É oportuno lembrar que esses mesmos desafios de tornar o mercado mais aberto, de desengessar a legislação trabalhista e de manter um equilíbrio orçamentário existem também no Brasil e estão sendo tratados pela equipe econômica. Mas não se espera nem no Brasil nem na zona do euro resultados melhores neste segundo semestre. E em ambos os casos - Brasil e União Européia -, já como um todo com 25 países, dependem da legislação que passa pelos respectivos Congressos.
SÓ DOIS CRESCEM
Os dados desanimadores divulgados na sexta-feira pelo Eurostat, órgão oficial de estatística da União Européia, projetam crescimento máximo de 1,2%, abaixo do pequeno aumento de 1,4% no ano passado. No mesmo dia, as estimativas de crescimento do PIB nos Estados Unidos eram de 3,6%, também desacelerando um pouco, mas não de forma significativa, os resultados do ano passado.
Na verdade, somente duas economias importantes, a China e os EUA, sustentam a expansão da economia mundial. O governo chinês admitiu, mais uma vez, que, apesar dos "esforços" (é entre aspas mesmo...) para conter o crescimento, evitar inflação e reduzir os desequilíbrios com outros blocos econômicos, não estão obtendo os resultados previstos. O PIB chinês continua expandindo-se a uma 9,5% ao ano. Ao mesmo tempo, o Departamento do Comércio dos EUA informou que o déficit comercial do país, em junho, foi maior do que se esperava, US$ 58,8 bilhões, o terceiro maior da história. Uma das causas é o aumento de 3,1% dos preços médios do petróleo, ou seja, US$ 1 bilhão somente em junho. As exportações registraram mais um aumento histórico, porém praticamente estável, em US$ US$ 106,8 bilhões, em junho, após um salto significativo nos primeiros meses do ano.
"Eu não vejo nenhuma surpresa com um pequeno aumento das exportações. Mas, como as importações são duas vezes maiores que as exportações, estas teriam de crescer também duas vezes, na mesma proporção", afirma à CNN Jay Bryson, economista da área internacional da empresa Wachovia Securities, em Nova York.
Para ele e também para a maioria dos economistas ouvidos pelo Wall Street Journal, logo após a divulgação dos dados sobre o comércio exterior em junho, isso é muito difícil, senão praticamente impossível, considerando-se que a tendência de crescimento é menor no terceiro trimestre do ano. Na verdade, para os EUA, uma expansão significativa praticamente passa pelo mercado chinês controlado pelo governo.
É muito cedo para fazer previsões de crescimento do comércio exterior americano e mundial, mas um ponto parece certo, diz ele. Considerando-se que a economia americana continua se expandindo basicamente pelo aumento da demanda interna, que responde por cerca de 70% do PIB, a tendência é de os EUA continuarem importando mais do que exportam. E isso, mesmo se a economia mundial, dos seus parceiros comerciais, acelerar nos próximos meses. Assim, os desequilíbrios comercial e financeiro continuarão favorecendo a China, na verdade uma espécie de comprador em última instância e financiador dos déficits comercial e fiscal dos EUA, por meio da compra, pelo banco central chinês, de títulos do Tesouro americano.
RESERVAS DE US$ 833 BILHÕES
Dados divulgados nesta semana mostram que as reservas cambiais da China são de US$ 711 bilhões, mas, somadas às de Hong Kong, mais US$ 122 bilhões, continuam aumentando. Considerando o crescente superávit comercial chinês, nos próximos meses chegarão a US$ 1 trilhão, como divulgamos nesta coluna. Hoje, as duas reservas totalizam US$ 833 bilhões. E estamos apenas no meio do ano.
Sem dúvida, admite o Departamento do Comércio, o déficit comercial com a China continua decisivo. Esse déficit pulou de US$ 15,8 bilhões em maio para nada menos que US$ 17,6 bilhões em junho. No caso brasileiro, o único argumento válido é a contenção dos preços internos, da inflação, mas é um fator limitante a superar.
Os números divulgados nesta semana mostram que, na verdade, o crescimento da União Européia desacelera. E, convém não esquecer, a comunidade é o primeiro parceiro comercial do Brasil. Mas, com um crescimento insignificante de sua economia, as disparidades econômicas entre os países da zona do euro e os problemas políticos internos dos países europeus para fazer as reformas estruturais mostram que o bloco não deverá expandir suas importações ou fazer concessões nas negociações da OMC. Isso tem sido dito com muita clareza pelo representante da comunidade, que enfrenta, assim como os EUA, um desafio maior, a competição da China, distorcida pelo baixo custo, os subsídios à exportação e manutenção da moeda subvalorizada.
Resta lembrar, mais uma vez, que é grande o potencial de crescimento do Brasil, e está aí para ser mais intensamente utilizado, mesmo num cenário que começa a enturvar.
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