O ESTADO DE S PAULO
Um dos aspectos mais intrigantes desta crise política que não dá trégua há mais de dois meses é a ausência de mobilização ostensiva da sociedade civil. Contra ou a favor do governo. As ruas estão silenciosas. Todos os brasileiros que viveram a época das passeatas e comícios-monstros da campanha das Diretas Já! há 21 anos - isto para não recuar até a Passeata dos Cem Mil em 1968 - estão estranhando as ruas vazias, o silêncio das grandes cidades. Será que toda esta avalanche de escândalos, que arrastou parte do ministério, diretorias inteiras de estatais, presidentes de partidos, líderes de bancadas e ameaça a própria existência legal do PT não está sendo capaz de mobilizar a sociedade civil? Ou será que a indignação ainda não atingiu seu ponto de ebulição? Talvez não seja uma coisa nem outra. A sociedade civil tem dado demonstrações eloqüentes de insatisfação e cobra a cada dia o aprofundamento das investigações e uma manifestação oficial das autoridades da República. Esta é a primeira crise política do Brasil informatizado e digitalizado. Pela primeira vez uma crise política está sendo acompanhada em tempo real, com TVs a cabo e rádios transmitindo CPIs o dia inteiro. Mas a verdadeira estrela desta crise é a Internet. Blogs, jornalismo on-line, agências de notícias, fotos tiradas por celulares e jogadas na rede, correntes transmitidas por e-mails, manifestos, abaixo-assinados. Enxurradas de cartas de leitores aos jornais. E sobretudo toneladas de correspondência eletrônica enviada aos parlamentares no Congresso Nacional. A caixa postal de suas excelências fica abarrotada de mensagens de protesto ou de elogio. A sociedade brasileira está vivendo novos e interessantes tempos, tempos de passeatas virtuais. Por isso as ruas ainda estão vazias. Alguns poderão argumentar que todas estas manifestações são obra da classe média, coisa do movimento dos com-internet. Mas é a classe média quem lidera a mobilização da sociedade civil. São intelectuais, estudantes, artistas, profissionais liberais. É essa gente que inicia os movimentos de rua, as grandes passeatas, os grandes comícios. Claro que depois são seguidos pelos grupos organizados: funcionários públicos, sindicatos, associações de classe. Os políticos, em geral, são os primeiros a captar o sentimento que vem das ruas, o recado da sociedade. Assim foi na campanha das Diretas, quando a sociedade começou a se interessar pelo tema, e o PMDB, dr. Ulysses à frente, assumiu a liderança da mobilização. No momento, o País não conta com lideranças experientes, gente que já viu muita coisa, gente que é ouvida pelos mais jovens. Não existe liderança na Câmara, nem no Senado. As novas estrelas do governo e da oposição são muito jovens, praticamente todos da mesma idade. Não existem grandes lideranças nas hostes governistas nem na oposição. E a sociedade brasileira vai avançando, órfã, contando apenas com suas próprias forças. A classe política começou a entrar em contato com essas novas passeatas virtuais há algum tempo. No episódio da fracassada tentativa de aprovação da malfad ada Medida Provisória nº 232, aquela que iria sobretaxar os prestadores de serviços, a força deste movimento virtual ficou evidente. Deputados e senadores não davam conta de toda a correspondência eletrônica. O resultado foi o recuo do governo, quando ficou claro que a sociedade não ia tolerar mais um aumento de imposto. Em seguida, vieram as manifestações contra as tentativas de aumentar o salário dos deputados e senadores. A gritaria na Internet foi de tal ordem, que o Congresso recuou. Nunca é demais lembrar que foi a classe média brasileira que virou o jogo a favor de Lula em 2002. Cansada de oito anos de arrogância tucana, a classe média perdeu o medo e decidiu apostar na candidatura petista. Mas a classe média é animal arisco. Assim como vem, cheia de amor para dar, se for maltratada e desconsiderada, inicia a mobilização. Por enquanto, em passeatas virtuais.
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Entrevista:O Estado inteligente
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domingo, agosto 14, 2005
Lucia Hippolito : É tempo de passeatas virtuais
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