Entrevista:O Estado inteligente
MERVAL PEREIRA A linguagem do PFL
O GLOBO
Quando o PT chegou ao poder, na eleição de 2002, a maior curiosidade era saber como o PFL se comportaria na oposição, acostumado a participar de todos os governos "desde Pedro Álvares Cabral", como seus adversários costumam ironizar. Passados os primeiros momentos, em que, por coerência, até apoiou algumas reformas do governo, como a da Previdência, o partido mostra-se à vontade no exercício da oposição ao governo petista, e vem aumentando o tom de suas críticas, mais inflexível até que os antigos parceiros tucanos.
A agressividade, especialmente da linguagem oposicionista do PFL, pode ser exemplificada pela frase polêmica que já ficou famosa do seu presidente, senador Jorge Bornhausen, que disse recentemente, referindo-se ao PT, que a crise fará com que "fiquemos livres dessa raça pelos próximos 20 anos". A atuação mais agressiva do PFL na atual crise política faz com que ele seja comparado à UDN de outros tempos. O prefeito Cesar Maia, pré-candidato oficial à Presidência, diz que o PFL é um sucedâneo do PSD, e não da UDN. "É um partido de fortes bases no interior, e não nos centros urbanos, como era a UDN".
Ele diz que a impressão "vem de um estilo mais udenista de três entre os dirigentes vocalizadores do PFL, como os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen e eu mesmo". Não por acaso ACM foi da famosa "banda de música" da UDN, grupo de jovens agressivos políticos. Já o senador Bornhausen tem uma definição pitoresca para a atuação do partido: "Quando estamos na oposição, somos da UDN. No governo, somos do PSD", numa referência à capacidade de negociação política que marcou aquele partido que, diz-se, não fazia reunião sem antes chegar a um acordo político.
De fato, a União Democrática Nacional (UDN), criada em 1945 para combater o Estado Novo, era o partido das classes médias urbanas que tinha como bandeira a moral e os bons costumes, a honestidade, a retidão, o trato do dinheiro público. Até a recente crise política, o PT era identificado com esses valores, tanto que Leonel Brizola o apelidou de "UDN de macacão". Pela mesma razão, o PSDB, partido urbano, representante de camadas médias da população, estaria sendo identificado com o udenismo pelos petistas.
No jargão político, ser udenista significa ser moralista, golpista. Segundo estudiosos, a UDN era moralista e moralizadora ao mesmo tempo, assim como hoje o PSDB também o é, e o PT era visto assim até que os recentes escândalos de corrupção acabaram com essa imagem puritana do partido.
Na atual crise, o PT começou acusando o PSDB de golpismo quando os tucanos insistiram na criação de uma CPI para apurar as acusações do deputado Roberto Jefferson, e o então ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, fez um paralelo com a atuação da UDN contra Getulio Vargas, que levou ao seu suicídio em 1954. Hoje, no entanto, quem está mais duro na oposição é mesmo o PFL, que trabalha com a hipótese de impeachment de Lula, enquanto o PSDB, por estratégia política, prefere que Lula chegue às eleições enfraquecido e tendo que explicar a vasta rede de corrupção que foi implantada no seu governo.
O senador Bornhausen diz que seu juiz é seu eleitorado: "Eu me guio por ele. Não deixarei que ele fique com a sensação de que estamos contemporizando com o governo por inação". O PFL está querendo deixar claro o estilo liberal, depois da sua recente "refundação", mas todos os seus líderes fazem questão de dizer que a linha ideológica do partido aponta para o centro, na mesma linha do PP da Espanha. Cesar Maia diz que sua história na esquerda brasileira mostra que a escolha de seu nome para pré-candidato à Presidência "marca esta busca do centro pelo PFL".
Até mesmo do ponto de vista tecnológico, o PFL pretende impor uma postura modernizadora na sua atuação política.Trabalha com pesquisas de opinião para traçar sua estratégia, e o prefeito Cesar Maia inaugurou recentemente um blog onde noticia os acontecimentos políticos do ponto de vista de seu partido, com comentários e especulações. O blog ficou famoso ao denunciar contratos assinados pelo ministro Antonio Palocci quando era prefeito de Ribeirão Preto, com empresas acusadas de pagar propina para o PT. Mas provoca também protestos dos cariocas, que criticam o prefeito por dedicar tanto tempo ao seu blog.
O PFL é filiado à Internacional Democrata de Centro, organismo presidido pelo ex-presidente de governo espanhol José Maria Aznar, que se contrapõe à Internacional Socialista, que reúne os partidos de esquerda e social-democratas no mundo. O que os ideólogos do PFL sugerem é que PSDB e PT têm a mesma formação social-democrata, e por isso seus governos não conseguem levar o país ao desenvolvimento. Estaria na hora de o país tentar uma experiência verdadeiramente liberal.
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Ando cometendo um erro recorrente pelo qual me penitencio: o deputado Severino Cavalcanti é o terceiro homem na escala de comando do país, mas é o segundo na linha de sucessão.
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Na coluna de sexta-feira, em vez de escrever Câmara escrevi Congresso, e por isso a frase "fazer uma limpeza no Congresso, a começar de seu presidente", deu a impressão de que me referia ao senador Renan Calheiros, quando evidentemente falava do deputado Severino Cavalcanti.
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