Por várias vezes, chamei a atenção de meu leitor para mudanças estruturais que estão ocorrendo na economia brasileira nestes últimos anos. A mais importante delas é a crescente internacionalização de nossos fluxos comerciais e financeiros. Estamos, agora, colhendo os primeiros frutos dessa mudança de rumo definida nos primeiros anos do governo Fernando Henrique Cardoso e, perseguida com zelo, ao longo dos anos seguintes de seu mandato. Mesmo no governo do presidente Lula, ardoroso defensor de uma economia fechada e voltada para o consumo interno, o país continuou a trilhar esse caminho.
Sabia-se que, ao adotar a globalização, estávamos colando nossa economia aos ciclos econômicos que acontecem no mundo global deste início de século. Para o bem e para o mal. Se o mundo entrasse em um ciclo de crescimento, o Brasil seria beneficiado; se alguma crise, econômica ou financeira, ocorresse, nossa economia sofreria os impactos negativos vindos de fora. Esses impactos seriam maiores no período de transição, até chegarmos a um grau de abertura e de integração que nos colocasse em uma velocidade de cruzeiro nessa nova rota.
Foi o que aconteceu entre 1997 e 2003. Nossa economia sofreu de forma significativa com a crise da Ásia, em 1997, e com a moratória russa, em 1998. Os efeitos dessas ondas externas foram magnificados pela existência de um regime cambial no Brasil incompatível com o próprio conceito de uma economia aberta. Mas o governo FHC, que havia sido paquidérmico no reconhecimento dos erros associados ao regime de câmbio fixo, teve a agilidade de uma enguia para adotar o regime de livre flutuação do real e do sistema de metas de inflação.
Corrigidos os erros do passado, o presidente FHC e seu governo tiveram a coragem de manter o rumo, mesmo com o custo terrível para qualquer partido político que foi a derrota nas eleições presidenciais de 2002. A conversão do presidente Lula ao modelo de economia herdada de seus adversários históricos, não interessa se por intervenção dos deuses ou dos homens, manteve o mesmo caminho de integração econômica. Essa perseverança no modelo acabou por premiar seus seguidores. Em fins de 2003, o mundo entrou em um período de forte expansão econômica, e o Brasil passou a navegar com ventos favoráveis.
Nossas exportações passaram a crescer a taxas incríveis, em razão do aumento do comércio internacional e dos preços de produtos importantes produzidos no Brasil. Cito como exemplo marcante desse processo o aumento de mais de 70% no preço do minério de ferro exportado por empresas brasileiras. Com a força de nossas exportações, o saldo de nossa balança comercial atingiu números inimagináveis há algum tempo. Com isso, passamos a ter saldos positivos em nossa conta corrente externa, arrastando para baixo o risco soberano do país e o custo de nossa dívida externa.
Essa maré favorável continua em 2005. O mundo cresce a taxas expressivas, e os analistas esperam uma aceleração ao longo dos próximos meses. A maior economia do mundo, os Estados Unidos, deve crescer mais de 4%. A China deve manter sua velocidade incrível de cruzeiro e arrastar os demais países da Ásia, inclusive o Japão. Mesmo a União Européia deve acelerar sua expansão.
Essas previsões têm levado os analistas a revisar para cima o saldo de nossa balança comercial em 2005. Os economistas da Quest trabalham com algo próximo a US$ 44 bilhões e um resultado positivo em nossas transações com o exterior superior a US$ 15 bilhões. Nesse cenário, mesmo com a crise política atual, o risco-país deve fechar o ano próximo aos 350 pontos. Para o caso das maiores empresas exportadoras do país, esse prêmio pago no exterior deve ficar em níveis ainda mais baixos.
Esse cenário de céu de brigadeiro, apesar da tormenta política de Brasília, deve consolidar ainda mais o caminho escolhido por Fernando Henrique Cardoso em 1995.
Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, agosto 05, 2005
Os bons ventos da economia mundial LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
FOLHA DE S PAULO
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