco, mas não se sintam acuados por prazos.

Afinal, o PT é bom ou não é bom para a democracia? Augusto de Franco

e-agora

Duas entrevistas de Fernando Henrique foram publicadas anteontem, pelo jornal O Estado de S. Paulo e pelo jornal argentino Clarín. A primeira, muito boa. A segunda , nem tanto. As duas estão reproduzida aí ao lado, na seção artigos.

Vamos primeiro à entrevista boa, a do Estadão.

Perguntado sobre o que fazer, já que "o Brasil parece sofrer de corrupção crônico-endêmica", Fernando Henrique respondeu magistralmente. "A corrupção foi endêmica no passado em muitas democracias avançadas. Até hoje há restos dela em alguns países. Com o tempo, com punições e rigores legais, a corrupção diminui, embora seja difícil acabar com ela totalmente. O grave no caso atual é que há elementos novos na corrupção: ela se organizou em uma rede que tem apoio em uma visão política do segmento até agora dominante no PT. Como o PT está no governo, isso ampliou as possibilidades do uso de dinheiro também para manutenção e expansão do poder. De endêmica a corrupção estava passando a sistêmica". Nada a acrescentar.

Perguntado se "ainda acha que o PT será o maior inimigo do presidente Lula nas próximas eleições?", Fernando Henrique respondeu: "acho que o PT será o grande inimigo do presidente Lula em 2006. O PT não fez a revisão crítica de seu programa - a autocrítica tão falada por eles - e, principalmente, de seus métodos. A superposição entre partido e governo e, agora, as evidências de que o projeto de poder do partido induz a utilizar o Estado para obter recursos e usá-los para fins privados do partido distorcem a democracia". Sim, é exatamente disso que se trata, para além do possível enriquecimento ilícito de alguns, de uma distorção da democracia.

Perguntado se "acha, como Serra, que o PT viveu o sonho do controle absoluto de todos os mecanismos de poder?", Fernando Henrique respondeu com precisão. "Eles têm uma tendência absolutista, sem dúvida. Ficou a idéia do partido redentor da humanidade. Como ele é redentor, ele sozinho toma conta do Estado e muda a sociedade. Isso é a origem de tudo. O que leva ao desastre é achar que pela causa, pelo partido, tudo pode. Foi isso que ficou daquela visão transformadora e revolucionária: apenas a casca. Hoje, é o poder pelo poder. Eu não aceito isso nem para fazer a revolução. No fundo, você está expropriando um banco. Há um pouco de complacência: como é pela causa, pode. O problema é que em geral sobra para o bolso alguma coisinha. Essa racionalização quebra os limites da lei. Como você tem compromisso com o povo, acha que está certo. É como o Lula: eu fiz tudo, eu sou o melhor. Ora, isso é totalitarismo, é fundamentalismo. Isso tem de ser combatido pelos intelectuais. Aí é que está a falência dos intelectuais: é quando não denunciam que isto está errado. No fundo, está faltando coragem para defender a democracia, que é o pluralismo, a alternância no poder. Você não tem o conhecimento absoluto, você tem de seguir certas regras". Nada a acrescentar também.

A não ser ressaltar que, por essa entrevista concedida ao Estadão, Fernando Henrique dá a entender que o PT causa prejuízos à democracia.

Vamos agora à outra entrevista, a ruim, concedida ao jornal argentino Clarín e publicada no mesmo dia (ontem).

Segundo o jornal argentino, Fernando Henrique afirmou que "esta era una crisis que empezó en el PT y ahora llega al gobierno". Dito assim, soa verossimilhante para quem não está acompanhando e analisando de perto a realidade política brasileira. Tão claro como falso. A crise começou no comando do PT que estava (con)fundido ao comando do governo.

Perguntado "¿Por qué le preocupa que el PT pueda desaparecer?", Fernando Henrique respondeu o seguinte. "Porque nuestro sistema de organización del poder está basado en dos posibilidades: PT y PSDB. Alrededor de esos dos partidos se nuclean las otras fuerzas y es eso lo que permite la alternancia. Si el PT pierde esa capacidad como polo de la alternancia, no hay partidos que puedan llenar su espacio. Puede abrirse entonces un camino populista en función de eso y de la pobreza, o porque no hay condiciones para satisfacer a todo el mundo". Resposta errada. Pois ocorre que o PT já é esse partido populista, não populista em termos de política econômica e sim populista em termos das formas de controle social que utiliza, via manipulação das massas pela propaganda política e pelos discursos de palanque de um líder que se coloca acima das instituições democrático-republicanas para estabelecer uma ligação direta com as massas, prometendo-lhes o que não pode cumprir.

