Na fictícia Metrópolis, o Super-Homem se finge de americano comum para disfarçar os superpoderes que tem. Na inverossímil Brasília, um brasileiro comum – José Dirceu de Oliveira, mineiro de Passa Quatro – disfarçou-se de super-homem para simular superpoderes inexistentes e comandar o assalto ao aparelho estatal. "Tenho uma biografia a preservar", declamou na abertura do depoimento à Comissão de Ética da Câmara. É a biografia de um herói de araque.
O líder estudantil dos anos 60 tinha muito carisma e pouco juízo. A cada noite, trocava de apartamento para esconder-se dos órgãos de repressão e dormir em paz com as namoradas. Uma delas foi Heloísa Helena, ou "Maçã Dourada", espiã a serviço da polícia política. Os perdigueiros da ditatura poderiam ter capturado Dirceu sem arrombar a porta: a namorada cuidaria de abri-la.
Algum defeito de fabricação sempre induziu Dirceu a meter-se em tudo (e sobre tudo deliberar). Aos olhos míopes dos devotos, a falha virou virtude: ali estava um grande organizador, capaz de resolver simultaneamente problemas distintos. O homem perfeito para organizar o congresso anual da UNE. Dirceu resolveu que centenas de militantes esquerdistas se reuniriam na diminuta Ibiúna, perto de São Paulo. Até os cegos do lugarejo enxergaram a procissão de forasteiros. Faltou pão, sobrou chuva. Todos acabaram na cadeia.
Deixou a cela a bordo da lista de presos libertados por exigência dos seqüestradores do embaixador americano Charles Elbrick. Do grupo de libertadores fez parte o jornalista Fernando Gabeira, hoje deputado federal. Eleito pelo PT, transferiu-se para o Partido Verde com um argumento singelo: "Há limite para tudo". A arrogância de Dirceu, decidido a humilhar o antigo parceiro, ultrapassara todos os limites.
Em 1969, Dirceu pudera trocar a cadeia pelos bistrôs de Paris. Gabeira mergulhou na clandestinidade e na resistência armada. Lutou no Brasil até ser capturado, submetido a torturas ferozes e condenado à prisão. Há semanas, no discurso de regresso à planície, Dirceu iluminou a biografia com momentos de audácia que nunca existiram. Furtou-os do currículo de Gabeira.
"Enfrentei a ditadura de armas na mão", proclamou. Onde e quando, companheiro? Na França, empunhou apenas taças de vinho. Revólveres e fuzis, só em Cuba, a escala seguinte. Matriculado num cursinho para guerrilheiros, aí sim o aprendiz de codinome "Daniel" mandou bala. Fulminou muitos inimigos. Todos imaginários.
Voltou ao Brasil nos 70, pronto para trocar chumbo no campo. Acabou trocando alianças na cidade: usando o vistoso nome de guerra – Carlos Henrique Gouveia de Mello – casou-se com a moça mais bonita de Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná. Virou comerciante e entrincheirou-se por cinco anos no balcão do Magazine do Homem. Batalhou só em mesas de sinuca. Quando a anistia foi decretada, abandonou a frente de combate, a mulher e o filho.
Filiado ao PT, não demorou a tornar-se dirigente. Ajudou a empurrar para o acostamento os operários fundadores. Reservou a estrada principal a amigos e lacaios. A "turma do Zé" assumiu o controle do PT. Não foi difícil ao comandante impor aos militantes a "política de alianças" – bom eufemismo para suruba partidária. Inimigos históricos viraram amigos de infância. Celerados uterinos se tornaram pais da Pátria. O essencial era garantir a vitória de Lula. E os fins, para Dirceu, sempre justificaram os meios.
Lula vitorioso, o articulador da campanha achou acanhado demais o espaço reservado ao chefe da Casa Civil. Promoveu-se a superministro, monitorou a montagem do primeiro escalão e, donatário ciumento da capitania, vigiou o preenchimento dos milhares de cargos de confiança. Fatias notáveis abrandaram a gula de parceiros com medonhos prontuários. Os cargos restantes foram suficientes para assegurar o sucesso do programa "Desemprego Zero no PT".
Como Lula resolveu ser presidente sem presidir – prefere viagens, palanques e improvisos –, encarregou o Amigo Zé de cuidar da casa. Nomeado capitão do time do Planalto, Dirceu mandou e desmandou até a explosão do escândalo protagonizado por Waldomiro Diniz, amigo, assessor e extorsionário. O país descobriu que o herói de Passa Quatro não sabia nem mesmo escolher ajudantes diretos. Os rasgos na fantasia se ampliaram com as manobras cafajestes da "base aliada". E a camuflagem ficou em frangalhos com o escândalo do mensalão.
No depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, Dirceu tentou novamente disfarçar-se de super-homem. Não funcionou. A platéia inteira já sabe que o (ainda) deputado tem tantos poderes quanto um Clark Kent sob o efeito da kriptonita.
Entrevista:O Estado inteligente
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