Entrevista:O Estado inteligente
MIRIAM LEITÃO Pedra no caminho
o globo
Depois de uma temporada de boas notícias, ontem veio o susto da Produção Industrial de julho, com uma queda muito maior do que a prevista pelo mercado. Todos achavam que haveria uma desaceleração cíclica, mas houve queda mesmo. Há várias explicações a posteriori, mas o fato é que foi um número ruim e inesperado.
Os mais pessimistas do mercado esperavam uma queda de 1%. Foi de 2,5%. Além disso, foi generalizada: atingiu quase todos os 23 setores pesquisados. Como explicar o fato depois da alegre comemoração do crescimento do PIB do segundo trimestre? Primeiro, é preciso admitir: difícil é explicar como um país com uma taxa de juros monumental e a pior crise política em duas décadas pode colher tantos bons indicadores econômicos. Uma hora o impacto da política monetária e da crise política afetaria o nível de atividade. A hora chegou.
Segundo, é preciso ter calma. Não é o fim do crescimento. O país vai crescer este ano por volta de 3,5%, o que não é ótimo, mas é bem razoável para o nível dos problemas que enfrentou, como, além dos já citados, a forte seca que atingiu o Sul do país no começo do ano.
Terceiro, fica ab-so-lu-ta-men-te claro que está na hora de derrubar os juros. Eles têm que ser calibrados para a inflação mais perto da meta e com um mínimo de custo no nível de atividade. A inflação já caiu e a economia vem desacelerando devagar; agora caiu mais forte. Dois bons motivos para iniciar a queda dos juros. É bom lembrar que eles começaram a subir há um ano e só pararam há um mês; um ciclo "suficientemente longo".
Alguns economistas acham que parte da queda se deve à crise política. Ela foi, de fato, forte em julho e afetou a expectativa do consumidor que, como divulgado, caiu em julho. Isso torna a economia brasileira ainda mais difícil de ser analisada.
— Se nós economistas temos dificuldade de fazer previsões quando o assunto é só economia, imagine quando entram categorias da ciência política — diz Fábio Giambiagi, que lembra, no entanto, que já há sinais de melhora no horizonte econômico:
— Em agosto, as importações de bens de capital tiveram um resultado estupendo, o que sinaliza um quadro bom.
Não é, portanto, o início de um movimento de queda forte, mas apenas uma etapa de uma desaceleração que vinha acontecendo devagar e que ficou mais forte no mês de julho.
O gráfico abaixo, elaborado pela Tendências, mostra que a queda no mês de julho foi forte mas, olhando pela média móvel trimestral, a variação é pequena. O número de bens de capital caiu 7,6% na comparação julho/junho, porém, no acumulado dos dois meses anteriores (maio e junho), estava com um crescimento de 9,6%. Com bens duráveis, o efeito foi semelhante: caiu agora 5,9%, mas havia crescido 13,5% nos dois meses anteriores.
A Tendências estava com uma das previsões mais otimistas do mercado: achava que cairia apenas 0,4%. Roberto Padovani diz que o número indica três fatos: maior cautela dos consumidores; os consumidores estão chegando no limite do endividamento; maior preocupação dos empresários, como tem ficado registrado em pesquisas de expectativa tanto da FGV quanto da CNI. No IBGE, também a explicação é de que é um recuo e não o início de uma onda recessiva.
— A queda foi generalizada, por isso, intensa. Porém, voltamos para um nível um pouco acima de abril — explicou Silvio Sales, do Departamento de Indústria do IBGE.
Parte da queda é explicada pelo movimento forte demais nos meses anteriores. Veículos automotores, por exemplo, vinham com tudo este ano e tiveram uma queda — já esperada — de 4,6%. Mas os dados da Anfavea, que estão mais atualizados, indicam que, em agosto, o quadro já se reverteu. No ano, as vendas internas crescem 10% e a produção 14%.
— Os números mostram que o mercado doméstico também está ajudando a dar sustentação à indústria — avalia Fábio Silveira, da MS Consult.
Fábio diz que ruim mesmo está sendo o ano agrícola. Fertilizantes, estão caindo 24% e tratores, segundo a Anfavea, no acumulado janeiro a agosto, 36,8%. Colheitadeiras caem 61%. E o IBGE revela uma queda de 41,6% na comparação ano a ano quando se trata de máquinas e equipamentos agrícolas.
Contudo, assim como Padovani e Silvio Sales, Fábio Silveira acredita que julho não é tendência, é ponto fora da curva.
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