Perguntado se "¿Ve al PT bueno para la democracia brasileña?", Fernando Henrique respondeu que "siempre creí eso. Pero no este PT de ahora. Nunca me gustó que el PT descalificara sistemáticamente a la socialdemocracia. Nos acusaron de todo, que éramos de derecha, que éramos neoliberales, conniventes con la corrupción. Todo eso lo hicieron para llegar al poder. Pero creo que la existencia del PT significó un contrapunto importante para nuestro partido". Novamente aqui não é bem o que parece. O PT - tanto o de outrora, como o de agora - não faz bem à democracia brasileira. Pelo contrário, usa a democracia, nela se hospeda como um parasita. Ora, isso concorre para destruir, refrear ou restringir - não para construir, aprofundar, ampliar, radicalizar - a democracia.

Um leitor alheio ao que se passa entre nós que lesse as duas entrevistas, poderia ficar em dúvida: afinal o PT é bom ou não é bom para a democracia?

Fico com a resposta implícita na primeira entrevista.

Lucia Hippolito :Enquanto isso no PT...

BLOG NOBLAT 

A fila começa a andar. Na Câmara dos Deputados, tem início no Conselho de Ética o julgamento do processo de cassação do deputado Roberto Jefferson.

 

Se for aprovado, o que tudo indica vai ser, o processo segue para o plenário. A votação é secreta, e Jefferson será cassado se a maioria absoluta dos deputados decidir pela cassação. Ou seja, 257 deputados terão que votar a favor para cassar o mandato do colega.

 

Enquanto isso, no PT Tarso Genro joga a toalha e declara perdida sua batalha contra o deputado José Dirceu. Isto significa que o presidente Lula desmontou seu ministério à toa. Deslocou seu ministro da Educação, que estava começando a discutir a reforma universitária, para morrer na praia no PT, antes mesmo de disputar a eleição para presidente do partido.

 

O candidato do Campo Majoritário será mesmo o ex-ministro Ricardo Berzoini. O curioso é que ele deu uma entrevista no fim de semana, desancando a política econômica do governo Lula, as metas de superávit primário, a taxa de juros. Ou seja, a única âncora do governo Lula, que é a política econômica.


E ontem, manifestou-se favoravelmente à retirada voluntária de José Dirceu da chapa do Campo Majoritário. Vai se entender um partido desses...

 

Na Câmara, o deputado André Costa, do PT fluminense, deixou ontem o partido, e pelo visto está apenas liderando o cordão. Deve ser seguido por outros petistas, nos próximos dias.

 

Dizem que tudo depende do resultado das eleições internas no PT, marcadas para o dia 18 de setembro.

 

Se desejam mesmo sair do partido, podem começar a fazer as malas, porque pelo visto o Campo Majoritário vai ganhar as eleições internas. A não ser que haja uma surpresa, o que, convenhamos, em se tratando do PT, pode acontecer a qualquer momento.

O que resta a Lula Por Reinaldo Azevedo

PRIMEIRA LEITURA

Este texto nasce de uma pergunta que me faço: o que resta a Lula? Então vamos pensar um pouco.

Se não for impichado, Lula vai disputar a reeleição e radicalizar o discurso. E, curiosamente, está pronto para fazer duas radicalizações: 1) na economia, pretende elevar para 5% do PIB o superávit primário, numa tentativa de preservá-la da especulação que naturalmente viria na esteira de um governo combalido; especulação agora o derrubaria nas ruas, não no Parlamento; 2) na política, investirá fundo na despolitização do debate e na clivagem entre pobres e ricos, voltando, de certo modo, às origens do PT, mas agora descolado de qualquer utopia, mesmo aquela doidivanas, que os setores à esquerda do partido encarnavam. O discurso mais propriamente ideológico, aquele que apela à luta de classes, à luta contra o imperialismo e contra a espoliação internacional, este ficará com os partidos desgarrados da nave-mãe: PSTU e PSOL.

