Entrevista:O Estado inteligente
Ilha Brasil - DEMÉTRIO MAGNOLI
FOLHA DE SP - 07/12
Subordinado a dogmas do chavismo e do kirchnerismo, o Mercosul é um obstáculo para os acordos comerciais
"É
agora ou nunca: está em jogo a própria causa do multilateralismo",
alertou Roberto Azevêdo, o diretor-geral da Organização Mundial de
Comércio (OMC), na abertura da conferência ministerial de Bali. Dias
depois, consumou-se o desastre. Com o colapso da Rodada Doha, deflagrada
há 12 anos, o multilateralismo globalista cede lugar aos acordos
regionais, enquanto a OMC é reduzida à condição de ente vestigial: um
tribunal de contenciosos comerciais. O fracasso atinge em cheio o
Brasil, evidenciando uma sequência de erros de política externa causados
pela subordinação do interesse nacional ao imperativo da ideologia.
Não
faltaram alertas. A Rodada Doha experimentou uma implosão inicial na
conferência de Cancún, em 2003, e sucessivas desilusões, entre 2006 e
2008. Ao longo do percurso, floresceram como alternativa os tratados
bilaterais de livre comércio (TLCs), mas o Brasil preferiu ignorá-los.
México, Chile, Colômbia e Peru engajaram-se na negociação de TLCs com os
EUA e a União Europeia (UE) -e formaram a Aliança do Pacífico. O
Mercosul, pelo contrário, revelou escasso interesse em concluir um
acordo com a UE, cujos ensaios surgiram antes ainda do início da Rodada
Doha. A opção pelo multilateralismo, pretexto permanente do Itamaraty,
disfarçou a transformação regressiva sofrida pelo Mercosul.
"O
Mercosul, ou o reformamos ou também se acabará", conclamou Hugo Chávez
em 2006, antes de concluir: "Vamos enterrar nossos mortos, irmãos!". O
"novo Mercosul", um diretório político tripartite, emergiu com o
ingresso da Venezuela. A reinvenção implicou o abandono do regionalismo
aberto do Mercosul original e a absorção paulatina dos cacos da Aliança
Bolivariana das Américas. Subordinado aos dogmas do chavismo e do
kirchnerismo, o bloco do Cone Sul tornou-se um obstáculo intransponível
para a negociação de acordos comerciais. Certeiro, o presidente uruguaio
José Mujica acusou a "política insular" da Argentina de estar
"arruinando o Mercosul".
Faz mais de três anos que Vera
Thorstensen avisou, quando deixava a missão brasileira em Genebra: "a
dinâmica atual do comércio internacional não está mais na OMC e sim nos
acordos regionais". De lá para cá, os EUA engataram as negociações dos
mega-acordos da Parceria Transpacífica (TPP), com as grandes economias
asiáticas (exceto a China), e da Parceria Transatlântica (TTIP), com a
UE. Se concluídos, os dois acordos transcontinentais deslocarão para o
seu interior o processo de formulação de normas de comércio e
investimentos, completando o esvaziamento da OMC. Os países da Aliança
do Pacífico ocuparam lugares no trem dos mega-acordos; o Brasil ficou na
plataforma, segurando um guarda-chuva para a Argentina e a Venezuela.
"Se
a dinâmica é fazer acordos regionais, o Brasil deveria estar negociando
não só no eixo Sul-Sul, mas no eixo Norte-Sul", sugeriu Thorstensen. O
problema é que, sob Lula e Dilma, a expressão "eixo Norte-Sul"
converteu-se numa abominação doutrinária para a política externa
brasileira. Agora, assustado com as consequências da obstinação
ideológica, o Itamaraty ajoelha-se diante de Cristina Kirchner
implorando por um consenso improvável que não feche todas as portas do
Mercosul ao acordo com a UE.
