domingo, dezembro 15, 2013

Decisão futura - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 15/12


Governar é espinhoso. A pessoa que estiver exercendo o poder em 2015, seja a presidente Dilma ou quem for eleito, terá uma difícil
decisão a tomar. Vai ter que propor uma fórmula de reajuste do salário mínimo ou confirmar a atual, que tem elevado vários custos, como o previdenciário e do seguro-desemprego. Esse é o ponto que a carta do Ibre, da FGV, destaca este mês.

Em qualquer país, esse é um assunto politicamente difícil. Mas aqui é pior porque o efeito não se limita ao mercado de trabalho. Afeta também 20 milhões de aposentados, os que recebem benefícios continuados, e o abono pago a desempregados. Politicamente, é sempre melhor dar aumentos acima da inflação, mas, do ponto de vista fiscal, o governo está reduzindo seus espaços para outras despesas.

— Nos outros países não existe a ideia de aumento real para aposentados, normalmente a preocupação é a de manter o valor da aposentadoria — diz Luiz Schymura, presidente do Ibre. Pode parecer bem antecipada a discussão, mas é um nó que terá que ser desatado em algum momento. A fórmula atual sempre elevará o salário mínimo em termos reais, já que o reajuste é pela soma da inflação e do crescimento do PIB de dois anos antes.

Foi um alivio político para o governo Dilma que não teve o desgaste de negociar ano a ano o aumento do mínimo, mas está tirando espaço de outras despesas. E quem for eleito terá que saber se continua ou não com a fórmula. “Pela legislação em vigor, até o fim do primeiro ano do próximo mandato presidencial, o Poder Executivo deve encaminhar ao Congresso Nacional um projeto de lei com as regras do ajuste do salário mínimo entre 2016 a 2019”, lembra o texto da FGV.

Desde a estabilização, em 1994, o salário mínimo está em recuperação. Em termos nominais, saiu de R$ 64 para R$ 678. O ganho acima da inflação no período é de 151%, pelas contas do economista Salomão Quadros.

De 2002 a 2013, o aumento do salário mínimo foi de 81,4%. O valor ainda é baixo, mas o problema é o atrelamento de outros benefícios, na opinião dos economistas da FGV. Os reajustes perderam ritmo desde 2011 porque o PIB tem crescido pouco, mas em qualquer cenário de forte crescimento ele acaba sendo um complicador.

O FAT está com déficit que é, em parte, produzido pelo aumento das despesas com seguro- desemprego e abono pago quando o trabalhador demitido ganha até dois salários mínimos. Os pagamentos do Regime Geral de Previdência Social são indexados ao mínimo. Os benefícios da Lei Orgânica de Assistência Social também são corrigidos pela mesma fórmula.

Afeta a vida de 20 milhões de brasileiros. “Na Previdência, ele engloba 67% dos benefícios e 48% do total dos gastos. No Loas, há a indexação total”. Os economistas da FGV lembram que o peso fiscal do seguro-desemprego e abono salarial já é grande. “Representa uma conta superior à do Bolsa Família”.

Segundo eles, se a fórmula for mantida, representará aumento real de 16,2% nessas despesas, de dezembro de 2013 a dezembro de 2019. E o Brasil, por razões demográficas, já vai aumentar seu gasto previdenciário. — O total de transferências previdenciárias e de benefícios sairá, se a fórmula for mantida, de 9,6% do PIB para 10,7%, segundo nosso cenário — disse Schymura.

A tendência é aumentar a conta pelo envelhecimento natural da população. A pessoa que estiver no poder em 2015 terá que decidir entre enfrentar esse assunto impopular ou deixar a confusão para o sucessor.

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