Lula volta àquela sua pregação de sempre, de que a esquerda autêntica nunca gostou muito, mas sempre tolerou porque, afinal, dava visibilidade e musculatura ao aparelho. Sem uma patrulha mais ativa, ele se reencontra com aquilo que sempre foi: um político com curta visão de futuro, com pitadas de messianismo e populismo, mas também nem tanto a ponto de prejudicar a sua condição de tubarão da nova classe social. A construção de Duda Mendonça está morta e enterrada. Seu novo marqueteiro chama-se Ciro Gomes. O lulismo, que sempre foi mais amplo do que o petismo, virá em socorro do partido para salvá-lo do desastre absoluto, manter um organismo ainda estruturado e, tudo indica, encher o saco do próximo presidente por meio de suas correias de transmissão que continuam fortes como aparelho: CUT, MST e uma miríade de movimentos sociais e ONGs.

Volto à minha pergunta inicial: o que resta a Lula? Tendo feito a coisa errada há dois meses  — quando deveria ter dito que não seria candidato em 2006 — e vendo o governo penosamente amarrado a uma teia que só se adensa, com os índices de popularidade ladeira abaixo, terá de impedir que a economia se contamine pelo colapso do partido e do governo, hipótese em que ele se tornaria uma espécie de De la Rúa — com o agravante de que foi a incompetência que derrubou aquele governo, não a corrupção. Assim, no pouco espaço de manobra que tem, a elevação do superávit não é má idéia. E, na política, vai fazer a dobradinha com Ciro no discurso da estridência e da denúncia do... da... de... bem, de qualquer coisa. Chegou a hora em que os fiéis querem a exortação, não a razão. E Lula vai para a disputa. E para bater pesado em seus adversários.

O que lhe falta de preparo político, ele tem de faro. Faro serve para quê? Para governar é inútil. Serve, em alguns casos, para catar os patos selvagens que são alvejados e, na política, para manter cativa uma fatia do eleitorado. Pode parecer piada, mas é fato: Lula já está se preparando para a hipótese de voltar a ser o Lula que sempre foi, de sucessivos governos: Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar e FHC. A rigor, ele não deixou de ser um pouco o Lula de seu próprio governo. Ser Lula é uma profissão. Rentável e de prestígio. É claro que ninguém vai lhe dar bola depois. Mas que alternativa ele tem? Fosse outro, daria graças aos céus por terminar o mandato e chegar livre ao fim da história. Mas aí ele não seria ele. Vai continuar a achar que recebe mensagens divinas. Se abusar só da água mineral, vai perceber que é mentira.

Ele vai ter de radicalizar. É um desdobramento lógico dos fatos. Afinal de contas, sabemos agora, ele nem aprendeu nada nem mudou. Intelectuais de esquerda como Francisco de Oliveira, que sabem o que querem (lá à maneira deles), sonharam que ele poderia ser uma espécie de cavalo de Tróia. Mas ele era fraco até pra isso, e tanto os sindicalistas como os stalinistas de Dirceu estavam ocupados com outra coisa. Por isso Chico caiu fora. Outros tantos, como Marilena Chaui, que não sabem nem para que serve a taxa Selic ou o que a distingue do spread bancário — e isso se percebe em suas intervenções —, estes permanecerão fiéis a um PT emagrecido, subordinados ainda à única pepita de liderança popular que julgam ter encontrado: Lula. No fim das contas, sabem que é falsa. Mas agora é tarde. A cada tolo o seu ouro.

Há um quê de engraçado nisso. E há uma boa possibilidade de que a realidade retome a sua rotina. Elege-se um novo presidente. A CUT vai começar a criar movimentos de perturbação no serviço público e a tentar parar alguns setores da economia produtiva. O MST recrudescerá as invasões; a USP voltará a produzir seminários e manifestos sobre a desigualdade e contra o capitalismo e a globalização; os colunistas de esquerda que ajudaram a eleger Lula poderão voltar a falar mal de um governo sem culpa na consciência e, finalmente, acusá-lo de novo de direitista e conservador. Enfim, os poderosos vitimistas já estão todos prontos para voltar à cena. No fim das contas, lá no fundo da consciência, do que resta dela, talvez o próprio Lula não veja a hora de isso terminar. Melhor ter boa vida xingando os outros do que sendo xingado. E ele vai continuar com um vidão.