O mito da Ilha-Brasil ganhou corpo
no século 19. Invocando as aventuras dos bandeirantes, o Império do
Brasil sustentou a ideia de que o território nacional constitui uma
"ilha" na América do Sul, delimitada por fronteiras naturais que
estariam apoiadas no traçado das redes hidrográficas. A noção da
Ilha-Continente nutriu o nacionalismo imperial, forneceu um alicerce
mítico para a manutenção da unidade territorial e ofereceu argumentos
utilizados nas negociações de limites com os países vizinhos. Hoje,
ressurge na forma de uma muralha anacrônica que nos isola dos fluxos da
globalização.
Arquivo do blog
-
▼
2013
(629)
-
▼
dezembro
(220)
- Veja Edição 2354 • 1 de janeiro de 2014
- Partidos políticos e Estado - EROS ROBERTO GRAU
- Tomaram minha carteira! - CLAUDIO DE MOURA CASTRO
- "Anos de sofrimento" - ELIANE CANTANHÊDE
- Como ensinar com professores em greve? - JOSÉ PASTORE
- Rascunho para 2014 - ARNALDO JABOR
- O humor de Dilma - JOSÉ CASADO
- O meu 2013 - JOÃO PEREIRA COUTINHO
- O tampinha e o pau-brasil - MARCELO TAS
- Alvo errado - MIRIAM LEITÃO
- Dilma Rousseff "em guerra" - VINICIUS TORRES FREIRE
- Contando com a sorte - J. R. GUZZO
- É o rombo externo - CELSO MING
- O embuste ideológico e a falácia do Nirvana | Rodr...
- O ciclo sagrado da vida - LUIZ FELIPE PONDÉ
- O Julinho e o ensino - PAULO BROSSARD
- COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
- Careca de saber - RICARDO NOBLAT
- Feliz Brasil Novo - AÉCIO NEVES
- O embuste ideológico - DENIS LERRER ROSENFIELD
- Incentivo à motosserra - MÍRIAM LEITÃO
- Milhagem infiel - CELSO MING
- Mal na fita - MERVAL PEREIRA
- Do diário do coroa - JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Além dos caças - MERVAL PEREIRA
- Inventores de guerras - DEMÉTRIO MAGNOLI
- Bondades só para alguns - CELSO MING
- Bagunça nos preços de energia - ADRIANO PIRES
- O ano dos espantos - MIRIAM LEITÃO
- O ano que não terminou - MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
- CLAUDIO HUMBERTO
- 28/12/13
- COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
- O ano da crise e o grito das ruas por mudança - RO...
- O caminhão demorou, mas voltou - IGNÁCIO DE LOYOLA...
- 2013: Dilma estatiza o crédito - VINICIUS TORRES F...
- Provérbios contemporâneos - NELSON MOTTA
- Escritório em casa - CELSO MING
- Erros não assumidos - MIRIAM LEITÃO
- 2013, mais um ano perdido - ADRIANO PIRES
- Barroso empurra a história - MERVAL PEREIRA
- Um leninista de toga - REINALDO AZEVEDO
- PLANO DE SANEAMENTO TEM METAS INATINGÍVEIS
- Líder do PPS defende investigação sobre filial de ...
- Dirceu mudou cinco vezes razão social de consultoria
- Vergonha na política
- Dirceu abriu empresa no Panamá no mesmo endereço d...
- Brasil tem pior serviço público entre 30 países
- Previdência de servidor tem rombo de R$ 78 bi
- JOÃO UBALDO RIBEIRO - Leitor e amigo
- COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
- O ano em que se espera pouco - ILAN GOLDFAJN
- A política setorial em teste - JOSÉ ROBERTO MENDON...
- Haddad, o acossado - VINICIUS TORRES FREIRE
- Controle do Índice - MÍRIAM LEITÃO
- Alívio - CELSO MING
- O desastrado comércio externo - SUELY CALDAS
- Alfabetização atrasada - MERVAL PEREIRA
- Personagem do ano - DORA KRAMER
- Quem venceu o 'cabo de guerra'? - GAUDÊNCIO TORQUATO
- Pressões políticas - MERVAL PEREIRA
- A dupla identidade de E. Snowden - DEMÉTRIO MAGNOLI
- Mandela e o mensalão - GUILHERME FIUZA
- Mais riscos de inflação - CELSO MING
- Como cultivar as ex - ZUENIR VENTURA
- CLAUDIO HUMBERTO
- Cenários sombrios, uma chance para a presidente - ...
