Entrevista:O Estado inteligente

domingo, janeiro 15, 2006

Editorial da Folha de S Paulo

ONDA DE ESQUERDA
A ascensão de políticos de orientação esquerdista na América Latina enseja esperança em alguns ideólogos e temor em Washington de uma inflexão rumo ao nacionalismo estatista. Uma análise menos engajada abrandaria essas expectativas.
Houve um tempo, na região, em que o voluntarismo acaudilhado do chefe de Estado e os destinos políticos da nação que governava se acoplavam quase como duplos perfeitos. Hoje, com poucas exceções, essa justaposição não mais se verifica. Houve notável adensamento, mais veloz de duas décadas para cá, das instituições que canalizam, normatizam e legitimam a disputa política.
Esse enraizamento democrático andou de passo com a abertura comercial e financeira dessas nações ao exterior. O peso das empresas estatais na economia diminuiu muito.
Tome-se o Chile, que encontrou um modelo estável e eficiente de desenvolvimento sob inspiração liberal. A socialista Michelle Bachelet, favorita nas eleições presidenciais de hoje, representa a continuidade de um acordo político de amplo espectro. A Concertação, hegemônica desde a redemocratização (1990), vai do centro-direita ao centro-esquerda. É improvável que, se Bachelet for eleita, tenha intenção e/ou condições de alterar o curso de política tão arraigada no Estado e na sociedade.
O argumento vale para matizar as expectativas sobre Manuel López Obrador, o prefeito de retórica estatista da Cidade do México, candidato à sucessão de Vicente Fox no pleito de 2 de julho. No México, a parceria preferencial com os EUA e a liberalização comercial e financeira dependem pouco do ocupante de turno da Presidência. O Nafta (Tratado de Livre Comércio da América do Norte) foi assinado sob o PRI (Partido Revolucionário Institucional), aprofundou-se com Fox e deve seguir em marcha batida nos próximos anos.
Na Bolívia, Evo Morales, que toma posse no domingo que vem, governará sobre terreno minado. Não há hipótese de lançar ofensiva nacionalista, expropriando e estatizando empresas de energia, sem gerar ruptura. A visita cordial a empresários da região de Santa Cruz e a palavra dada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que não bulirá com investimentos da Petrobras são indícios de que Morales compreende que os tempos de retórica incendiária devem cessar.
A rigor, há pouca chance de que se repita algo parecido com o fenômeno Hugo Chávez em outro país da América Latina. A Venezuela é caso ímpar de convergência de um líder de vocação autocrática, instituições carcomidas, virtual monopólio estatal da principal atividade econômica e preço do petróleo em alta histórica.

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