Mas me desviei um pouco. O que interessa observar é precisamente isto: Lula vai tentar criar uma casca de proteção à economia — e estou me referindo apenas àquele setor sensível à especulação (já volto a isso) — para poder sacolejar forte na política. Mesmo que perca a eleição, anotem aí: pode não ser o passeio que muitos estão esperando. Ele vai para o confronto. E ainda vai seduzir bastante gente, sim, senhores. Para ele, é vital que um eventual novo governo assuma como se deixasse para trás um certo rastro de ilegitimidade.

É por isso que a oposição precisará de ter bastante juízo e bastante sangre-frio para fazer suas escolhas. Vejo aqui e ali gente falando em vetar este ou aquele nome por causa disso ou daquilo. Estão brincando? Se Lula for mantido no poder pela boa vontade de estranhos, não o tomem por cachorro morto jamais. E tal observação tem dois sentidos: 1) não deve ser tomado porque não se deve apostar que as pessoas percam eleições de véspera; 2) não se deve apostar porque a sua candidatura traz consigo, naturalmente, um forte fator de turbulência, que se projetará para 2007. Pouco importa se ele vai perder ou vai ganhar.

E agora volto à questão econômica para encerrar. Com seu superávit, Lula até pode impedir crises especulativas. Mas é claro que ele sabe e nós sabemos que os investimentos, que já foram pífios, estarão, a partir de agora, congelados. Este é Lula: o país passa dois anos arrumando o desacerto provocado por sua eleição e depois pára os outros dois esperando para ver o que acontece com a sua sucessão.

Poucos se dão conta. Mas perdemos um dos maiores períodos de expansão e calmaria da economia mundial, inédito nos últimos 40 anos, tentando ora provar que o sapo era príncipe, ora impedir que o príncipe-sapo assumisse, no comando do país, a sua real natureza. E Lula, claro, é ainda um homem de sorte. Imaginem esse bando de trapalhões tendo de gerir uma crise internacional. FHC enfrentou sete. O petista pode deixar o poder sem saber o que isso significa — se Deus quiser.

Podem ficar preparados. Vem muita gritaria por aí. Lula vai disputar palmo a palmo o eleitorado de Garotinho.

DORA KRAMER Um olhar estrangeiro

O ESTADO DE S PAULO

Diplomacia européia acha que impedimento de Lula desqualificaria o Brasil Até há uns meses ainda bastante firme na crença de que haveria um segundo mandato para Luiz Inácio da Silva, a comunidade de diplomatas europeus acreditados em Brasília hoje não vê o cenário com tanto otimismo, ao contrário.

A hipótese da reeleição só não é considerada entre os embaixadores como algo absolutamente fora de cogitação porque eles não vêem no cenário ainda uma alternativa com rosto, voz e programa, que empolgue a sociedade brasileira.

Os tucanos são vistos com alguma descrença do ponto de vista da capacidade de se organizarem internamente para escolher um candidato; sobre Anthony Garotinho há um certo sentimento de pouco caso; o PFL não é tido como opção competitiva; a esquerda não é levada a sério.

Isso quer dizer, então, que os diplomatas ainda enxergam uma chance para a reeleição? Não, significa dizer que, por não compreender direito em todas as suas nuances os processos e os ritmos próprios da política brasileira, ainda mantêm a ponta dos dedos de um pé na canoa do atual presidente, mas o fazem quase por honra da firma.

Numa embaixada de laços particularmente estreitos com o Brasil se ouve uma curiosa avaliação a respeito do candidato que aparece nas pesquisas como favorito frente a Lula: o prefeito de São Paulo, José Serra, seria uma "carta usada" não representando uma certeza de vitória num eleitorado que os diplomatas imaginam seja ávido de novidades.

Por esse raciocínio de viés europeu, a hipótese de um impedimento do presidente da República seria um cenário muito ruim. Isso, sob um prisma ainda não analisado internamente: dizem, em tom algo jocoso, que o impeachment nas atuais condições - sem apelo originado na sociedade - significaria "uma volta do Brasil à América Latina".

A frase só é uma tradução fiel do pensamento nela contido se entendida com o adendo "no mau sentido". Ou seja, a adoção no País da dinâmica de interrupções de mandatos por força da conjunção de interesses políticos sem suficiente respaldo social, denotando instabilidade institucional.

Para essa análise, conta o fato de já ter havido um impeachment presidencial há 13 anos e de o Parlamento se encontrar ferido em sua legitimidade por envolvido nas mesmas denúncias que atingem o Poder Executivo.

