Na verdade, é sempre possível 'sonhar um sonho errado', como escreveu Gabeira em seu discurso de despedida do PT. E sonhar o 'sonho certo', como já notei neste espaço, inclui não ter excessivas ilusões sobre as dificuldades de realizá-lo; saber da importância crucial do trabalho preparatório e, principalmente,não permitir que a legitimidade dos fins (os sonhos) justifique a não-idoneidade dos meios utilizados para realizá-los. Poucos imaginariam, por exemplo, que o que a muitos parecia, três meses atrás, um confirmadíssimo encontro marcado com mais quatro anos de Lula a partir das eleições de 2006 passaria, rapidamente, a ser visto, também por muitos, como uma seqüência de desencontros, já marcados, para as semanas e os meses que se seguirão a estes sombrios dias de agosto. Seria possível lançar à frente um olhar não negativo, em meio a tanta perplexidade e desencanto com revelações que se sucedem em vertiginoso ritmo? Penso que sim e tento dizer a seguir por quê, sempre seguindo o conselho de Verissimo e adicionando as expressões 'salvo erro' e 'salvo novas evidências em contrário' a quaisquer conclusões. A dramática, profunda e inacreditável crise ora enfrentada pelo PT, com seus inevitáveis reflexos no governo do presidente Lula e em sua 'base de sustentação parlamentar' tão, digamos assim, insolitamente formada, vai estimular uma profunda reflexão que talvez não tenha ocorrido no partido e seus arredores com a intensidade necessária nos anos que antecederam sua chegada ao poder.
O fato é que o PT chegou ao poder sem ter passado pelo profundo processo de reflexão, revisão programática e debate político interno que, por exemplo, marcou a 'refundação' do Partido Trabalhista inglês antes da vitória de Blair sobre os conservadores. Ou do PSOE espanhol, ou do Partido Socialista Francês após os turbulentos primeiros dois anos de Mitterrand, ou, para ficarmos mais próximos, a belíssima lição que nos deram os socialistas e democratas-cristãos chilenos ao se unirem na 'concertación' não apenas para se opor à influente direita chilena e conquistar o poder, mas para mostrar capacidade de governar de forma eficaz, legitimando-se, sucessivamente nas urnas, pelo bom governo. É sempre bom lembrar que Maquiavel escreveu para o Príncipe, e não para o governante democraticamente eleito para período determinado. Isto, estamos vendo agora, faz enorme diferença.
A partir de agora, no Brasil, mesmo levando em conta as inevitáveis emoções, o calor de hora e os reposicionamentos eleitorais visando 2006, creio que não só no PT, mas nos principais partidos, haverá uma tentativa de aprofundar a reflexão sobre seus respectivos futuros, sobre o que representam e sobre seus programas. Escrevendo num agosto (mas de 1979), Bobbio notou que em 'países não apenas governáveis, mas governados, existe uma relação entre grupos e programas. Na Itália, não. Num sistema de partidos complicados onde por governabilidade se entende até a difícil operação de formar um governo, não se fazem alianças com base em opções de fundo (governabilidade em sentido forte); as opções são feitas com base em possíveis alianças, de tal forma que por vezes tornam as opções de fundo impossíveis'. No Brasil, há cabeças lúcidas em todos os grandes partidos, que talvez possam aproveitar esta hora difícil para tentar enfrentar politicamente esta questão, nada trivial, particularmente numa democracia de massas como a nossa.
Uma das vantagens que tem o Brasil sobre países onde não há imprensa livre é que, nestes momentos difíceis, aumenta não só a quantidade como a qualidade média de análises, interpretações, entrevistas, artigos e ensaios que procuram contribuir para o entendimento do processo em curso. Infelizmente, também surgem manifestos de 'professores universitários', na internet, tentando compatibilizar apoio ao governo com críticas à democracia representativa. Assim como surgem renovados apelos a mudanças significativas na condução da política macroeconômica com vista a um melhor desempenho do partido nas eleições de 2006. Ora, para além do carisma do presidente e sua inegável capacidade de comunicação com o povo, a principal razão do apoio que hoje recebe o governo Lula é derivada da situação da economia. Que, por sua vez, é explicada por um contexto econômico internacional muito favorável, pela atuação do ministro Palocci e sua equipe e, por último, mas não menos importante, por avanços institucionais e mudanças estruturais, realizados pelo Brasil ao longo de muitos anos. É fundamental preservar estas conquistas, reafirmar os compromissos com sua consolidação e procurar sinalizar de maneira convincente a importância de avançar mais. Mesmo em meio a esta crise e exatamente por causa dela, a economia do País deve ser preservada, porque o resto do mundo que conosco compete se está movendo com rapidez.
Neste contexto, a palavrachave é confiança. O momento exige uma rara, difícil e paradoxal combinação de serenidade, convicção, humildade e determinação para levar as investigações adiante e aprofundar o entendimento do que deu errado. O fascinante livro de Roy Jenkins sobre Roosevelt, recém-lançado em português, contém inúmeros exemplos daquilo que o autor chama o maior atributo pessoal de Roosevelt: 'Sua confiança capaz de transmitir confiança.' Mesmo quando reconhecia erros.
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