Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 06, 2005

AUGUSTO NUNES :Volte ao trabalho, presidente


Fotos EFE

Affonso Arinos de Mello Franco foi um grande político, um notável jurista e, sobretudo, um sábio. Ministro das Relações Exteriores no governo de Jânio Quadros, reagiu com fina ironia à renúncia do presidente. ''Alguém deveria ter trancado o homem no banheiro'', murmurou.

Homens como Arinos são raros. Melhoram qualquer país. E fazem muita falta aos imersos em crises de dimensões amazônicas, como a que atormenta o Brasil. Ele saberia o que dizer, por exemplo, ao atual presidente da República. E saberia expressar-se com fluência na linguagem primitiva que Lula utiliza.

Há semanas, o presidente sugeriu aos brasileiros que levantassem o traseiro da cadeira e saíssem à caça de juros menos escorchantes. Arinos decerto recomendaria a Lula que voltasse ao local de trabalho, acomodasse o traseiro na poltrona e tratasse de governar um país à deriva. Mas os grandes atores saíram de cena. O palco está infestado de canastrões descerebrados.

Sumiram os Arinos. Proliferam dirceus, gushikens, professores luizinhos, mentores, joões paulos, jeffersons, valdemares, waldomiros, genoinos, janenes, genus, pedros, delúbios, silvinhos, severinos, jucás, malufs. E valérios. Foi essa a brava gente que prostituiu o PT, ampliou a quadrilha federal e aparelhou a máquina do Estado.

O grande assalto ao Brasil só não foi consumado porque os delinqüentes tropeçaram na certeza da impunidade. Como todos os nativos eram míopes ou idiotas, dispensaram-se de cautelas elementares. E o desfile de infâmias começou: malas de dinheiro, cuecas dolarizadas, mensalões, propinas milionárias, gatunagens, maracutaias e patifarias.

Só Lula não viu (e segue fingindo não ver) o cortejo obsceno, que continua a passar sob as barbas presidenciais. Recolhidos diariamente pela drenagem do pântano, casos escandalosos de corrupção prolongam a procissão pornográfica. O cerco dos áulicos evita a aproximação dos sinceros. Lula não enxerga a realidade. Não ouve a voz rouca das ruas.

Prefere ouvir a própria rouquidão, e para tanto passou quase toda a semana viajando pelo Brasil. Inaugurou obras há tempos concluídas e discursou. Ele adora discursar. Pouco importa o tamanho da platéia. Lula quer é falar, e fala o que a gente simples gosta de ouvir. Um punhado de taxistas reunidos em Brasília aplaudiu a pequena mentira do orador. ''Quando era moço, queria ter um bar e um táxi'', jurou o dono do Aerolula, que tem um bar a bordo. Em Garanhuns, a multidão excitou o colecionador de promessas e bravatas.

''Com ódio ou sem ódio, eles vão ter que me engolir'', berrou o candidato que vive negando reeleger-se. Além de FH, quem serão ''eles''? Que fantasmas o assombram? ''As elites'', bradou em outros improvisos - no Piauí, foram quatro em 20 horas. Viajar é isso aí. O termo ''elite'' designa ''o que há de melhor e de melhor qualidade num grupo social''. Lula, que pertenceu à elite sindical, integra a elite política. A imprensa, outro fantasma, conta o caso como o caso foi.

Pena que Lula não leia.

Com um olho, o Cabôco Perguntadô acompanha atentamente as investigações sobre o imenso Pântano do Planalto. Com o outro, vigia gatunagens refletidas no espelho retrovisor. Nessa semana, teve um pesadelo inspirado no empréstimo extorquido do Banco da Amazônia pelo senador Romero Jucá. Quer saber quando o latifundiário do ar vai pagar os milhões que deve. E o que acontecerá a Jucá se insistir no calote.

O reincidente merece a taça

Pronunciada pela primeira vez, a frase do chefe da Casa Civil pareceu coisa de bêbado. Repetida na terça-feira pelo agora deputado José Dirceu, e sublinhada pelo sotaque de Passa Quatro, a intragável sopa de letras foi servida a um país sangrado pela corrupção bilionária. O reincidente Dirceu merece a taça da semana.