Das conversas habituais entre embaixadores, cujo teor é bastante mais livre e informal que as informações oficialmente transmitidas aos respectivos países a respeito do transcorrer da crise, apreende-se um misto de surpresa, alívio e sentido de prazo de validade no fato de a economia, em tese, não ter sido ainda atingida pela confusão política.

A maior parte deles, pelo menos os que dispõem de estrutura mais organizada principalmente de pesquisa e contatos internos, acha que do ponto de vista da economia real, não do marcado financeiro, não há como não haver contaminação.

Apontam, como indicativo, a paralisia geral nos negócios e no andamento de trâmites de projetos oficiais.

Os diplomatas não acreditam na capacidade de recuperação política do presidente a ponto de concorrer à reeleição com chance de vitória porque não vêem nas atitudes do governo sinais de defesa convincente ou demonstrações de vigor político.

A entrevista do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, foi bem recebida pelos estrangeiros, mas digamos que numa versão menos entusiasmada que a recepção dada à fala do ministro pelos nacionais.

Estes - imprensa, políticos, empresários - somos vistos como franca e deliberadamente interessados em manter uma rede tácita de proteção em torno do ministro da Fazenda.

Acham que até a CPI dos Bingos na semana passada tratou Rogério Buratti com cavalheirismo extremo pela natureza das acusações anteriormente feitas ao Ministério Público e repetidas naquele momento ali. Seria o "efeito Palocci" pelo qual, preservando o ministro da Fazenda, o País buscasse também a autoproteção.

Sobre o futuro, nossos amigos embaixadores não têm tido condições de enviar a seus países análises com margem de erro estreita.

Digamos que nem se arriscam para não incorrer no erro, eles que há quatro, cinco meses, não faziam avaliações muito positivas sobre o desempenho do governo, mas não acreditavam em quem lhes expusesse o projeto da reeleição como possibilidade remota. Preferiam crer nas pesquisas de popularidade.

Hoje baseiam a convicção de que tal hipótese pertence ao terreno das improbabilidades fortes, em alguns fatores além da já citada incapacidade de reação.

Não vêem o governo de posse de um discurso atraente para o eleitorado, assim como não enxergam quais partidos poderiam fornecer sustentação a uma candidatura de Lula.

Mesmo assim, ainda há uma tentativa de fazer um exercício hipotético de um segundo mandato. A simulação revela um cenário ainda mais desanimador.

Pelo seguinte: com o PT caindo pelas tabelas, os outros partidos da base quase igualmente desmoralizados e o PMDB preso das próprias incongruências, os diplomatas perguntam-se que segundo mandado, afinal de contas, seria esse.


CLÓVIS ROSSI Saiam já daí, indecorosos

FOLHA DE S PAULO
 SÃO PAULO - O Brasil não seria o país da "enrolation" se não discutisse um assunto absurdamente inútil, que é saber se houve ou não "mensalão" para parlamentares.
Menos mal que um deputado, Júlio Delgado (PSB-MG), ponha as coisas no devido lugar ao dizer: "Qual a diferença entre um deputado que recebeu recursos mensalmente e outro que recebeu para pagar despesa de campanha? Nenhuma. Ambos ficam comprometidos com o governo".
Só faltou acrescentar que é irrelevante, absurdamente irrelevante, saber se os congressistas se venderam em suaves prestações mensais ou em uma, duas ou três tacadas só. Em qualquer caso, está caracterizada a falta de decoro e, por extensão, a necessidade de cassar os mandatos dessa turma toda.
Ou por acaso é indecoroso receber "mensalão" mas é decente vender-se em apenas uma ou duas parcelas? Seria risível discutir a questão não fosse este o país da permanente tentativa de trambique.
Houvesse uma liderança congressual minimamente séria, em vez de Severino Cavalcanti, e o processo de cassação já estaria concluído. O crime está provado, pela confissão de quem pagou (Delúbio Soares e Marcos Valério) e pelo reconhecimento de quem recebeu (os 18 da lista que o relator Osmar Serraglio promete fazer). Não há defesa para essa gente. Podem alegar o diabo como motivo para receber o dinheiro. Continuarão sendo indecorosos -e, portanto, obrigatoriamente cassáveis.
Todo o resto é embromação, é argumento de advogado de porta de cadeia, o que não deveria caber no Congresso Nacional houvesse um mínimo de vergonha na cara da maioria dos parlamentares.
Pode, sim, haver crimes adicionais, mas, como não é possível cassar mais de uma vez o mesmo deputado, que sejam eliminados já aqueles sobre os quais está tudo comprovadinho da silva e que prossigam as investigações, até para saber de quem veio o dinheiro do "PTduto".

