FOLHA DE S PAULO
No documentário "Entreatos", de João Moreira Salles, sobre a campanha de Lula em 2002, há uma cena que, em retrospecto, gera uma certa tristeza. Um motoqueiro, de passagem, diz: "Lula, você é a última esperança. Acabou você, a gente não acredita em mais nada".
Última esperança? Não, claro que não. Como escreveu o empresário Antônio Ermírio de Moraes, em artigo publicado na Folha, domingo passado, o Brasil é muito maior do que os seus governantes. Sobreviveu a Fernando Collor e a dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Sobreviverá a Lula e ao PT.
A cada dia que passa, fica mais claro que Lula era uma grande ilusão, uma falsa esperança. Poderia até usar palavras mais fortes. Quando vi o documentário acima citado, que retrata sobretudo os bastidores da campanha de 2002, uma coisa me impressionou profundamente: a ausência total e completa do Brasil. O homem que se preparava para assumir a Presidência da República falou de tudo e de todos, tocou nos assuntos mais diversos, mas não dedicou uma palavra sequer ao país. Saí da sala de projeção com a sensação amarga de ter sido submetido a duas horas de arrivismo e deslumbramento.
A cada dia que passa, fica mais claro, também, que o governo Lula corre risco de não sobreviver. Não há dúvida de que o Congresso, tão envolvido pela corrupção, terá grande dificuldade de votar o impeachment do presidente da República. Não há dúvida de que as elites do país preferem que Lula chegue ao fim do seu mandato. No exterior, o governo Lula não enfrenta grandes dificuldades. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, John Snow, esteve por aqui nesta semana e reiterou o seu entusiasmo pela política econômica do governo brasileiro.
Mas, se surgirem provas inequívocas do envolvimento de Lula com corrupção e irregularidades, quem se animará a sugerir que sejam simplesmente desconsideradas?
Atribui-se a Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, a advertência de que o Brasil se tornaria ingovernável caso ocorresse o impeachment. Estranha advertência. A Constituição estabelece o procedimento na hipótese de impedimento ou de renúncia do presidente: assume o vice-presidente da República.
O país se tornaria ingovernável com José Alencar? O vice-presidente, como se sabe, tem restrições à política econômica. Esse é o seu grande pecado. Ele vem fazendo, há muito tempo, críticas razoáveis e sensatas à política de juros do Banco Central. E daí? Até o presidente da Febraban, Márcio Cypriano, em entrevista à Folha, domingo, pediu a redução dos juros.
Haveria, por acaso, uma rebelião popular na hipótese de impeachment? Os brasileiros iriam às ruas para defender o presidente que elegeram em 2002?
As pesquisas mostram que o povo ainda confia no governo e apóia o presidente. Mas cabe perguntar: há entusiasmo nesse apoio? Ou é um apoio basicamente morno e indiferente?
A segunda hipótese parece mais plausível. É difícil admitir que os brasileiros tenham desenvolvido uma identificação forte com o governo. Essa identificação só existiria se o presidente Lula, respeitando os seus compromissos com o eleitorado, tivesse seguido políticas econômicas e sociais completamente diferentes das que adotou, vale dizer, políticas capazes de produzir crescimento econômico vigoroso e distribuição de renda e riqueza. Agora, obviamente, é tarde demais para mudar de rumo.
Se o povo brasileiro for confrontado com evidências claras de participação do presidente nos escândalos que vieram a público, ficará chocado e decepcionado, verterá uma ou duas lágrimas, mas não levantará um dedo em sua defesa.
Entrevista:O Estado inteligente
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