- De cabelo em pé - VERA MAGALHÃES - PAINEL
- Maconheiro liberal - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
- Teoria do leão - DORA KRAMER
- A Kombi, no tapetão - CELSO MING
- Questão de custo - MERVAL PEREIRA
- Partidobrás S. A. - DEMÉTRIO MAGNOLI
- Início da retirada - MIRIAM LEITÃO
- Ainda tem muito jogo nos EUA - VINICIUS TORRES FREIRE
- COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
- Veja - 16/12/2013
- Doar para partidos deve ser direito, não obrigação...
- O mundo melhorou - MIRIAM LEITÃO
- Doações e presentes - ROBERTO DAMATTA
- A conversa e a desconversa de Aécio - VINICIUS TOR...
- As mancadas do ministro - ALEXANDRE SCHWARTSMAN
- Tempo de espera - CELSO MING
- São Paulo decisivo - MERVAL PEREIRA
- Com jeito vai - DORA KRAMER
- Para mudar o Brasil - AÉCIO NEVES
- Governadores em perigo - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
- Preocupação oportuna, mas insuficiente - JORGE J. ...
- A narrativa e os esqueletos - DENIS LERRER ROSENFIELD
- Feliz 2016? Nada disso - PAULO GUEDES
- Cabral a bordo - RICARDO NOBLAT
- O que é dinheiro? - LULI RADFAHRER
- Vestais dissolutas - PAULO BROSSARD
- A deliciosa nudez castigada - LUIZ FELIPE PONDÉ
- Pão, circo e violência - GAUDÊNCIO TORQUATO
- A estratégia do escracho - BELMIRO VALVERDE JOBIM ...
- Natasha e Eremildo numa prova do Enade - ELIO GASPARI
- Rumo ao grau de potência - HENRIQUE MEIRELLES
- Educação e crescimento econômico - SAMUEL PESSÔA
- Causas do fracasso - AMIR KHAIR
- Não dá para brincar de empresa - JOÃO LUIZ MAUAD
- Gastos frouxos anulam rigor na arrecadação - EDITO...
- O risco das reformas de Bachelet para o Chile - ED...
- Acelerar os processos - EDITORIAL FOLHA DE SP
- Um problema que não é do meu vizinho - EDITORIAL G...
- O germe de uma revolução - EDITORIAL O ESTADÃO
- A cocaína de Lula - ELIANE CANTANHÊDE
- CLAUDIO HUMBERTO
- Divórcios na indústria - VINICIUS TORRES FREIRE
- Decisão futura - MIRIAM LEITÃO
- Variáveis-chave - CELSO MING
- Aprender a ensinar - MERVAL PEREIRA
- De mal a pior - DORA KRAMER
- Cadê a 'nova matriz'? - SUELY CALDAS
- O que me disse a flor - FERREIRA GULLAR
- O futuro do futebol - JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Celebridade cordial Mario Sergio Conti
- Panorama Carioca Gilberto Scofield Jr.
- Caindo pelas tabelas - MERVAL PEREIRA
- Não estrague a festa, estúpido! - DEMÉTRIO MAGNOLI
- Melhorou, até quando? - CELSO MING
- A cavalgadura rampante e a inflação do airbag - RO...
- Dilma tomou partido - MÍRIAM LEITÃO
- Como dar seu presente de Natal - WALCYR CARRASCO
- Somos um povo fútil? - HELOISA SEIXAS
- Feijoada radical - RUY CASTRO
- CLAUDIO HUMBERTO
- Num país da América Latíndia, amanhã - IGNÁCIO DE ...