ELIANE CANTANHÊDE Sem escapatória

FOLHA DE S PAULO

  BRASÍLIA - Nem impeachment, nem renúncia, nem desistência da reeleição. Lula já bateu na mesa e está candidatíssimo em 2006, para o que der e vier. A crise no PT só corrobora essa decisão -ou intenção.
No melhor cenário, o novo "núcleo duro" do governo avalia que as denúncias são tantas e tão difusas que acabam se concentrando no Congresso, deixando Lula respirar. Em sendo assim, o pior da crise estaria passando e o governo teria chances de entrar em 2006 num quadro melhor, mais tranqüilo e com Lula em boas condições de disputa.
No cenário mais realista, a crise se arrastaria durante meses, com o Congresso, o PT e o próprio governo no banco dos réus das três CPIs. Mesmo assim, e diante de uma eleição dura, até sem chances, Lula iria para a campanha. Por um motivo maior: continuar sendo o "amálgama" do PT, especialmente agora, com o partido em frangalhos, e segurar os ânimos presidenciáveis na base aliada e entre os próprios petistas.
Assim de cabeça, já se pode dizer que o vice Alencar se move; Ciro Gomes está muy amigo, mas ninguém desconhece suas pretensões de chegar a presidente; o próprio Tarso Genro estava animado com a hipótese; Palocci tem a bomba-relógio Buratti, mas é um nome considerável.
Ontem, houve dois movimentos significativos no PT. Na cúpula, Genro desistiu de disputar a presidência efetiva do partido, abrindo uma saída honrosa para José Dirceu da chapa do Campo Majoritário (a tendência, moderada, de ambos). Nas bases, a saída do partido do senador Cristovam Buarque (DF) e do deputado federal André Costa (RJ). O temor é que estejam abrindo a tão temida porteira.
Temos hoje um governo sem partido e um partido sem governo. Mas o petismo é nada sem o "lulismo", e o "lulismo" precisa muito do petismo. Com ou sem amor, o destino dos dois parece entrelaçado até a morte.
Até segunda ordem (ou dependendo dos fatos...), Lula é candidato. Para ganhar ou para perder.

LUÍS NASSIF Os sofismas do aumento do superávit

FOHA DE S PAULO

  Está equivocada essa ênfase do Ministério da Fazenda no aumento do superávit fiscal. Para ser correta, teria que se basear em duas premissas falsas:
1) a principal ameaça à economia brasileira é de ordem fiscal;
2) o principal obstáculo à queda de juros é de ordem fiscal.
A primeira premissa é falsa porque não apenas a dívida pública vem caindo como também a percepção de que a questão fiscal deixou de ser o problema central. Senão, como explicar a queda do risco Brasil?
A segunda premissa também é falsa, mas um pouco mais sofisticada. Alega que não existe crise fiscal, mas, para reduzir os juros, seria necessário maior superávit primário (receitas menos despesas, excluídos os juros). A prova maior seria a dificuldade do Tesouro em reduzir as taxas de juros em papéis de prazo mais longo.
Vamos raciocinar um pouco, que não dói. Esse mesmo mercado tem aceitado títulos de 20 anos, em moeda estrangeira (moeda que o Banco Central não emite), com "spread" de risco de 4%. Portanto, não se trata de questão de credibilidade.
Pode-se alegar que taxas de curto prazo são discricionárias. E, de qualquer modo, há o fato objetivo de que a curva dos juros mostra resistência à queda das taxas de juros de médio prazo (por tal, entendendo-se vencimentos de um a dois anos).
Ora, ao tomar sua decisão, a tesouraria da empresa analisa o custo de oportunidade. Assim que aparecem movimentos de aumento da credibilidade, que poderiam levar o investidor a aceitar papéis de prazo médio, vem o Banco Central e eleva as taxas de curto prazo, abortando o movimento. A tesouraria tem que optar entre aplicar em papéis de médio prazo a 12% ao ano ou ficar no curto prazo, com plena liquidez, recebendo taxa real de 17% ao ano. É evidente que a taxa Selic impõe uma distorção fantástica na curva dos juros. Como o BC tem a última palavra, suas decisões não estão expostas a nenhuma espécie de restrição e deseja conter a expansão da economia, simplesmente mata a demanda por crédito ao cortar a possibilidade de esticar o prazo das aplicações.
Qualquer estratégia racional reforçaria o fundamento que está mais em risco. Neste momento, o maior risco brasileiro é o de falta de condições de crescimento. Se não se quiser entrar no campo da política monetária, o maior risco ao crescimento é o gargalo na infra-estrutura, não a questão fiscal. Investimentos nessa área podem até levar ao círculo virtuoso de mais investimento (mais crescimento, maior arrecadação mais investimento).
O aumento do superávit primário significará, por exemplo, ampliar a esterilização dos dividendos das estatais. Quando a Petrobras investe em petróleo, é ganho primário na veia. Quando o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) investe em estradas, é aumento de competitividade na veia.
Há um enorme volume de capital nos fundos de investimento, prontos para financiar a economia. Mas o pensamento cabeça de planilha tem a certeza cega do raciocínio monofásico.

