Entrevista:O Estado inteligente
O tampinha e o pau-brasil - MARCELO TAS
FOLHA DE SP - 31/12
Juro que a minha intenção não era zombar da estatura mínima de Eike Batista, mas do fato de ele ter poucos seguidores no Twitter
O
Brasil tem este nome por causa de uma árvore. Depois do descobrimento,
arrancar o pau-brasil do solo pátrio e exportá-lo para a Europa passou a
ser a nossa primeira atividade econômica.
Se hoje
extraterrestres redescobrissem o Brasil, pela mesma lógica, o país
poderia ser rebatizado de Minério de Ferro, Soja ou Carne Bovina. O
modelo econômico ainda é o mesmo: exportar commodities a preço de
banana.
Tenho 4,9 milhões de seguidores no Twitter. Um deles é o homem mais rico do Brasil. Quer dizer, era.
No último ano, Eike Batista, dono de um império de mineração, perdeu US$ 34 bilhões.
Antes
da dinheirama evaporar, Eike e eu tivemos uma discussãozinha na rede
social. O então megabilionário não gostou da minha tese sobre as
ajudinhas que as empresas dele recebiam do BNDES para manter a nossa
sina de exportador de matéria-prima.
Ferido, ele atirou: "Quem é
esse Marcelo Tas?". É compreensível Eike ignorar a minha existência.
Enquanto ele comanda --ou comandava-- um império de dezenas de bilhões
de dólares, eu comando um programinha de humor na televisão.
Ferido, eu respondi: "Pergunte aos meus milhões de seguidores, seu tampinha!".
Juro
que a minha intenção não era zombar da estatura mínima do
megabilionário, que, como Donald Trump, também usa peruca; mas do fato
de ele ter poucos seguidores no Twitter. Em minutos, meu telefone toca. É
um assessor dele me convidando para almoçar e fumar um "cachimbo da
paz".
Na mesa, somos mais de dez pessoas: engenheiros,
economistas, assessores de imprensa... Gentilmente, Eike pede licença
para me mostrar um vídeo com o resumo dos planos dele até 2038.
Ao
final do audiovisual --com navios e tratores se movimentando sobre o
mapa-múndi ao som de música eletrônica barata--, o bilionário aguarda a
minha reação com um sorriso vitorioso.
"Eike, onde você vai
encontrar engenheiro para tudo isso? Fazer o Brasil crescer sem cuidar
da educação é como construir palácios sobre areia movediça."
Ele
me devolve a pergunta: "Já pensou em ser político?". "Sim, serei
candidato a presidente do Brasil em 2038!", respondo. "Me aceita como
tesoureiro?", ele emendou.
A mesa explode numa gargalhada,
encerrando o almoço em tom amistoso. Na saída do evento, um assessor do
bilionário me confidenciaria ao ouvido.
"Rapaz, você não sai mais
da cabeça do Eike. Na semana passada, a caminho de uma reunião
importante, em plena Park Avenue, em Nova York, ele se virou para mim e
perguntou: "Fala a verdade, você acha que eu sou um tampinha?".
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