domingo, dezembro 22, 2013

Alfabetização atrasada - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 22/12


Um dos maiores problemas que os educadores veem no Plano Nacional de Educação (PNE), projeto de lei enviado pelo governo federal ao Congresso em dezembro de 2010 e que somente no próximo ano deverá ser aprovado, se refere à alfabetização. No projeto original a meta era alfabetizar as crianças até os 8 anos . O relator na Comissão de Educação do Senado, o tucano Álvaro Dias, alterou a idade máxima para 7 anos, mas afirmando que, até o quinto ano de execução do PNE, a idade deveria ser de 6 anos. O substitutivo do PMDB colocou esse objetivo para até 10 anos de execução do plano.

O sociólogo Simon Schwartzman, presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), chama a atenção para a necessidade de começar a boa escolarização mais cedo, ainda na pré-escola, porque déficits de formação de vocabulário e outros nos primeiros anos podem afetar os estudantes pelo resto da vida. Mas as pré-escolas precisam ter qualidade, e isto é caro, e a maioria das que tem sido criadas no Brasil nos anos mais recentes não passam de depósitos de crianças. E mesmo se a pré-escola for boa, seus resultados se perdem, se as escolas mais tarde continuarem de má qualidade .

Ilona Becskeházy pesquisadora de políticas públicas educacionais, ex-dirigente da Fundação Lemann e comentarista de educação da Rádio CBN, diz que a regra deveria ser alfabetizar aos 6 anos o mais rapidamente possível, porque a não alfabetização é que tira os alunos da escola mais para frente. Com os alunos entrando na escola aos 4 (mais de 80% já entram), não faz sentido esticar até os 8, além do que na escola privada aos 6 os alunos já escrevem pequenas redações e leem textos simples sozinhos .

O grande problema é que o Pacto de Alfabetização define a idade errada, mas para agradar ao governo e aos prefeitos do Nordeste, esticaram o prazo. Além do que pegaria muito mal para a presidente um plano que desdiz claramente o maior projeto dela na área de educação .

O relatório da Unesco de 2012 sobre repetência no ensino primário tem um gráfico que a educadora classifica de chocante , mostrando que não alfabetizar na pré-escola até os 6 anos, é um crime com o país e com as crianças. Só ditaduras e protonações quartomundistas permitem essa barbaridade, como mostra o gráfico. E nós .

Para Ilona Becskeházy deixar o parâmetro aos 8 anos, ou permitir flexibilidade nesse ponto crucial do trajeto educacional de uma pessoa ou país, vai nos deixar na vala de lama que nos metemos por negligenciar educação por tanto tempo .

Ela diz que até mesmo a base de apoio do governo já se convenceu de que a idade do Pacto da Alfabetização está errada, mas atribui a questões eleitoreiras a decisão de postergar o prazo de alfabetização: os prefeitos, principalmente do Nordeste, acham que vai ser pressão demais sobre eles, mesmo que o país já esteja gastando bilhões para colocar as crianças na escola desde os 4 anos e que o Pacto pela Alfabetização tenha adicionado R$ 3 bilhões à conta.

Alguém precisa explicar o que fazem as crianças dos 4 aos 8 anos. Nas escolas privadas, aos 5 anos as crianças já estão escrevendo muitas palavras e começando a ler e, nas favelas, as mães pagam R$ 20, 30, 50 por mês a ´explicadoras´ que ensinam seus filhos a ler até os 6, pois veem os filhos das suas patroas lendo nessa idade .

Para Ilona Becskeházy, se não estão aprendendo a ler/escrever, a culpa é da escola e não do aluno .

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