Greenspan é responsável por bolha imobiliária PAUL KRUGMAN

FOLHA DE S PAULO

A maior parte do que Alan Greenspan disse na conferência em sua homenagem na semana passada fez muito sentido. Mas suas sábias palavras chegam tarde demais. Ele é como o homem que sugere que se deixe aberta a porta do celeiro e mais tarde -depois que o cavalo foge- faz uma palestra sobre a importância de manter os animais adequadamente presos.
O leitor habitual sabe que nunca perdoei o presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) por seu papel na criação do atual déficit orçamentário. Em 2001, Greenspan, que foi um rígido mestre de tarefas fiscais na época de Clinton, deu um apoio decisivo aos cortes de impostos irresponsáveis do governo Bush, ao pedir que o Congresso reduzisse a receita do governo federal para que não pudesse saldar sua dívida depressa demais.
Desde então a dívida federal cresceu. Mas, até onde posso ver, Greenspan nunca admitiu que tenha dado um mau conselho ao Congresso. No entanto, o presidente do Fed voltou a nos falar sobre os males dos déficits.
Agora, parece que está fazendo um jogo semelhante em relação à bolha imobiliária.
Na conferência, Greenspan não disse em inglês claro que os preços dos imóveis estão exagerados. Mas ele nunca diz as coisas em inglês claro. O que ele disse, depois de enfatizar a recente importância econômica do aumento dos preços da habitação, foi que ele é "em parte o resultado indireto de os investidores aceitarem uma compensação menor pelos riscos. Esse aumento no valor é muitas vezes visto pelos participantes do mercado como estrutural e permanente". E ele advertiu que "a história não foi benigna com as conseqüências de períodos prolongados de prêmios de baixo risco". Acredito que isso signifique "cuidado com o estouro da bolha".
Em outubro último, Greenspan rejeitou as alegações sobre uma bolha imobiliária: "Enquanto as economias locais podem experimentar desequilíbrios de preços especulativos significativos, uma severa distorção de preços nacional parece muito improvável".
Espere, a coisa piora. Hoje em dia, Greenspan manifesta preocupação sobre os riscos financeiros criados pela "prevalência de empréstimos somente a juros e a introdução de formas mais exóticas de financiamentos com taxas ajustáveis". Mas, no ano passado, ele incentivou as famílias a assumir riscos muito sérios, ao defender as vantagens dos financiamentos com taxas ajustáveis e declarar que "os consumidores americanos poderão se beneficiar se os credores oferecerem maiores alternativas de produtos de financiamento ao tradicional financiamento de taxa fixa".
Se Greenspan tivesse dito dois anos atrás o que está dizendo hoje, as pessoas poderiam ter emprestado menos e comprado de maneira mais sábia. Mas ele não o fez, e agora é tarde demais. Há sinais de que o mercado habitacional chegou ao pico ou chegará em breve. E caberá ao sucessor de Greenspan administrar as conseqüências da bolha.