''Este é um governo que não róba nem deixa robar''.

A alma dividida do ministro

O currículo do gaúcho Nelson Jobim atende amplamente aos critérios que orientam o preenchimento de vagas no Supremo Tribunal Federal. É um jurista de notório saber e reputação ilibada. Mereceu a indicação para a vaga no STF. Mereceu alcançar a presidência da instituição, cargo que transforma o ocupante no chefe do Poder Judiciário.

Quando se restringe ao papel de juiz, o primeiro magistrado do país esbanja competência. As coisas só se complicam no momento em que emergem outras duas entidades que partilham a alma dividida do ministro. A toga nem sempre sufoca o advogado Nelson Jobim, especialista em defender o indefensável, e o político Nelson Jobim.

Ladrões, mas companheiros

Nascido no rude universo dos operários, o PT transformou-se, aos 25 anos, numa escola de etiqueta. Companheiros ladrões, por exemplo, são tratados com a elegância de paulista quatrocentão. Não são demitidos. Colocam o cargo ''à disposição dos superiores''. Ou simplesmente se aposentam, como Henrique Pizzolatto.

Diretor de Marketing do Banco do Brasil e presidente da Previ, gigantesco fundo de pensão, Pizzolatto resolveu descansar depois de premiado por Marcos Valério com mais de R$ 2,6 milhões. O ex-sindicalista não saiu correndo. Foi para casa de táxi. Ali espera a hora de exibir aos amigos as gravatas-borboletas que comprou.

Uma relíquia desgovernada

Caso fosse transplantado para cidades governadas por olhares minimamente sensíveis, um bairro como Santa Teresa teria o tratamento reservado a relíquias incomparáveis. Condenado a sobreviver no Rio, o conjunto de ladeiras, vielas, casarões e matas nem sabe a quem pedir socorro. Em tese, o governador e o prefeito se juntam para cuidar de Santa Teresa. O resultado da soma é zero.

O prefeito Cesar Maia anda ocupado demais com o blog que criou para lembrar-se de Santa Teresa. O sempre governador Garotinho, já em campanha, não tem tempo para lidar com bondinhos. Quem mora lá briga sem aliados. Quem não mora dança um tango argentino.

Ladrões, mas companheiros

O que teria levado o onipresente Marcos Valério a presentear com R$ 2,6 milhões o presidente da Casa da Moeda, Manoel Severino dos Santos? Afastado do empregão, Severino da Moeda prefere ignorar a pergunta. Como o Carequinha de Minas, quando fala, mente muito, a coluna pediu socorro ao detetive Flávio Menon, consultor exclusivo para casos de polícia. Segue-se a mensagem de Menon, fiel a seu estilo curto e grosso.

''1. Um homem da mala gosta de aprender a fabricar cédulas, verdadeiras e falsas;

2. Um homem da moeda gosta de aprender a carregar malas com dinheiro vivo;

3. A casa de Severino da Moeda também fabrica selos;

4. Os Correios gastam fortunas na compra de selos;

5. O Carequinha era muito querido nos Correios;

6. É isto ou aquilo.''

A mensagem foi repassada às CPIs que investigam o Pântano do Planalto.

Adeus ao mensalão

Severino Cavalcanti, santo padroeiro do baixo clero, sabe ser caridoso também com cardeais em desgraça. A generosidade do presidente da Câmara abrilhantou a cerimônia do adeus a Valdemar Costa Neto, fulminado pelo tresoitão de Roberto Jefferson.

Ao formalizar a renúncia ao mandato parlamentar, o presidente do PL foi prontamente consolado pelo Pai do Legislativo. Depois de celebrar ''a grandeza do gesto'', Severino exortou os paulistas a reconduzirem ao Congresso o deputado que embolsou R$ 10 milhões no guichê do mensalão. Antes das urnas, Valdemar terá de entender-se com a Justiça: a renúncia esperta foi uma confissão de culpa.

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