Dinheiro da China
Quão ruins serão essas conseqüências? A economia americana sofre atualmente desequilíbrios gêmeos. De um lado, os gastos domésticos estão inchados pela bolha da habitação, o que levou a um enorme surto de construções e altos gastos do consumidor, conforme as pessoas levantam capital usando suas residências como garantia. Do outro lado, temos um enorme déficit comercial, que cobrimos vendendo títulos para estrangeiros. Como eu gosto de dizer, hoje os americanos ganham a vida vendendo casas uns aos outros, pagas com dinheiro emprestado da China.
De uma maneira ou de outra, a economia acabará eliminando ambos os desequilíbrios. Mas, se o processo não transcorrer suavemente -se, em particular, a bolha habitacional estourar antes de o déficit comercial encolher-, teremos uma desaceleração econômica e possivelmente uma recessão. De fato, um número crescente de economistas usa essa palavra para 2006.
E é aqui que Greenspan continua dizendo tolices. Em seus comentários finais, ele sugeriu que "o fim do "boom" habitacional poderia induzir um aumento significativo do índice de poupança pessoal, um declínio das importações e uma correspondente melhora do déficit de conta corrente". Tradução (eu acho): o fim da bolha habitacional vai automaticamente curar o déficit comercial.
Desculpe, mas não. Uma desaceleração da habitação causará a perda de muitos empregos nas indústrias de construção e serviços, mas não terá grande efeito direto sobre o déficit comercial. Então esses empregos não serão substituídos por novos empregos em outro setor, a não ser que alguma outra coisa, como uma queda no valor do dólar, torne os produtos americanos mais competitivos, levando a mais exportações e menos importações.
Assim, a economia dos EUA terá um duro caminho pela frente. E a culpa é em parte de Greenspan.
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

JANIO DE FREITAS Cabeças não respondem

FOLHA DE S PAULO

É bastante sugestivo da moralidade dominante, não só na política, que o primeiro a ter pedida a sua cassação seja quem denunciou a imoralidade e apontou alguns dos seus praticantes na Câmara e no governo. O processo contra o deputado Roberto Jefferson andou depressa, prova de que em alguma parte das quatro comissões que conduzem inquéritos houve eficiência. Mas a CPI dos Correios argumenta, em sua defesa, que ainda nesta semana estarão encaminhados outros 18 ou 19 pedidos de cassação.
Não há por que duvidar, mas há o que lamentar. O lote de propostas cassadoras não responde à finalidade da CPI. Atende às críticas que se avolumam ao seu desempenho. Cassações aparentam resultados sem, no entanto, sequer explicar o mecanismo que permitiu as improbidades praticadas. E para desvendá-lo, em tudo o que esconde sob a farsa dos empréstimos, é que a CPI foi constituída. Cassações seriam conseqüências desse alcance. Tornam-se, porém, um meio de dar satisfações à sociedade insatisfeita.
A oposição não tem autoridade para criticar o presidente da CPI dos Correios, o petista (mais por matrícula) Delcídio Amaral, porque o exibicionismo e o despreparo dos representantes oposicionistas, quase todos, estão entre os fatores de deformação e improdutividade dos trabalhos. Nem por isso a crítica é de todo descabida.
O senador Delcídio Amaral tem sido pouco rigoroso em vários sentidos, dos quais alguns são muito prejudiciais à CPI. Caso, por exemplo, da brandura de suas cobranças ao suspeito atraso de informações corretas e completas pelas instituições oficiais solicitadas. Convocações despropositadas para inquirição parecem-se mais com manobras, para empurrar o tempo, do que sugerem investigação. Presidir CPI não pode ser atividade burocrática.
O que se passa na CPI do Mensalão não é muito diferente. A falta de objetividade é equivalente, a desordem é igual, o relator Abi-Ackel está tão mal abastecido pelo conjunto da comissão quanto o está, na dos Correios, o relator Osmar Serraglio.
Com grande atraso, nesta semana chegam às CPIs os fundos de pensão de algumas estatais. Pode faltar inquiridor habilitado ou disposto, mas a quantidade de material suscetível de inquirição é de dar inveja a Marcos Valério e Delúbio Soares. O que tanto é oportunidade para as CPIs avançarem, como um risco de mais se desgastarem.

Fora do lugar
Tarso Genro não integrava o dispositivo que se impôs ao PT. Logo, não tinha condições de encabeçar a chapa eleitoral desse dispositivo que, apesar de um ou outro afastamento pró-forma, está intacto e fechado como cúpula partidária. Ricardo Berzoini tem inimizades, mas é do grupo e conta com o aval verdadeiro de Lula.
Refundação, correção de rumo e que tais não são idéias admitidas pelos que controlam o PT há dez anos. O continuísmo não contaminou a cúpula petista só em relação à política econômica.

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